19/02/2014 – 20h30
Silmara Retti já era conhecida em Ubatuba, em 2009, quando deu seu depoimento à novela “Viver a Vida”, da Globo, contando sua história de portadora do vírus HIV. Nessa época, ela já lutava por melhores condições de vida para os soropositivos na região. Hoje, a ativista avalia que o Programa Municipal de DST/Aids da cidade precisa alcançar muito mais do que as cerca de 200 pessoas lá atendidas atualmente. Silmara acha que o fato de a cidade ser pequena faz com que os portadores temam a exposição, com medo de serem discriminados. Ela é fundadora e coordenadora do Instituto Blablabá Posithivo, que trabalha em parceria com a Prefeitura de Ubatuba com pessoas vivendo com HIV e aids e seus filhos e com todas as populações em condições de vulnerabilidade social.
Escritora, que já contou sua história no livro “Você Sabe O Que Eu Tenho ?”, mãe de três filhos, palestrante, Silmara sempre apoiou as iniciativas da Agência de Notícias da Aids. Por exemplo, foi ela quem ajudou a divulgar a peça “Depois Daquela Viagem”, produzida por Roseli Tardelli, editora executiva desse portal, no ano passado, durante temporada em Caraguatatuba. Nesta semana, em que fazemos o lançamento do livro “O Valor da Vida – 10 Anos de Agência Aids” em Ubatuba (na sexta-feira, dia 21) e participamos de outras atividades em torno do tema aids na cidade, Silmara bateu o seguinte papo com a gente.
Agência Aids: Você é considerada a maior liderança da aids em Ubatuba. Como vê a atual situação da doença na cidade?
Silmara Retti: Estamos caminhando com novas estratégias de prevenção, como o Espaço Mulher Bonita com oficinas de maquiagem e corte de cabelo; o projeto Prevenção na Balada, com distribuição de preservativos em casas noturnas e estamos apoiando o projeto Crack, É Possível Vencer, para moradores de rua. Contamos com o apoio de amigos e voluntários do Instituto Blablablá, assim como da Secretaria de Cidadania de Ubatuba. Um dos nossos maiores problemas é a adesão ao tratamento do HIV. Por ser uma cidade pequena, os soropositivos temem a visibilidade e, com isso, a discriminação, então, se isolam ou ignoram a doença. A lipodistrofia também colabora e muito com o abandono do tratamento. Acredito na importância das políticas públicas, mas que sejam também mais humanizadas e menos técnicas, mais próxima a nossa realidade, mais dinâmica e ativa e não engessada e sistemática.
O serviço público é satisfatório?
Precisamos potencializar o trabalho em rede.
O que falta para os usuários? Enfim, o que funciona e o que não funciona na área da saúde?
Acredito que falte uma sociedade ( me incluo também) mais ativa, como um todo, participativa, interativa e menos omissa.
O Instituto Blablablá faz um trabalho de inclusão social com populações vulneráveis. Pode nos contar como é esse projeto?
Trabalhamos a prevenção por meio de atividades culturais, educativas, esportistas, recreativas e de geração de renda. Estamos com um projeto chamado EspaSOL em parceria com a Secretaria de Cidadania e Desenvolvimento Social, Comtur e Prefeitura Municipal de Ubatuba localizado no Terminal Turístico do bairro do Perequê Açu, onde desenvolveremos nossas atividades. A ideia é agregar outras organizações e já temos algumas envolvidas,
O que o instituto oferece à população?
No momento, oferecemos para as populações em situação de vulnerabilidade, não só para os portadores de HIV, apoio psicológico com Angélica Duarte, curso de capoeira com o contrameste Leco, artesanato com Elita Souza, sarau literário, palestras, roda de bate papo, estamparia, uma minibiblioteca, encontros musicais, recreativos e workshops.
Há outras ONGs que chegam a essas populações, além do Blablablá?
Sim, temos outras ongs no município, como Projeto Namaskar, Lutadores do Futuro, Casa da Árvore e Gaiato, mas a nossa tem um diferencial, pois temos pessoas vivendo com HIV/aids e filhos, porém trabalhamos com o ser humano como um todo e a sua sorologia não é o principal motivo da sua participação na ong.
Você tem apoio necessário da prefeitura?
Sim, neste momento recebo o apoio por intermédio das parcerias com a Secretaria de Saúde e Secretaria de Cidadania e Desenvolvimento Social, onde trabalhamos a inclusão social.
Como começou no ativismo e qual foi a motivação para isso?
Eu trabalhava no Programa de DST/Aids de Ubatuba havia oito anos e senti a necessidade de mudar a maneira de se fazer prevenção. Lancei um livro contando a minha história como pessoa que vive com HIV, coloquei meu rosto na capa para enfrentar simbolicamente a visibilidade, criei o blog Blablablá Posithivo para interagir com as pessoas e, com isso, levei para as escolas e comunidades a discussão sobre o assunto, visto por um outro ângulo.O de dona de casa, completamente careta e que havia tido apenas dois parceiros sexuais. Com isso, mostrei uma outra cara da aids, com a mensagem de que somos todos vulneráveis.
Qual seu grande sonho para a aids em Ubatuba?
Não só para Ubatuba, mas para todos nós vivendo com HIV. Precisamos acreditar principalmente em nós mesmos, para não permitirmos qualquer tipo de situação que nos denigra, que não nos reconheça como cidadãos com seus direitos e deveres. Precisamos romper com os sentimentos negativos e de autodestruição e sair da zona de marginalidade que a sociedade tenta nos impor.
Fátima Cardeal (fatima@agenciaaids.com.br)


