
Na última semana, o Ministério da Saúde, por intermédio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI), realizou um webinário sobre a estratégia “Indetectável=Intransmissível” (I=I). Essa iniciativa ocorre em consonância com a campanha recém lançada pelo Ministério em celebração ao Dezembro Vermelho, no último 1 dezembro, Dia Mundial de Luta e Conscientização sobre HIV/Aids.
O diretor do DATHI, Draurio Barreira, começou a fala reforçando o compromisso político do Departamento e do Ministério da Saúde, e enfatizou a determinação em eliminar a aids como problema de saúde pública no Brasil. O diretor falou que este comprometimento abrange todas as nuances da resposta ao HIV, destacando especialmente a estratégia “Indetectável=Intransmissível” (I=I) como uma peça fundamental no alcance do objetivo.

“Fiquei muito feliz neste 1 de dezembro com o destaque que a campanha também teve em relação ao I=I. Pela primeira vez, o Ministério da Saúde coloca em alto e bom som que indetectável é igual a intransmissível. Apesar de isso não ser nenhum mérito revolucionário do ponto de vista de uma gestão, é um importante reconhecimento de que a ciência e o entendimento dessa estratégia nos pauta”, afirmou.
“Quatro aspectos que a gente vem se debruçando e priorizando: a detecção [precoce], a prevenção combinada, o tratamento, e a incorporação de novas drogas [no SUS]”, elencou e complementou: “isso falando não somente de tecnologia hard, mas da combinação disso tudo e principalmente da linha de cuidado que vem da promoção ao tratamento e da luta contra o estigma e discriminação.”

Dr. Ronaldo Hallal, consultor técnico da Coordenação-Geral de Vigilância do HIV/aids e das Hepatites Virais (CGAHV), que foi o responsável pela abertura e moderação da discussão. O especialista disse que o objetivo central “de diagnosticar e de tratar uma pessoa que vive com HIV/aids está para além da supressão viral, o objetivo é promover qualidade de vida e direitos.”
O debate contou com a participação da dra. Beatriz Grinsztejn, infectologista e pesquisadora, chefe do laboratório de Pesquisa Clínica em DST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), e presidente da International Aids Society (IAS).
Beatriz destacou uma abordagem abrangente sobre a cascata do cuidado para pessoas vivendo com HIV/aids, enfatizando a importância de entender todas as fases, do diagnóstico à supressão viral. Isto visa melhorar e maximizar os resultados de saúde globalmente, compreendendo desafios específicos e disparidades regionais. De acordo com Grinsztejn, uma resposta eficaz à aids deve necessariamente reconhecer e abordar as desigualdades estruturais profundamente enraizadas na sociedade, pois a epidemia não afeta todos os grupos de maneira uniforme, sendo agravada por fatores como acesso desigual a serviços de saúde, disparidades socioeconômicas e estigmas sociais. Ao considerar e enfrentar essas desigualdades estruturais, mencionou que com uma abordagem centrada nos direitos humanos e na justiça social, é possível implementar estratégias mais justas e inclusivas, direcionando recursos de maneira a atender às necessidades específicas das comunidades marginalizadas. Para ela, uma resposta que reconhece as desigualdades não apenas trata a doença, mas também trabalha para abordar as raízes sociais que perpetuam a vulnerabilidade.

“Não temos como discutir as questões relacionadas à pandemia sem que a gente entenda de forma profunda quais são as populações mais vulneráveis e que isso também depende muito de onde nós estamos falando, de que região do mundo estamos falando… cada região a epidemia tem suas próprias características e é fundamental entender isso, esse entendimento, para que as ações tanto de prevenção, como de diagnóstico e tratamento sejam adaptadas possam ser adaptadas às situação real das populações mais vulneráveis em cada local onde as pessoas se encontram.”
Cascata de cuidado global
A pesquisadora reforçou ainda a cascata de cuidado contínuo, do ponto de vista mundial, e trouxe insights sobre onde estamos rumo às metas 95-95-95 traçadas pelo Programa das Nações Unidas Sobre HIV/Aids (Unaids).
Ela destacou que atualmente em todo o mundo, 86% (73-98) conhecem sua situação sorológica; 76% (65-89) das pessoas que vivem com HIV estão em uso da TARV; e 71% das pessoas vivem com HIV em supressão viral. E neste contexto, frisou: “embora isso seja um grande progresso, nós ainda temos globalmente 30% dos indivíduos que vivem com HIV sem carga viral que não tem suprimida, e isso é muito importante do ponto de vista da discussão que vamos fazer sobre a evidência científica com relação ao I=I.”
A epidemia na América Latina
Passando para o cenário da América Latina, a especialista esclareceu que “o que nos diferencia enquanto região e que configura problemas adicionais que temos que lidar é o fato de que na América Latina temos 25% de todos os diagnóstico de HIV que ainda se dão de forma tardia, ou seja, quando existe uma imunossupressão avançada; nós tivemos em 2022 um aumento de 8% nas novas infecções de HIV.”
Analisar e territorializar a epidemia de HIV/aids na perspectiva da América Latina, segundo ela, é crucial para desenvolver estratégias eficazes de prevenção e tratamento que considerem as nuances culturais, sociais e econômicas específicas da região.
Participação social
Representando a sociedade civil e movimentos de aids organizados, Juan Carlos Raxach, ativista e assessor de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), e Rafael Arcanjo, ativista e representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids, analisaram os impactos e o potencial que a estratégia I=I tem na garantia da prevenção e qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV. Segundo Juan Carlos, esta é “uma forma contundente e cientificamente demonstrada que atesta a não transmissão real do HIV da pessoa vivendo com HIV para outras pessoas.” Todavia, no contraponto, ele disse que “já estamos no momento de olhar de novo para ela e abordar outras questões, pois alcançar a indetectabilidade do HIV não é um processo fácil, e compõe um momento anterior que igualmente não é fácil e que sobre isso pouco se fala.” Ele reforçou que este entendimento é ponto fundamental e inegociável para existir, de fato, integralidade, interseccionalidade e intersetoriais na resposta à epidemia de aids.

