
Familiares, amigos, ativistas, professores e gestores estiveram no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), no último dia 1 de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, para homenagear e eternizar o legado do ativista e professor Jorge Beloqui, que nos deixou em março deste ano.
Além de rememorar a trajetória de Jorge, que desde os anos 1980 lutou contra a aids e a favor dos direitos humanos, o grupo plantou, em frente ao Bloco B da universidade, um Ipê-roxo – uma árvore da América do Sul, conhecida pela utilização medicinal e como madeira de lei, em sua homenagem.

Enquanto a árvore era colocada no solo, as pessoas presentes homenagearam o ativista gritos de “Jorge Beloqui presente!”.
A ideia, segundo os representantes do Nepaids (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Aids), do qual Jorge fundou e participou ativamente, foi eternizar suas raízes, memórias e mobilização social também na universidade onde o pesquisador deu aula até seu falecimento.
A trajetória
Ativista na defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV/Aids no Brasil e precursor do movimento gay dos anos 1980, Beloqui era Argentino e morreu aos 73 anos
Descobriu que havia se infectado com o HIV em meados de 1989 e transformou o fato em instrumento de ativismo.
Graduou-se em matemática na Universidade de Buenos Aires e concluiu doutorado no Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), no Rio de Janeiro. Atualmente, era professor aposentado do Instituto de Matemática e Estatística da USP.
Ao longo da importante trajetória no Brasil, fundou a ONG Pela Vidda (Valorização, Integração e Integridade do Doente de Aids). Permaneceu na entidade entre 1989 e 1995.
Depois, integrou a direção do GIV (Grupo de Incentivo à Vida), em São Paulo. Também compôs a Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) e foi representante da Rede Nacional de Pessoas Soropositivas (RNP+) no Grupo Temático do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids).
Beloqui fez parte, ainda, do corpo editorial do Boletim de Vacinas contra o HIV e foi pesquisador colaborador do Nepaids (Núcleo de Estudos para Prevenção da Aids), da USP, entre outras passagens.
Em São Paulo, representou a sociedade civil na Comissão Municipal de DST/Aids do Conselho Municipal de Saúde e participou ativamente das Conferências de HIV/Aids realizadas pelo município.
A luta continua
Com o tema “A contribuição acadêmica e política de Jorge Beloqui: da universidade à resposta à Aids e a promoção do Direito à Saúde”, a solenidade também contou com debates organizados pelo Nepaids. A irmã de Jorge, Paulina Beloqui, e o companheiro do ativista, Marcus Blum, além de professores do Instituto de Matemática e Estatísticas e ex-alunos relembraram nas discussões o quanto Jorge contribuiu para a construção da política de aids no Brasil.
Débora Raphael, professora universitária do Instituto de Matemática e Estatística, começou o momento de homenagem relatando a experiência que foi conhecer o ativista. “Conheci o Jorge em 1981, era aluna de mestrado, mas ficamos amigos muito rápido, nossa amizade durou, o Jorge modificou minha maneira de ver e sentir o mundo. O Jorge era bem humorado, conversava com todo mundo, gostava de comprimentar todo mundo, dava aquela gargalhada espalhafatosa que faz muita falta”.
A professora ainda relatou que Jorge era uma inspiração e que sempre colocava conflitos coletivos em primeiro lugar. “Transformou as lutas pessoais dele em lutas coletivas, sempre com uma visão muito clara e política e muito amável, que ama a vida, ele era inspirador. O Jorge tinha uma presença muito querida, muito simpática e que vai fazer muita falta.”

