EM ENCONTRO SOBRE REDUÇÃO DE DANOS PARTICIPANTES RECEBEM ‘QUESTIONÁRIOS’ QUE VÃO AJUDAR NA DEFINIÇÃO DE POLÍTICAS E AÇÕES

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16/02/2007 – 02h50

“Por favor, não escreva seu nome ou outros dados que possam identificá-lo. Nosso interesse gira em torno de informações que possam nos ajudar a produzir alguns dados quanto à situação dos redutores de danos, hoje.” Assim começa um dos questionários desenvolvidos pela Associação Brasileira de Redutores de Danos (Aborda), em parceria com o Programa Nacional de DST/Aids, que foram entregues no último dia do primeiro encontro do projeto Roda Brasil, que promove a articulação do movimento de redução de danos em todo o país. Segundo o Programa Nacional, a prática da redução de danos se propõe a “minimizar os prejuízos causados pelas drogas sem interferir no uso, mas dando informações ao usuário sobre como reduzir e prevenir riscos.” De acordo com dados do Ministério da Saúde, que adota essa política desde 1994, em dez anos houve uma queda de 70% no número de casos de Aids entre usuários de drogas injetáveis. Em 1995, foram registrados 4.661 casos. Em 2005, foram contabilizadas 1.418 novas infecções, pelo HIV, entre os usuários de drogas injetáveis. Contudo, como os próprios dirigentes da Aborda fizeram questão de ressaltar, também é necessário fazer esse trabalho junto aos usuários de drogas lícitas.

Tanto Elandias Bezerra Souza quanto Maristela Moraes, respectivamente presidente e vice-presidente da Associação Brasileira de Redutores de Danos (Aborda), avaliaram que o álcool, uma droga lícita, é um dos entorpecentes que mais preocupa os profissionais da área. O goiano Elandias Bezerra Souza lembrou que o álcool lidera “na questão da violência, dos acidentes”.

“O Nordeste tem uma tradição do uso do álcool, quanto mais álcool, maior a masculinidade”, explica a pernambucana Maristela Moraes. Ela enfatiza ser necessário pensar na redução de danos “aplicada ao uso” dessa droga.

De acordo com Elandias Bezerra Souza, presidente da Associação Brasileira de Redutores de Danos (Aborda), o encontro, que começou na terça (13/2) e terminou no final da tarde desta quinta-feira (15/02), foi uma espécie de “capacitação” para os profissionais, de diversas partes do país, que trabalham com redução de danos. Além de apresentar “melhor” o projeto, a iniciativa também serviu para a distribuição de questionários, por meio dos quais será feito “um levantamento” da situação atual da política de redução de danos no Brasil.

Os questionários, que Souza chama de “lâminas”, foram entregues para os participantes do evento, que não foi aberto à imprensa. Ao todo, foram distribuídos cerca de dois mil questionários (de cinco modelos distintos). A Agência de Notícias da Aids teve acesso a dois desses formulários intitulados “Questionário 1” e “Questionário 5”.

O primeiro (com apenas uma página), como o texto indica, é “para ser respondido individualmente” e traz, entre outras, as seguintes perguntas: Você já fez (faz) testes para HIV/Aids? Você já fez (faz) testes para sífilis? De acordo com os membros da Aborda, esse questionário é para que a entidade trace um perfil dos indivíduos que trabalham com redução de danos.

O segundo formulário (que também possui uma página), intitulado “Questionário 5”, é “para ser respondido em grupo”. Segundo o texto do próprio questionário, o objetivo seria o de analisar a articulação política das ONGs junto aos “órgãos governamentais e sociedade civil organizada” (judiciário, parlamento, sistema prisional, religiões, atenção básica, entre outros). A articulação, de acordo com o formulário, deve ser classificada de uma das seguintes maneiras: satisfatória, insatisfatória, em construção, conflituosa, desejada ou inexistente. “O que vai dar um direcionamento das demais ações”, explica Elandias Bezerra Souza, presidente Aborda desde julho do ano passado.

As reuniões do primeiro encontro do projeto Roda Brasil foram realizadas no Hotel Comodoro, no centro da capital de São Paulo. Sobre a participação do Programa Nacional de DST/Aids, Vânia Camargo da Costa (da área de prevenção) explicou o governo só “tinha pertinência” de estar presente, por meio de sua representante, no último dia do encontro. “A pauta era do movimento, não era papel do governo estar discutindo”, resume Vânia. A gestora explica, referindo-se a Aborda, que se trata de um “parceiro estratégico” do Ministério da Saúde. “O programa [Nacional de DST/Aids] quer investir na articulação de rede”, esclarece.

Ao final do encontro, um coquetel reuniu os participantes. Foi neste momento, enquanto muitos dos presentes iam embora (retornando aos seus estados de origem), que os representantes da Aborda listaram as maiores dificuldades com as quais os redutores de danos lidam em suas localidades. Para o goiano Elandias Bezerra Souza, presidente da entidade, o governo do seu estado “não existe”. “O trabalho de campo está parado”, revela Souza. Segundo ele, por falta de “recursos”.

A psicóloga e sanitarista Maristela Moraes, vice-presidente da Aborda, também reclama da falta de apoio dos órgãos públicos e discorre sobre uma “peculiaridade” dos redutores de danos pernambucanos (seu estado de origem). Ao menos na capital do estado, Recife, eles foram contratados e só depois se inseriram nas comunidades com as quais deveriam trabalhar, explica a psicóloga formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Geralmente, ocorre o contrário.

Antes de encerrar a entrevista, Moraes fez questão de lembrar de Fátima Machado, outra integrante da Aborda. Ela classificou a redutora porto-alegrense, que não esteve presente ao encontro, como “histórica”.

Léo Nogueira

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