Outro conceito que ele trouxe foi a questão do acesso a serviços e outros cuidados em saúde da pessoa HIV+. “O acesso ao serviço, ao diagnóstico, o acesso à continuidade para alcançar essa indetectabilidade, sabemos que não são amigáveis […].”
“Esse processo é necessário para fortalecer a relação das pessoas com os profissionais de saúde, um adequado acolhimento que permita realmente segurança no diagnóstico, ser acompanhado regularmente e ser aderente ao tratamento para alcançar esse cuidado integral e bem-sucedido.”
No entanto, segundo Raxach, essa abordagem depende de olhar os determinantes sociais. “Antigamente éramos muito pragmáticos e fechados […] o I=I é um objetivo primordial e temos que entender que cada pessoa tem um caminho a ser percorrido, e traçar estratégias individualizadas da melhor forma para então alcançar a indetectabilidade.”
“Hoje fico muito feliz com o que já falamos sobre sendo mais contundentes em dizer que indetectável é intransmissível, que por muito tempo foi uma interrogação e [um medo] por parte de muitos profissionais, mas mas quantas pessoas se mantêm indetectáveis?”, provocou a reflexão.
Além disso, o estudioso também explicou que a luta contra o estigma e discrimação são pilares essenciais para alcançar a supressão viral dos pacientes, garantindo então maior longevidade e qualidade de vida.
Ao seu ver, esse debate precisa contemplar o ponto de vista epidemiológico, mas trazer para perto também sempre o ponto de vista das próprias pessoas vivendo com o HIV.
Da culpa à liberdade
O ativista Rafael Arcanjo disse que quando uma pessoa HIV positiva compreende que se tratando e ficando indetectável não vai correr o risco de transmitir o vírus para outras pessoas, um peso de culpa é tirado de si.
“Essa questão da felicidade é um fator crucial para nós, pessoas vivendo com HIV. Eu vivo com HIV há quase 15 anos, quando esses primeiros estudos sobre o tratamento estavam ainda engatinhando e o Brasil ainda não ofertava tratamento universal […] eu passei um tempo ainda sem tratar e quase entrei em quadro de aids.”
Ele continuou: “quando eu olho para trás e escuto meus pares dentro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV, acho que o grande fator dessa informação se resume à palavra liberdade.” O ativista parafraseou o educador Salvador Corrêa, autor do livro “Segundo Ármario”, afirmando que “a gente acaba saindo desse segundo armário quando temos essa informação sob o nosso poder, mas infelizmente muito nos é negada.”

“Existe um problema de alfabetização em saúde”, afirmou.
Morador de Manaus, Arcanjo compartilhou as dificuldades enfrentadas na região: “Estar indetectável é super importante, mas existem pessoas que não conseguem chegar lá devido a vários fatores. Uma palavra que define muito o que vivemos é a palavra iniquidade, no Brasil nós enfrentamos muitas iniquidades. Chega-se no serviço e não recebe essa informação, profissionais ainda colocam em dúvida o I=I por não buscarem se aprofundar no assunto.”
Rafael na sua participação aproveitou para enfatizar a importância do movimento social na disseminação da informação sobre o I=I. “Desde que começou o primeiro movimento pelo I=I, foi o movimento social, tanto de maneira nacional como global, que passou a quebrar o estigma que marcou as décadas de vergonha.”
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)