A luta pela vida
Lucilia Borsari, professora universitária da IME-USP explicou como o professor resolveu trazer a público que era uma pessoas vivendo com HIV/aids. “Jorge era um militante ativo, durante a greve de 1988, que conquistou as autonomias das universidades paulistas, ele foi bastante atuante na belíssima campanha SOS Universidade. Nos primeiros anos da década de 90, Jorge se descobriu com HIV, deu início a tratamentos que envolviam medicações muito caras e que não eram fornecidas pelos serviços públicos, sua primeira atitude foi reivindicar que a USP fornecesse os medicamentos necessários, recebeu um sonoro não como resposta. Entendeu que precisava trazer a público aquela situação mesmo que isso custasse vivenciar todos os estigmas e preconceitos”.
Lucilia relembrou seu amigo como um homem batalhador e virtuoso. “Fazemos mais uma vez contato com a pessoa maravilhosa que Jorge era, modesto, corajoso e lutador.”
O ativismo pulsante
Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum das ONG/Aids do Estado de São Paulo, relembrou como Jorge carregava um extenso conhecimento na parte técnica das medicações e como ele foi pioneiro nas tecnologias do combate à aids. “Nunca vi o Jorge falando em defesa própria, defendendo uma questão da sua própria condição sorológica ou qualquer coisa da própria condição, sempre esteve em uma condição coletiva, uma questão do acolhimento, ele trazia informações da parte técnica na questão de medicamentos, coisa que a grande maioria não tem conhecimento, ele era uma referência neste tipo de questão, teve um impacto na implementação dessas tecnologias que surgiram agora”.
Eduardo Barbosa, presidente do Grupo Pela Vidda-SP descreveu a falta que Jorge faz como militante ativo dentro do movimento social. “O Jorge era um incentivador do movimento. O movimento social perde muito com a falta dele, porque nós não conseguimos ter pessoas no movimento que pudesse ter essa capacidade que ele tinha. Jorge Beloqui nos provocava no movimento para encontrar outras alternativas para as questões de entendimento, participação, propriedade intelectual e sobre as novas tecnologias. Jorge é pra mim ainda essa pessoa que transita dentro da nossa militância para manter esse ativismo vivo, ele vai deixar uma lacuna muito grande no nosso meio.”
A luta pela cura
Alexandre Gonçalves, Coordenador do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, falou que Jorge pensava na cura e nas vacinas para a aids e como ele fez parte para que os medicamentos chegassem à população. “A expertise dele era essa: as pesquisas, os remédios, a disponibilidade da luta para todos os medicamentos. Ele nos contava novidades sobre os medicamentos que estão chegando e se hoje temos toda essa tecnologia de medicamentos para aids, ele tem crédito nisto. Jorge pensava na linha de cura e da vacina, ele cobrava muito do município e do estado pela causa e para nós, Jorge ainda está presente”.
Paulina Beloqui, irmã do Jorge, expressou a grande paixão do professor pela matemática e como ele comentava sobre seus projetos dentro da causa. “Jorge amava matemática, ele tentava de todo jeito me explicar como os números se encontravam, como eram as fórmulas, mas nunca tive essa mesma paixão. Além da matemática, Jorge amava lutar pelo que ele acreditava, me contava entusiasmado sobre seu ativismo e seus projetos. Sou muito grata por ter ele como irmão, um grande homem, grande professor e grande ativista”.
Marcos Blum compartilhou as memórias sobre quão engajado Jorge era pela luta das causas sociais e como ele era admirado por sua colaboração. “Jorge brigava pelas políticas públicas, para que medicamentos e novas tecnologias fossem inseridas no SUS, sempre que havia discussões de novos medicamentos, ele era convidado para estar ali com a gente e dar a opinião dele. Ele gerou uma enorme contribuição tanto no estado quanto no município lutando sempre por políticas públicas. Era fundamental que existisse essa briga para que um medicamento ou uma tecnologia alcançasse a população e o Jorge sempre foi respeitado por isso.”
Marcos recorda a memória do marido como uma pessoa cuja ausência sempre será notada. “Ele era um homem amoroso, carinhoso e brincalhão. Uma pessoa que vai fazer muita falta nos espaços públicos, assim como na vida pessoal.”

Solo fértil, sementes, frutos, amadurecimento e defesa do meio ambiente. Há vários sinônimos para descrever a importância da plantação de uma árvore. Nesta, existe um ingrediente a mais: a eternização da luta a favor da vida de quem vive com HIV.
#jorgebeloqui,presente!
Lygia Cavalcante
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