A Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciou nesta segunda-feira, 18 de maio, em Genebra, na Suíça, a 79ª Assembleia Mundial da Saúde (WHA79), principal encontro anual da governança global em saúde. Reunindo delegações dos 194 Estados-membros da agência, autoridades sanitárias, organizações internacionais e representantes da sociedade civil, a assembleia acontece em um dos momentos mais delicados para a saúde pública internacional desde a pandemia de covid-19.
Ao longo de seis dias de debates, até 23 de maio, os países discutirão desde surtos recentes de doenças infecciosas até o financiamento da OMS, passando pela preparação para futuras pandemias, mudanças climáticas, desigualdades sanitárias, sistemas de saúde fragilizados e a crescente tensão política em torno do multilateralismo.
A abertura da assembleia foi marcada por um tom de preocupação. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou que o mundo atravessa uma fase de “múltiplas turbulências”, marcada por conflitos, crises econômicas, emergência climática e redução da ajuda internacional.
“Dos conflitos até as crises econômicas, passando pela mudança climática e pela redução da ajuda internacional, vivemos uma época difícil, perigosa e fonte de divisões”, afirmou Tedros na sessão inaugural.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, participou por vídeo e reforçou o diagnóstico de crise. Segundo ele, os cortes na cooperação internacional estão aprofundando desigualdades e comprometendo serviços essenciais em diversos países.
“Ao longo do último ano, os cortes na ajuda bilateral e multilateral desestabilizaram os sistemas de saúde e aprofundaram as desigualdades. Clínicas foram fechadas. Profissionais de saúde perderam seus empregos”, declarou.
Surtos de hantavírus e ebola elevam tensão
Embora nem todos estejam formalmente na pauta oficial, dois surtos recentes devem dominar boa parte das conversas nos corredores e reuniões paralelas da assembleia: o novo surto de ebola na República Democrática do Congo e os casos de hantavírus registrados em um cruzeiro internacional, episódio que gerou repercussão mundial.
O caso do hantavírus se tornou símbolo das fragilidades persistentes na vigilância sanitária internacional e da necessidade de respostas coordenadas diante de ameaças emergentes. Especialistas avaliam que os episódios reforçam a importância de uma OMS forte e financeiramente estável.
Surie Moon, codiretora do Centro de Saúde Global do Instituto de Pós-Graduação de Genebra, afirmou que a crise recente oferece “uma ilustração clara da razão pela qual o mundo precisa de uma OMS eficaz, confiável, imparcial e com financiamento previsível”.
A própria OMS programou para esta semana uma sessão especial intitulada “Hantavirus in Focus”, dedicada ao debate científico e político sobre o tema.
Saída dos Estados Unidos e da Argentina ameaça estabilidade da OMS
Um dos assuntos mais sensíveis da assembleia envolve a incerteza sobre a permanência dos Estados Unidos e da Argentina na OMS.
Em janeiro de 2025, no primeiro dia de seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, formalizou a intenção de retirar o país da organização. Pouco depois, a Argentina aderiu ao movimento.
A situação criou um impasse diplomático sem precedentes. A constituição da OMS não prevê explicitamente mecanismos de retirada, embora os Estados Unidos tenham registrado, ao aderir à organização em 1948, o direito de saída mediante aviso prévio de um ano e quitação das obrigações financeiras.
Mesmo após o prazo de notificação, Washington ainda não quitou contribuições relativas a 2024 e 2025. Segundo informações debatidas na assembleia, a dívida americana já ultrapassa 260 milhões de dólares.
Diplomatas ouvidos nos bastidores apontam que a OMS tenta evitar uma ruptura definitiva, especialmente em um momento de crescente fragmentação internacional. A avaliação predominante entre observadores é que manter algum grau de ambiguidade institucional sobre a retirada dos EUA pode ser estratégico para preservar canais de negociação.
Reforma da “arquitetura global da saúde” ganha força
Outro eixo central da WHA79 é o debate sobre a chamada “arquitetura global da saúde” — expressão usada para definir o conjunto de organismos internacionais, fundos, agências e mecanismos de cooperação responsáveis pelas respostas sanitárias globais.
A pandemia de covid-19 expôs falhas profundas de coordenação entre países e instituições multilaterais. Agora, seis anos depois, cresce a pressão para reformar o sistema.
O presidente de Gana, John Dramani Mahama, afirmou que o mundo vive “o fim de uma era” na saúde global.
