Em meio ao avanço do movimento antivacina, pesquisadores alertam: pessoas com HIV não podem ficar fora da proteção vacinal

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Especialistas reunidos na AIDS 2026 defendem vacinação integrada ao cuidado do HIV e alertam que, mesmo com carga viral indetectável e recuperação imunológica, o risco de algumas doenças preveníveis por vacinas permanece maior

Em um cenário marcado pelo retorno de doenças que pareciam controladas e pelo avanço da hesitação vacinal em diferentes partes do mundo, especialistas reunidos na AIDS 2026 fizeram um alerta que vai além da atualização dos calendários de imunização: a vacinação precisa ocupar definitivamente um lugar central no cuidado das pessoas que vivem com HIV.

Os avanços da terapia antirretroviral transformaram a história da epidemia, aumentaram a expectativa de vida e permitiram que milhões de pessoas envelhecessem com saúde. Mas o controle do HIV não elimina todos os riscos. Mesmo pessoas com carga viral indetectável e boa recuperação imunológica podem permanecer mais vulneráveis a determinadas infecções preveníveis por vacinas.

A discussão ganha importância justamente em um momento de crescimento da hesitação vacinal, alimentada pela desinformação e por movimentos contrários à vacinação. A queda das coberturas cria condições para o ressurgimento de doenças e representa uma preocupação adicional para populações que necessitam de estratégias específicas de prevenção ao longo da vida.

Logo na abertura da sessão, Tereza Kasaeva, da Organização Mundial da Saúde (OMS), defendeu que a vacinação deixe de ser encarada como uma intervenção pontual e passe a fazer parte, definitivamente, do acompanhamento contínuo das pessoas vivendo com HIV.

Segundo ela, o sucesso da terapia antirretroviral mudou também as necessidades dessa população. Se durante os primeiros anos da epidemia o desafio central era garantir a sobrevivência, o cenário atual exige olhar para o envelhecimento saudável, a prevenção de coinfecções e a qualidade de vida.

“A vacinação deve ser um componente essencial dos serviços integrados de HIV ao longo de toda a vida”, defendeu.

A representante da OMS destacou ainda que o desafio não está apenas no desenvolvimento de novas tecnologias, mas na capacidade de fazer com que elas cheguem rapidamente às pessoas. Para isso, defendeu políticas integradas, acesso equitativo e maior participação das comunidades, desde a pesquisa até a implementação das novas estratégias.

Carga viral indetectável não elimina todos os riscos

Essa necessidade de ampliar a prevenção apareceu novamente durante a apresentação de Anna Maria Geretti, que chamou atenção para um aspecto fundamental: mesmo pessoas vivendo com HIV que apresentam carga viral indetectável e boa recuperação imunológica continuam tendo risco aumentado para algumas doenças imunopreveníveis.

A pesquisadora apresentou estudos indicando que infecções como doença pneumocócica invasiva e herpes-zóster continuam ocorrendo com maior frequência entre pessoas vivendo com HIV, inclusive entre aquelas que estão em tratamento eficaz e apresentam boa contagem de células CD4.

Os dados reforçam uma mensagem importante para o cuidado clínico: o sucesso da terapia antirretroviral não substitui a vacinação.

Geretti também abordou o retorno do sarampo em diferentes países. O ressurgimento dos surtos expõe falhas na cobertura vacinal e, segundo a especialista, reforça que a imunidade não deve ser simplesmente presumida entre pessoas vivendo com HIV. A avaliação precisa considerar individualmente a situação de cada paciente.

Mas não basta recomendar a vacina. A forma como os serviços estão organizados também pode determinar se uma pessoa será ou não efetivamente imunizada.

A especialista chamou atenção para um problema recorrente: muitas vezes o paciente recebe a recomendação durante a consulta de HIV, mas precisa procurar outro serviço de saúde para receber a dose. Esse deslocamento cria mais uma barreira no caminho e pode resultar em oportunidades perdidas de vacinação.

Na avaliação da pesquisadora, sempre que possível, as vacinas deveriam ser oferecidas no próprio serviço especializado em HIV, acompanhadas de sistemas de lembrete e monitoramento capazes de garantir não apenas a primeira dose, mas a conclusão de todo o esquema vacinal.

Vacinação precisa acompanhar todas as fases da vida

Representando o Brasil, Amanda Lara, do Hospital das Clínicas, mostrou como as recomendações de imunização podem ser organizadas ao longo das diferentes fases da vida das pessoas que vivem com HIV.

Segundo ela, o envelhecimento dessa população ocorre em meio a alterações imunológicas que exigem estratégias específicas de proteção. Por isso, o calendário vacinal precisa ser mais abrangente e considerar não apenas a idade, mas também o estado imunológico, a gestação e a presença de imunossupressão.

Amanda destacou que diferentes vacinas fazem parte do cuidado rotineiro das pessoas vivendo com HIV, entre elas as imunizações contra hepatite B, influenza, pneumococo, HPV e covid-19.

Outro ponto defendido foi o aproveitamento de cada contato com o sistema de saúde. Sempre que possível, mais de uma vacina deve ser administrada durante a mesma consulta, reduzindo o risco de que oportunidades de imunização sejam perdidas.

A especialista lembrou ainda que algumas vacinas de vírus vivos precisam ser adiadas nos casos de imunossupressão importante, até que ocorra recuperação imunológica. A recomendação reforça que a vacinação de pessoas vivendo com HIV não deve seguir apenas uma lista padronizada de doses, mas fazer parte de uma estratégia clínica individualizada.

Novos tratamentos trazem um novo desafio para a hepatite B

A chegada das terapias antirretrovirais de longa duração também acrescenta uma nova questão ao debate sobre vacinação. Kristen Marks, da Weill Cornell Medicine, concentrou sua apresentação na proteção contra a hepatite B e nas mudanças que os novos esquemas de tratamento podem provocar.

A pesquisadora explicou que alguns dos novos regimes terapêuticos deixam de utilizar medicamentos que também tinham atividade contra o vírus da hepatite B. Na prática, isso aumenta a necessidade de identificar, antes da mudança do tratamento, pessoas que não possuem imunidade ou que apresentam evidências de infecção prévia.

Segundo Marks, estudos recentes mostram que vacinas mais modernas contra hepatite B, desenvolvidas com adjuvantes, produzem respostas imunológicas superiores às vacinas tradicionais em pessoas vivendo com HIV e podem manter a proteção por períodos mais prolongados.

Apesar dos resultados promissores, a pesquisadora ressaltou que ainda são necessários estudos para avaliar questões como custo-efetividade, duração da proteção e quais estratégias funcionam melhor para diferentes perfis de pacientes.

Vacinar também é cuidar do HIV

Ao reunir evidências sobre diferentes vacinas, fases da vida e novos cenários terapêuticos, o debate na AIDS 2026 apontou para uma mudança importante na própria concepção do cuidado das pessoas vivendo com HIV.

Não se trata mais apenas de controlar o vírus. À medida que a terapia antirretroviral permite uma vida mais longa, o desafio passa a ser também garantir que esses anos sejam vividos com saúde e protegidos de doenças que podem ser evitadas.

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