
Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
A América Latina está intensificando seus esforços no combate à disseminação do HIV/aids, adotando abordagens ousadas e abrangentes para lidar com essa preocupante questão de saúde pública, de acordo com representantes de governos latino-americanos, em discussão no Simpósio “Integrando Ciência e Ação para Acelerar a resposta ao HIV na América Latina“.
De iniciativa do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), o evento acontece no Rio de Janeiro em parceria com a International Aids Society (IAS), IAS Educational Fund, Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Grupo de Cooperação Técnica Horizontal sobre HIV e Aids (GCTH), Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária e o Unaids.
No primeiro dia de discussão, representantes de diferentes países falaram sobre o comprometimento no enfrentamento do HIV, com ênfase nas ações governamentais e estratégias complementares de contenção da epidemia.
A infectologista Beatriz Grinsztejn, presidente eleita da International Aids Society (IAS) abriu sua fala agradecendo a presença de todos e destacando a relevância de um evento educacional como este e com diferentes representações para a geração de novos avanços. ‘‘Temos aqui vários programas de vários países sendo representados e a presença de várias instituições […] vocês são formadores de opiniões essenciais para que possamos disseminar as discussões propostas aqui […]; a IAS sempre acreditou nesta proposta [de cooperação].’’

Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
“Essas discussões são muito importantes para que possamos integrar e melhorar a assistência e a pesquisa em prol das comunidades que servimos”, falou.
A palavra foi passada para Mário Moreira, presidente da Fiocruz, que reforçou a importância do encontro. ‘‘Temos uma representação bastante emblemática, unindo ciência, pesquisa, autoridades sanitárias […] entendemos que a aids é um problema que exige uma abordagem interseccional e multidisciplinar, que é o que estamos praticando aqui neste momento’’, afirmou.
Ele continuou: ‘‘A aids entrou no nosso cotidiano tanto do ponto de vista da sociedade, quanto do ponto de vista da ciência e tecnologia, e a FioCruz têm feito todos os esforços possíveis para combatê-la.’’
BirgitPoniatowski, diretora executiva da IAS, com gratidão citou toda a governança regional que tornou o momento possível e mencionou que o impacto do HIV/aids na América Latina deve ser encarado ‘‘com o compartilhamento de conhecimentos’’.

Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
Representando a sociedade civil, Veriano Terto, da Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), frisou que a solidariedade inter-regional deve seguir encabeçando a luta contra a aids, “no sentido de integrarmos ciência e ação, fazendo com que os resultados da ciência sejam acessíveis ao nosso continente”.
“Infelizmente na nossa região sofremos primeiro de silêncio; a gente precisa que a voz da América-Latina ecoe no cenário global de forma mais ampla e na tomada de decisões para solução dos problemas”, opinou.

Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
Em uma apresentação abrangente que trouxe o panorama do cenário do HIV/aids no Brasil, maior país e principal potência latino-americana, o médico sanitarista Artur Kalichman, do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde (Dathi/MS), destacou as ações de enfrentamento do governo brasileiro, enfatizando os esforços em prevenção, acesso ao tratamento antirretroviral e na promoção da saúde sexual, especialmente com a oferta de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV).
“A PrEP é, de fato, o método preventivo mais eficaz que a gente tem do ponto de vista da ciência, mas volto a dizer que quem não distribui camisinha, quem não está fazendo testagem, entre outros, provavelmente não está fazendo PrEP […]”.

Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
A colaboração entre autoridades políticas, organizações não governamentais, comunidades, movimentos sociais organizados e sociedade civil, foi pontuada pelo gestor como um pilar fundamental nesse esforço conjunto, rumo à eliminação da aids como problema de saúde pública até 2030, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU.
Combate ao estigma e discriminação
Além disso, o gestor ressaltou a importância de se combater o estigma associado ao HIV, a crescente violência e promover a realização regular de testes, estabelecendo a testagem como método de cuidado contínuo.
Ao falar das desigualdades sociais que acometem o Brasil, enfatizou que o machismo, o racismo e a LGBTfobia são desafios constantes e os maiores impeditivos no caminho de alcançar as metas propostas.
“Para além das questões biomédicas, temos que trabalhar as questões que estão pesando naquelas pessoas que estão ficando para trás das tecnologias que já existem […] nada garante que se a gente tiver tecnologia nova, a pessoa que hoje não está acessando a que já têm irá acessar [a novidade]”, afirmou.
Apesar de categorizar os problemas sociais como desafios complexos, o sanitarista especificou que com trabalho integrado, interdisciplinar e multisetorial é possível encarar e combater as desigualdades estruturais e estruturantes que ainda hoje comprometem o acesso equânime da população brasileira tanto no que diz respeito à acesso, quanto à adesão e retenção em tratamento antirretroviral.
Ciedds

