EM TRECHO DE DEPOIMENTO QUE NÃO FOI AR, NO FINAL DA NOVELA ‘PÁGINAS DA VIDA’, CAZU BARROS EXIGE A IMEDIATA QUEBRA DE PATENTES PELO PRESIDENTE LULA; ATIVISTA ELOGIA INICIATIVA, MAS RESSALTA QUE O TESTEMUNHO NÃO FOI ‘COERENTE’ COM O QUE O AUTOR SE PROPÔS

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13/02/2007 – 13h40

Quebra de patente, dificuldade de adesão ao tratamento à base dos medicamentos anti-retrovirais e imaturidade juvenil. Esses foram alguns dos temas abordados, mas que não foram ao ar, no depoimento do soropositivo carioca Cazu Barros, transmitido no final da novela “Páginas da Vida” desta segunda-feira (12/02). O ativista elogiou o trabalho de edição da TV Globo, mas ressaltou que faltou “coerência” entre o resultado final e o que o autor da trama, Manoel Carlos, teria se proposto ao abordar a temática da pandemia da Aids no folhetim global. Segundo Cazu Barros, um dos protagonistas da campanha brasileira do Dia Mundial de Luta contra a Aids do ano passado (leia mais), o fato do personagem soropositivo da novela atravessar uma dificil condição de saúde seria para explicitar que o HIV ainda é uma enfermidade “grave”. “Fiquei feliz com o que foi ao ar, mas não foi exatamente o que eu queria. Eu queria pautar a importância da prevenção”, explica Cazu Barros, integrante da Federação de Bandeirantes do Brasil.

“Inclusive, eu fiz um pedido ao Lula pra quebrar patente já. Eu gostaria que tivesse ido ao ar”, revela o ativista carioca sobre um dos trechos que não foram utilizados na edição final do depoimento de 1 minuto e 34 segundos. Cazu Barros, assim como muitos ativistas do movimento de luta contra a Aids, teme pela sustentabilidade do programa de acesso universal aos medicamentos anti-retrovirais, devido aos altos custos dos fármacos.

Além disso, em outro trecho que não foi ar, Barros discorreu sobre a importância de alertar os jovens para o risco do vírus HIV. “O adolescente tem essa coisa, acha que é imune a tudo. Não age com a cabeça. Age sem pensar nas conseqüências”, avalia, com base na própria experiência. Cazu Barros infectou-se com o vírus da Aids aos 17 anos.

Na avaliação do ativista, “o melhor teria sido se eles [a Rede Globo de Televisão] tivessem focado [o depoimento] na dificuldade de adesão ao tratamento.” “A população acha que o coquetel pra Aids é um remédio pra dor de cabeça”, acredita, ressaltando que a medicação provoca muitos efeitos colaterais. Ainda assim, com todas as ressalvas já listadas, Cazu Barros considerou “a mensagem”, alcançada pelo depoimento gravado na última quarta-feira (07/02), como sendo “super positiva”.

“No meu Orkut [site de relacionamento] já recebi 300 mensagens [até por volta das 12h00 desta terça-feira]. Tô tendo uma recepção muito forte e positiva”, comemora. Abaixo, o depoimento, gravado em cerca de 20 minutos, na íntegra:

“Bom, peguei Aids da minha namorada aos dezessete anos de idade porque eu não usei camisinha, eu não acreditava que um dia eu poderia pegar Aids, até mesmo porque minha relação sexual era só com mulheres, com as gatinhas… Então eu sofri muito preconceito, principalmente no ambiente de trabalho né, ameaçaram a pedir demissão em massa se eu continuasse trabalhando com eles e eu fui, então, afastado pela empresa. A empresa tentou me demitir, depois tentaram me aposentar aos dezessete anos de idade. Numa briga junto à justiça eu consegui reverter esse quadro e a empresa de uma certa forma me mantém afastado até hoje, porém, com todos os direitos trabalhistas garantidos. Um preconceito que eu sofri na rua, fui impedido de usar um aparelho, lá na praia, eu tinha dado uma corrida, eu tava transpirando, e os rapazes falaram: ‘epa, você não pode malhar aqui. Você tem Aids, você vai passar Aids pra gente.’ E me impediram de usar o aparelho da praia, um aparelho público. E eu vou continuar tocando meus projetos de vida, continuar com os meus relacionamentos né e viver, que é o melhor de tudo. Lutar sempre, não desistir nunca. E quero estar aqui novamente para o dia em que chegar a cura da Aids e eu falar: eu venci efetivamente a Aids.”

Personagem soropositivo da novela “Páginas da Vida”

“A minha posição sempre foi contrária”, enfatiza Cazu Barros, em relação à caracterização do personagem soropositivo da trama de Manoel Carlos. “Eu estou irritado com esse personagem, ele só está na cama, ele só reclama da vida”, explica. “O ator [Miguel Lunardi] em si tá péssimo na formação do personagem”, conclui Barros, que também é ator.

Na avaliação do ativista, o autor da novela estaria “mostrando o que o filho viveu”. O filho de Manoel Carlos, Ricardo, morreu vítima da Aids em 1988, dois dias antes de completar 34 anos, a mesma idade de Cazu. “Cadê o parente desse personagem? Ele não tem família?”, pergunta. No início da pandemia, era comum que a família (e a sociedade como um todo) se afastasse da pessoa infectada pelo HIV.

“Eu conversei com a produtora [ele não revela o nome da profissional], ela disse que o personagem não vai morrer”, adianta. Ele refere-se ao soropositivo Gabriel, interpretado pelo ator Miguel Lunardi. Segundo informação de Barros, conseguida junto a profissionais da própria rede, a freira Lavínia (Letícia Sabatella) não irá “retribuir” o amor demonstrado pelo paciente soropositivo. “Até que ponto ela está recusando ele pela religião ou pelo HIV”, indaga, já prevendo a polêmica que se poderia criar em torno da questão.

Léo Nogueira e Simone Vianna Marcondes, redação em São Paulo

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