Em abertura do Congresso de DST, médica Angélica Espinosa garante que o Brasil tem se esforçado para eliminar a sífilis congênita como problema de saúde pública, mas que é preciso novas ações

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“Quais compromissos e ações precisam ser implementados no Brasil para o controle da sífilis congênita?” Foi com este questionamento que a Sociedade Brasileira de DST deu o ponta pé inicial ao XIV Congresso de DST, X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids, na noite nesta quarta-feira (4), em Florianópolis.

Sobrou para a médica Angélica Espinosa a tarefa de responder à pergunta. Ela, que é vice-secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde, trouxe um panorama das ações governamentais contra a sífilis nos últimos anos e garantiu que “somente com a valorização dos profissionais de saúde, a chegada de novas drogas, a implementação de sistemas de informação moderno, novas tecnologias para diagnóstico e parceria com a sociedade civil venceremos a sífilis congênita.”

De acordo com a especialista, não é por falta de propagandas de conscientização que a sífilis segue sendo um problema grave de saúde pública no Brasil, nem tão pouco pela ausência da discussão nos espaços de promoção à saúde e bem-estar. Pelo contrário, a gestora assegura que há muitos anos o Ministério da Saúde vem debatendo o tema com outros órgãos, estados e municípios, sociedades científicas, alertando para a importância do diagnóstico em tempo oportuno. “E até hoje o Ministério da Saúde continua trabalhando para superarmos a questão da sífilis. Temos até mesmo o Dia Nacional de Combate à Sífilis; então, não é por falta de se falar que ainda não conseguimos a eliminação da sífilis [enquanto problema de saúde pública]”, complementou.

Um marco histórico destacado pela secretária, foi a criação do Programa Nacional de DST/Aids, em 1986, na época intitulado como Controle Nacional de DST/Aids -, que estabeleceu consigo no mesmo ano a sífilis congênita como uma doença de notificação compulsória. Ao fazer o apontamento, Angélica Espinosa reiterou: “há muito tempo nós enquanto sociedade e profissionais de saúde temos a preocupação de colocar a sífilis como prioridade.”

Angélica apontou que cerca de 90% das gestantes com sífilis são tratadas com penicilina, mas ainda existem 6% que não recebem tratamento, apesar de terem sido notificadas com a doença. O pré-natal é um momento crítico, e a falta de tratamento nessa fase, segundo ela, levanta questionamentos importantes.

Comportamento

Além das questões clínicas, os fatores comportamentais e sociais complicam a resposta à sífilis. A profissional mencionou que “o comportamento sexual das pessoas não pode ser controlado, mas a complexidade das relações interpessoais, crenças religiosas e ambientes contribui para o desafio de enfrentar o problema.”

O estigma e a discriminação também são obstáculos. Na tribuna disse que profissionais de saúde devem evitar julgamentos e respeitar as decisões sexuais dos pacientes, trabalhando a prevenção em sentido amplo.

O que dizem os dados

Os casos de sífilis tiveram aumento no Brasil em todas as faixas etárias e sexos no período pós-pandemia. Enquanto os novos casos diagnosticados estavam em ascensão até 2018, houve uma estabilização dos casos, em 2019, seguida de uma queda em 2020, o primeiro ano da pandemia. Agora, os novos diagnósticos voltaram a crescer.

Em 2021, segundo o Ministério da Saúde, foram registrados 167.523 casos de sífilis adquirida (em adultos) e 74.095 em gestantes. Os dados representam uma taxa de 78,5 casos a cada cem mil habitantes, na sífilis adquirida, e 27,1 casos a cada 1.000 nascidos vivos, na sífilis em gestantes.

Houve ainda o registro de 27.019 casos de sífilis congênita, que ocorre pela transmissão da mãe para o bebê durante a gestação, equivalente a uma taxa de 9,9 casos a cada 1.000 nascidos vivos, com 192 óbitos no mesmo ano. Em 2020, a taxa era de 8,5.

Uma das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis, antes chamadas DSTs) mais antigas, a sífilis é causada pela infecção da bactéria Treponema pallidum e só ocorre no ser humano. Seu tratamento é por meio da penicilina.

No caso da sífilis congênita, o tratamento indicado é a penicilina benzatina (benzetacil), amplamente distribuído no SUS (Sistema Único de Saúde). ”

Inovação

A gestora ainda mencionou o pacto global de eliminar a transmissão vertical do HIV e da sífilis como problema de saúde pública até 2030. Para isso, julgou necessárias novas abordagens e inovações tanto na resposta brasileira, quanto na resposta mundial.

Dra. Angélica ressaltou que os esforços tem sido significativo em algumas regiões, como a cidade de São Paulo, que já eliminou a transmissão vertical do HIV. Outras 28 cidades, como Umuarama e Curitiba também conquistaram a certificação. No entanto, chamou atenção para o fato de que apenas os municípios do Sul e do Sudeste estão avançando neste sentido. Ela acredita que, com parcerias entre o governo federal, estados, municípios, sociedade civil e a sociedade científica, essa realidade pode se expandir nacionalmente.

Racismo estrutural

O racismo estrutural foi outro fator chave trazido na fala da congressista como determinante social que acarreta em complicações diversas nas taxas de sífilis. Neste sentido, frisou a necessidade de se abordar as questões raciais em sua completude.

“Isso para nós é uma vergonha como país! Não é porque a pessoa é negra que ela está tendo mais casos de sífilis, mas porque ela é mais vulnerável socialmente, isso é parte do nosso racismo estrutural. A gente tem conseguido ao longo das décadas, equalizar o número de gestantes com HIV, mas não estamos conseguindo o mesmo com a sífilis”, lamentou.

