Em meio a cortes e retrocessos, Unaids leva alerta à 79ª Assembleia Mundial da Saúde: “vidas já estão sendo perdidas”

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

A resposta global ao HIV chega a um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Entre cortes de financiamento, pressões econômicas, avanço de discursos contrários aos direitos humanos e ameaças à continuidade de programas de prevenção e tratamento, o Unaids levará um duro alerta à 79ª edição da Assembleia Mundial da Saúde, que será realizada entre os dias 18 e 23 de maio, em Genebra.

A mensagem central é direta: o mundo está mais próximo do que nunca de acabar com a aids como ameaça à saúde pública, mas esse avanço pode ser revertido rapidamente se governos e organismos internacionais reduzirem investimentos e abandonarem compromissos históricos de solidariedade global.

Em documento divulgado às vésperas do encontro, a agência das Nações Unidas afirma que o cenário internacional mudou “drasticamente”, afetando tanto o financiamento da saúde quanto a arquitetura da cooperação internacional. Segundo o Unaids, o impacto já pode ser sentido em diferentes países, com fechamento de clínicas, interrupção de programas preventivos e fragilização das respostas comunitárias.

  1. SWITZERLAND-HEALTH-VIRUS-AIDS-HIV-UN-PANDEMIC

A diretora-executiva do Unaids e subsecretária-geral da ONU, Winnie Byanyima, fez um dos alertas mais contundentes já apresentados pela agência nos últimos anos:

“Os cortes no financiamento e a restrição aos direitos já estão custando vidas — fechando clínicas e interrompendo a prevenção. Este é o momento de escolher a solidariedade: investimento contínuo e responsabilidade compartilhada para proteger a todos, em todos os lugares.”

A fala sintetiza o clima político que deve dominar a Assembleia Mundial da Saúde deste ano. Embora os avanços científicos tenham transformado a resposta ao HIV — com novas tecnologias de prevenção, diagnósticos mais rápidos e tratamentos cada vez mais eficazes — a ONU teme que o enfraquecimento do financiamento internacional comprometa décadas de progresso.

Meta de acabar com a aids até 2030 entra em zona de risco

O Unaids defenderá durante a assembleia que a epidemia de HIV “não acabou” e que nenhum país conseguirá enfrentar sozinho os desafios da próxima década. A agência reforçará a necessidade de manter viva a meta global de eliminar a aids como ameaça à saúde pública até 2030.

No centro das discussões estará a nova Estratégia Global de Aids 2026-2031, considerada peça-chave para orientar os próximos compromissos internacionais. O documento também servirá de base para a próxima Reunião de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre HIV/Aids, quando os países deverão negociar uma nova declaração política global sobre HIV.

Segundo o Unaids, o desafio não é apenas financeiro, mas também político. A organização afirma que a sustentabilidade das respostas depende de estratégias centradas em direitos humanos, evidências científicas e participação comunitária.

“A transição para a responsabilidade nacional deve ser apoiada de forma responsável”, afirma o texto divulgado pela agência, defendendo que os países mais pobres não sejam abandonados em um momento de crise econômica e aumento das desigualdades globais.

África no centro das negociações

Um dos eventos mais importantes paralelos à assembleia ocorrerá já no dia 16 de maio, com a Consulta Ministerial de Alto Nível sobre a Posição Africana Comum para a futura reunião da ONU sobre Aids.

O encontro, organizado pela Comissão da União Africana com apoio do Unaids, busca consolidar uma estratégia continental para fortalecer a voz dos países africanos nas negociações internacionais sobre HIV entre 2026 e 2031.

A proposta é garantir que prioridades africanas — especialmente relacionadas à soberania sanitária, financiamento sustentável e desenvolvimento de longo prazo — sejam incorporadas à futura declaração política global.

A África segue sendo uma das regiões mais afetadas pela epidemia de HIV no mundo e também uma das mais dependentes de financiamento internacional para programas de prevenção e tratamento.

Debate sobre soberania do financiamento ganha força

Outro tema que deve ganhar destaque em Genebra é o financiamento da saúde global. No dia 19 de maio, líderes políticos e representantes internacionais discutirão novos caminhos para ampliar a autonomia financeira dos países africanos diante da redução de recursos externos.

O evento “Uma Visão, Um Futuro: Moldando o Próximo Capítulo do Financiamento da Saúde na África” reunirá governos como Gana, Nigéria, Etiópia, Senegal e África do Sul, além de representantes da Comissão da União Europeia, OMS e Fundo Global.

A discussão acontece em meio ao temor crescente de que a retração da ajuda internacional deixe milhões de pessoas sem acesso a serviços essenciais.

Eliminação da transmissão vertical entra na agenda

A Assembleia Mundial da Saúde também será palco de debates sobre a chamada “tripla eliminação”: o fim da transmissão vertical do HIV, da sífilis e da hepatite B.

No dia 20 de maio, uma mesa-redonda de alto nível promovida pelo Unaids, pela Abbott e pela Elizabeth Glaser Pediatric Aids Foundation discutirá estratégias globais para acelerar metas de eliminação dessas infecções entre mães e bebês.

Especialistas alertam que os cortes no financiamento podem atingir diretamente programas materno-infantis, considerados fundamentais para evitar novas infecções em crianças.

Desigualdade e pandemias

Ainda no dia 20, líderes internacionais participarão de um diálogo sobre desigualdade e segurança sanitária global, impulsionado pelo relatório “Quebrando o ciclo desigualdade-pandemia: Construindo verdadeira segurança sanitária em uma era global”.

O documento, elaborado pelo Conselho Global sobre Desigualdade, Aids e Pandemias, defende que futuras respostas a pandemias só serão eficazes se enfrentarem desigualdades estruturais que ampliam vulnerabilidades sociais e dificultam o acesso à saúde.

Para o Unaids, a discussão sobre HIV em 2026 já não pode ser separada de temas como pobreza, exclusão, racismo, gênero e acesso desigual a tecnologias de saúde.

“O mundo precisa decidir”

A 79ª Assembleia Mundial da Saúde deve se transformar, portanto, em um grande teste político para a comunidade internacional. De um lado, avanços científicos sem precedentes indicam que o fim da aids é possível. De outro, a combinação entre austeridade fiscal, instabilidade geopolítica e retração da cooperação internacional ameaça interromper uma das maiores mobilizações globais de saúde pública da história.

Ao chegar a Genebra, o Unaids tentará convencer governos de que o combate ao HIV não pode ser tratado como uma agenda concluída.

A mensagem que a agência pretende deixar ecoando nos corredores da OMS é clara: o mundo está diante de uma escolha histórica — preservar décadas de conquistas ou permitir que a epidemia volte a avançar justamente quando sua derrota parecia mais próxima.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Apoios