
A Aids Healthcare Foundation Brasil (AHF Brasil) reuniu na última semana, de forma online, diferentes ativistas, gestores e outras pessoas envolvidas na luta contra as ISTs/aids para um debate descontraído e informativo sobre Chemsex (Sexo Químico). A ideia, segundo a ONG, foi oferecer uma formação abrangente sobre o tema, apresentando desde os conceitos básicos, até orientações práticas para profissionais que buscam ajudar aqueles envolvidos nesse contexto.
Ignacio Labayan de Inza, especialista em Chemsex, consultor e fundador da Controlling Chemsex, esteve à frente do bate-papo. Atualmente seu trabalho é desenvolvido em Londres, no Reino Unido.
Ele começou a conversa destacando a importância de compreender os fundamentos deste tipo de prática sexual. Chemsex trata-se de qualquer relação sexual com uso de drogas [lícitas ou ilicítas] adquiridas com a finalidade do sexo. “É importante diferenciar a pessoa que compra a droga para o sexo e a pessoa que usa droga para outras finalidades”.

A todo momento, o especialista ressaltou que a intenção não é tratar a pauta pelo viés de julgamento, mas sim fornecer informações precisas e estratégias eficazes em redução de danos, dando autonomia para as pessoas fazerem escolhas de forma consciente e segura.
Ignacio Labayan ainda destacou a prevalência dos agravos do Chemsex em populações específicas, como homens gays, HSHs (homens que fazem sexo com homens) e mulheres trans, entretanto frisou que todos estão suscetíveis a riscos. Nesse sentido, falou que é fundamental tomar cuidado para não estigmatizar essas populações que socialmente e historicamente já são muito estigmatizadas. “Estas pessoas são mais acometidas as ISTs, mas não somente elas”, falou.
“Algumas pessoas aderem ao Chemsex porque acreditam que a droga vai lhe dar mais tesão, disposição ou mais confiança; outras por inseguranças com o corpo, por conta dos padrões de beleza [impostos pela sociedade]…”, disse ele ao mencionar que a situação é relativa e os motivos são diversos.
Ignacio frisou também que os possíveis problemas gerados por essa prática não se restringem ao Brasil, mas que todo o mundo tem articulado esforços no âmbito da saúde pública global para lidar com a questão, que apesar de antiga, tem se massificado nos últimos tempos. Ao pontuar, ele que atualmente desenvolve ações de prevenção e acolhida principalmente na Europa, onde reside, comentou que os países dividem desafios comuns, mas também desafios complexos, cada um com as respectivas especificidades de seu território.
Segundo o especialista em Chemsex, para aqueles que não conseguem gerenciar o consumo, as substâncias frequentemente envolvidas e práticas associadas no sexo, estão submetidos a implicações que podem afetar tanto a saúde física, quanto a saúde mental. Por isso, elencou estratégias para acolher e oferecer suporte às pessoas que procuram ajuda.
Os participantes foram incentivados, por exemplo, a adotar abordagens que minimizam os riscos associados, com ênfase na redução de danos, visando criar um ambiente de apoio onde as pessoas se sintam à vontade para buscar orientação sem medo de estigmatização ou julgamento. “Algumas pessoas querem apenas diminuir o consumo, outras querem parar para sempre”.
Ignacio enfatizou a necessidade de abordagens personalizadas para ajudar os envolvidos a reduzir o uso ou parar completamente. “É muito importante estabelecer objetivos de acordo com cada praticante”.

Sobre a importância de respeitar a autonomia das pessoas que praticam Chemsex ao oferecer apoio e estratégias de redução de danos, o especialista afirmou: “Eu não posso obrigar essas pessoas a algo, então é muito importante que a gente entenda a situação, o contexto e as vontades de cada um, mostrar [os riscos associados], mas deixar ela a vontade. Temos que respeitar aqueles que querem seguir usando as substâncias, mas querem evitar riscos”.
HIV
Ao discorrer sobre, citou a exposição à infecção pelo HIV/aids e demais Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), relacionando com o risco de overdose e impactos mentais.
“Muitos acham que [trabalhando em Redução de Danos], você facilita a pessoa usar drogas, quando não é”, destacou reforçando a necessidade de compreensão que as pessoas precisam ser auxiliadas para tomarem decisões informadas sobre seu comportamento.
O palestrante convidado enfatizou que algumas drogas psicoativas tem potencial de deixar alguém acordado por longos dias. Além dos efeitos negativos que estas drogas por si só podem gerar, Ignácio alinhou às outras consequências que a falta de sono gera na saúde. “O recorde de dias sem dormir de alguém que atendi foi 5 dias”, comentou.
Acolhimento
No encontro, ele não deixou de comentar a pluralidade de perfis que atende. “O Chemsex não discrimina por localização, religião, classe social… Já atendemos pessoas influentes, famosas, e com muito dinheiro, até pessoas pobres em situação de extrema vulnerabilidade social. O paciente mais novo tinha 17 anos, e o mais velho, entre 74 e 75”, compartilhou.
Todavia, Ignácio entende que, independentemente do perfil, o objetivo central deve ser ensinar as pessoas a conhecerem seus próprios limites e aprenderem a dizer não.
“Vamos dar ferramentas para que a pessoa diga não às coisas e às dificuldades que vai encontrar ao longo do caminho […] não podemos desanimar as pessoas que querem mudar dizendo que é impossível!”, complementou.
O encontro organizado pela AHF foi mais uma iniciativa no campo da saúde sexual e mental, que destacou a necessidade de abordar o Chemsex de maneira aberta, informativa e compassiva. O momento foi articulado visando a saúde e o bem-estar de indivíduos e comunidades.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
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