Ele ainda garantiu que os diferentes Ministérios do governo – o que inclui as pastas da Justiça e Segurança Pública, Igualdade Racial, Ministério dos Povos Indígenas, Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, Casa Civil, Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, dentre outras -, a partir do Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e Outras Doenças Determinadas Socialmente [CIEDDS] instaurado neste ano por decreto presidencial, estão engajadas e comprometidas politicamente a unirem forças dentro de suas respectivas governabilidades, para possibilitar acabar com a aids enquanto problema de saúde pública no país até o ano de 2030.
Todavia, segundo Kalichman, no país a chave virou e não se fala somente da eliminação do HIV/aids, mas de todas as doenças socialmente determinadas.
“Acredito que essa é uma grande oportunidade que estamos tendo, porque os desafios são enormes ligados às iniquidades […]”.
As boas práticas do governo que alcancem, sobretudo, aqueles inseridos em contextos socioeconômicos de maior vulnerabilidade, segundo o vice-diretor o médico, é a chave para garantir que acabemos com desfechos desfavoráveis de diagnósticos de HIV.
Novas e velhas tecnologias
Tecnologias duras e leves, além da Política de Redução de Danos, foram defendidas pelo gestor do Ministério, como potentes facilitadoras de estratégias. Entretanto, segundo ele, por mais que o Brasil tenha um olhar sempre pautado na ciência como fio condutor de suas ações, ela sozinha não dá conta de frear o crescimento do HIV, bem como de assegurar máxima qualidade de vida para as mais de um milhão de pessoas que já vivem com o vírus no país.
Na sequência, a oficial de saúde de Portugal e consultora global da Organização Mundial da Saúde (OMS) em HIV, Hepatites e Infecções Sexualmente Transmissíveis, Carlota Baptista, destacou as principais razões pela quais a epidemia de HIV/aids ainda é uma realidade em Portugal, trazendo estatísticas importantes de monitoramento da infecção.
Carlota afirmou que assim como no Brasil, Portugal possui populações-chave na epidemia, e que as mesmas precisam ser melhor acompanhadas. Ele ainda chamou atenção para a necessidade de se testar em massa, inclusive parcerias sexuais de pessoas HIV+, além de reforçar o combate a discriminação
‘‘Nós precisamos resgatar todas as pessoas vivendo com HIV [que perderam a adesão ao tratamento por alguma razão] perdidas nos estigmas e fazer o reengajamento delas no sistema de saúde. Sabemos que na América Latina há muitas pessoas fora sem tratamento, são casos que interromperam a terapia”, alertou.
HIV em Cuba

Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
Manuel Romero, do Programa Nacional de Aids de Cuba, se atentou a trazer a experiência de seu país, pontuando que o programa é engajado nas buscas de casos de HIV, ampliando a retestagem.
“Essa busca é feita tanto com testes clínicos/laboratoriais ou com autotestes. Priorizamos muito a testagem, sobretudo para as populações com risco mais elevado. Desde 2019 temos a incorporação da PrEP”, celebrou.
O sistema de saúde cubano, segundo ele, é de ponta e garante para a população atendimento com boa qualidade.
Argentina

Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
A Argentina, nação que abriga mais de 45 milhões de habitantes, foi representada por Mariana Ceriotto, diretora em exercício do Programa Nacional de Aids, localizado em Buenos Aires.
A diretora chamou a atenção para o número significativo de casos de HIV entre mulheres cis, historicamente negligenciadas na resposta.
“Temos que ter um olhar de gênero com expansão diagnóstica para as mulheres que têm dificuldade de acessar os cuidados”.
E para além disso, falou: “[Não trabalhamos com] um dispositivo apenas, mas em todo um processo de reconhecer [o problema], inclusive, no âmbito privado, testando, testando e testando […]”.
Movimento social

Fotografia: Assessoria de Comunicação do INI/Fiocruz
A reunião foi interrompida para intervenções de mulheres ativistas da causa da aids que falaram especialmente em defesa das mulheres vivendo com HIV/aids.
Elas pediram por mais igualdade, combate ao machismo dentro e fora dos serviços de saúde, e por protagonismo feminino no combate à aids, com pedido que os governos olhem para os potenciais de mulheres e meninas.
“As mulheres com HIV são afetadas e nós estamos levantando nossas vozes brigando para que nos levem em consideração como população chave na resposta […] olhando para a crise da epidemia de HIV, estamos atravessadas pela pobreza, pela violência, estigma e discriminação; e todo o esforço do HIV veio [ao longo dos anos] priorizando [alguns grupos] e excluindo as mulheres em sua diversidade”, falou Morta Ruiz, do Movimiento de Mujeres Positivas MM+, do Paraguay.
“Aplausos a nós mesmas e para todas as mulheres que nos levam em consideração na resposta tanto na prevenção, como em diagnóstico e direitos humanos, porque os determinantes sociais nos atravessam”, acrescentou a ativista.
Unida a outras militantes, novamente reforçou a reivindicação por zero discriminação e ações governamentais na América que, de fato, contemplem as necessidades e especificidades de corpos femininos HIV positivos.
Homenagem

O simpósio ainda marcou outros momentos relevantes, como uma homenagem ao ativista Jorge Beloqui, que em vida doou seus dias a causa da aids. O professor argentino foi uma figura de grande relevância e respeito. O militante foi um dos fundadores da ONG Pela Vidda (Valorização, Integração e Integridade do Doente de Aids), em São Paulo, Brasil. Seu ativismo era pelos direitos das pessoas vivendo com HIV/aids, direitos humanos e pelo acesso a medicamentos menos tóxicos, pela saúde pública e o direito das pessoas serem que são, sem discriminação.
Em paralelo ao ativismo, Jorge Beloqui lecionava no Instituto de Matemática e Estatística da USP. Sua morte comoveu militantes de todo o Brasil, América Latina e Mundo.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Fiocruz
Tel.: (21) 3885-1762