“Onde estamos errando se nós temos toda uma estrutura montada para isso?”, questionou.

“A gente vê no HIV [um decréscimo], e na hepatite B, que tem mostrado uma curva irregular, mas também apresenta baixa, agora na sífilis congênita, temos uma sífilis ascendente, porque em plenos 2023 persistimos com esses dados, apesar de todos os esforços que têm sido feitos, principalmente no Brasil, onde temos diagnóstico universal, tratamento universal, de forma gratuita, ofertado pelo SUS.”

Para além dos apontamentos do ponto de vista químico e biológico, Angélica reiterou que comportamentos humanos também são complicadores que influenciam diretamente no desfecho da infecção.

“A gente não controla o comportamento sexual das pessoas, ninguém controle, porque nós somos livres e vivemos em uma democracia, quem quiser transa na hora que quiser, inclusive uma gestante; só que comportamento social é uma questão complexa”, disse. Além disso, frisou que dada tamanha complexidade, a realidade se mostra desafiadora para enfrentar o problema, sem moralismo e preconceitos.

“Precisamos nos despir dos nossos preconceitos na hora que a gente veste a camisa de profissional de saúde, porque não estamos ali para julgar, mas para trocar experiências com o usuário de saúde, para respeitar a decisão sexual dele, seja ela qual for, e para trabalhar a prevenção no sentido mais global da palavra”, argumentou.

Eliminação da Transmissão Vertical até 2030

A vice-secretária de Vigilância não deixou de falar da criação do Comitê Interministerial para Eliminação de Doenças Socialmente Determinadas, até 2030. Este comitê criado sob decreto do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tem como objetivo central desenvolver um plano de trabalho conjunto com as diferentes pastas do governo com proposições para enfrentamento dos desafios comuns.

”Mas para isso, precisamos incorporar novas ideias, novas tecnologias, sair do nosso local de fala, e ver de longe o que pode ser feito diferente”, disse a gestora, parafraseando o médico Mauro Romero: “por décadas estamos fazendo coisas iguais esperando resultados diferentes.”

Sociedade Civil

A ativista Laurinha Brelaz, da Articulação com Movimentos Sociais em Santa Catarina, fez parte da mesa de abertura do evento, que integra ainda o X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/ HIV/Aids, e enfatizou a importância do diálogo com a sociedade civil para avançar na eliminação da Tuberculose. Para além, reivindicou ao governo, bem como aos profissionais presentes, oficialização e reconhecimento do comitê de tuberculose local. “Nós complementamos mais de dez anos de atuação e gostaríamos de continuar trabalhando junto com os profissionais de saúde para eliminação da tuberculose e coinfecção TB/HIV.”

David Lewis, presidente do International Union Against STIs (IUSTI), elogiou o Brasil por seu histórico de acesso a medicamentos na luta contra a aids, e chamou atenção para a importância do avanço na luta contra a sífilis congênita, destacando o crescimento global da doença.

Ele aproveitou o espaço para trazer um alerta acerca do crescimento exponencial da sífilis em todo o mundo, e mencionou: “[até aqui] houve muitas conquistas, mas há muitos desafios.”

José Eleutério Jr., presidente da Sociedade Brasileira de DST, na mesma linha de raciocínio, também reconheceu as vitórias, mas discorreu acerca dos desafios enfrentados pelos profissionais de saúde e pediu um compromisso contínuo na prevenção das ISTs.

“Na pandemia de covid-19 aprendemos muito no meio de tanto sofrimento. Já sabíamos que os verdadeiros heróis não são os midiáticos, não são os discursistas, não são os atores… são os profissionais da área da saúde, que colocaram em risco suas vidas para cuidar de tantos doentes. Mas apesar de tudo, falhamos, e continuamos a ver nossos profissionais de saúde a lutar por reconhecimento da sua importância para a sociedade e para a saúde do povo brasileiro; no entanto, talvez a resiliência seja a maior virtude de todos nós, não nos abatemos e seguimos na luta […] as ISTs se mantém crescendo em todo o mundo, os cuidados são essenciais e os governos têm que ter o compromisso de priorizar as Infecções Sexualmente Transmissíveis, em especial no âmbito da prevenção”, opinou.

Na mesa, também estava o presidente da comissão científica do congresso, Edilbert Pellegrini Junior, que falou da emergência de se tratar, sobretudo, de sífilis congênita. “Essa é uma questão que merece atenção especial [na agenda da sífilis].”

Já João Augusto, diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde de Santa Catarina, agradeceu e saudou a todos mencionando que um congresso como este é uma oportunidade única para preconizar discussões emergentes no estado de Santa Catarina.

“A covid-19 impactou essas doenças, as doenças não deixaram de acontecer, mas com a pandemia não deixou mais a gente notificar, e consequentemente agora estamos vendo o aumento de doenças e situações de preocupação.’’

Por fim, Maria Cristina, em nome dos Secretários Municipais de Saúde de Santa Catarina, pontuou que há muito trabalho pela frente a ser feito. “Com muita densidade de discussão, a gente precisa se entender e conversar para [aprofundar] o debate sobre as ISTs. Nos colocamos à disposição para capilarizar e aprimorar as políticas públicas”, finalizou.

Outras autoridades e especialistas fizeram parte da solenidade que chegou ao fim com uma homenagem da Sociedade Brasileira de DST aos profissionais de saúde que lutam diariamente contra as IST/aids.

Kéren Morais (kéren@agenciaaids.com.br)

 

A equipe da Agência Aids está em Florianópolis e cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/ Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde

Dica de entrevista

XIV Congresso da SBDST, X Congresso Brasileiro de Aids e V Congresso Latino Americano de IST/HIV/Aids

Tel.: (41) 3022-1247

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