“Seis anos depois da última pandemia mundial, a arquitetura de saúde mundial está se transformando rapidamente. Estamos assistindo ao fim de uma era e precisamos de coragem para construir uma nova”, declarou.
A expectativa é que a assembleia avance na definição de um processo formal de reforma institucional, incluindo novas formas de financiamento, fortalecimento da vigilância epidemiológica e maior integração entre organismos internacionais.
Tratado de pandemias segue travado
Apesar de avanços obtidos em 2025 com a aprovação do histórico Acordo de Pandemias da OMS, ainda permanecem impasses importantes sobre sua implementação prática e seus mecanismos de financiamento e compartilhamento de tecnologias.
As divergências entre países ricos e nações em desenvolvimento continuam bloqueando consensos sobre acesso a vacinas, transferência de tecnologia, propriedade intelectual e distribuição de insumos em futuras emergências sanitárias.
Analistas internacionais acreditam que as negociações deverão se estender ao longo do próximo ano.
Clima, poluição e desigualdade entram no centro da agenda
A relação entre saúde e mudanças climáticas também ocupa espaço estratégico na assembleia deste ano. A OMS promove uma série de mesas sobre clima, qualidade do ar, energia e impactos ambientais na saúde pública.
A pauta ganha relevância em um contexto de aumento de eventos climáticos extremos, insegurança alimentar, deslocamentos populacionais e expansão de doenças relacionadas ao aquecimento global.
Segundo a OMS, a WHA79 busca consolidar o movimento iniciado na assembleia anterior, quando a mudança climática foi elevada ao status de prioridade estratégica da organização para o período 2025–2028.
Além disso, relatórios recentes da entidade mostram que o mundo está longe de cumprir as metas globais de saúde previstas para 2030. Dados divulgados pela OMS indicam desaceleração na cobertura universal de saúde, aumento da incidência de malária e persistência de desigualdades no acesso a cuidados básicos.
HIV, saúde materna e doenças crônicas mobilizam sociedade civil
Diversas agências internacionais e organizações da sociedade civil aproveitarão a assembleia para pressionar governos por maior financiamento em áreas consideradas ameaçadas pelos cortes globais.
O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) alertou que a resposta global ao HIV atravessa um “momento crítico”, marcado por retração de investimentos, pressões fiscais e crescimento de ataques a direitos humanos.
Também estão previstas discussões sobre saúde materna, imunização, nutrição, saúde mental, doenças negligenciadas e enfermidades crônicas não transmissíveis, como câncer e doenças cardiovasculares.
Disputas geopolíticas devem provocar embates diplomáticos
A assembleia ainda deverá enfrentar discussões politicamente sensíveis envolvendo guerras e conflitos internacionais.
Resoluções relacionadas à Ucrânia, aos territórios palestinos e ao Irã estão entre os textos considerados mais delicados da agenda, com expectativa de negociações tensas entre os Estados-membros.
A combinação entre crises sanitárias, conflitos armados e retração da cooperação internacional faz da WHA79 uma das reuniões mais desafiadoras da história recente da OMS.
Corrida pela sucessão na OMS começa nos bastidores
A assembleia deste ano também marca o início informal da disputa pela sucessão de Tedros Adhanom Ghebreyesus no comando da OMS.
Embora ainda não haja candidaturas oficialmente registradas, diplomatas esperam anúncios e movimentações políticas ao longo da semana em Genebra. O prazo oficial para apresentação de candidaturas termina em 24 de setembro.
A eleição do próximo diretor-geral acontecerá em 2027 e deverá influenciar diretamente os rumos da organização em um cenário internacional cada vez mais fragmentado.
Assembleia ocorre em momento decisivo para o multilateralismo
Criada em 1948, a Assembleia Mundial da Saúde é o principal órgão decisório da OMS e define políticas, orçamento e prioridades da organização. Neste ano, porém, o encontro ultrapassa a dimensão técnica e assume um peso político inédito.
Mais do que discutir doenças específicas, a WHA79 se transforma em um teste sobre a capacidade do sistema internacional de cooperar diante de ameaças globais compartilhadas.
Em um mundo atravessado por guerras, nacionalismos, cortes financeiros e emergência climática, a assembleia tenta responder a uma pergunta central: qual será o futuro da governança global da saúde?
Redação da Agência de Notícias da Aids




