Estado tem a maior taxa de detecção de aids do país; planos dos dois candidatos mais bem colocados na pesquisa Quaest priorizam regionalização, redução de filas e ampliação dos serviços de saúde
No próximo mês, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 158,75 milhões de brasileiras e brasileiros estarão aptos a votar nas eleições de 4 de outubro. Se necessário, o segundo turno das disputas para presidente da República e governadores ocorrerá em 25 de outubro.
O eleitorado voltará às urnas eletrônicas para escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. No primeiro turno, as seis escolhas seguirão esta ordem:
1. Deputado federal;
2. Deputado estadual ou distrital, no caso do Distrito Federal;
3. Senador — primeira vaga;
4. Senador — segunda vaga;
5. Governador e vice-governador;
6. Presidente e vice-presidente da República.
Nesse contexto, a Agência Aids inicia uma série de reportagens sobre as propostas para a saúde apresentadas nos planos de governo dos candidatos às eleições de 2026.
A série começa por Roraima, estado da Região Norte que tem Boa Vista como capital e população estimada em 738,8 mil habitantes em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estado faz divisa com o Amazonas, ao sul e a oeste, e com o Pará, a sudeste.
A escolha está relacionada ao cenário epidemiológico local. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, Roraima registrou, em 2024, a maior taxa de detecção de aids entre as unidades da Federação: 41,3 casos por 100 mil habitantes, diante da média nacional de 17,4.
Nesta primeira reportagem, apresentamos os planos de governo dos dois candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest divulgada em 27 de agosto. No levantamento, Arthur Henrique (PL) aparece com 60% das intenções de voto, seguido por Soldado Sampaio (Republicanos), com 27%. A pesquisa ouviu 804 eleitores entre os dias 23 e 26 de agosto, tem margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
A Agência Aids consultou os documentos apresentados pelos candidatos para identificar propostas relacionadas à saúde, ao Sistema Único de Saúde (SUS), aos direitos humanos, à população LGBT+ e às políticas de prevenção e enfrentamento ao HIV/aids e às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
Os planos de ambos priorizam a regionalização do atendimento, a redução de filas e a ampliação dos serviços de saúde. Apesar do cenário epidemiológico do estado, os documentos não mencionam expressamente HIV ou aids. Também não foram localizadas propostas específicas para a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) ou para a população LGBT+.
Arthur Henrique propõe regionalização, expansão da Saúde da Família e carretas para o interior

Arthur Henrique Brandão Machado nasceu em Boa Vista, é formado em Engenharia Elétrica e trabalhou nas empresas Siemens e Capgemini antes de ingressar no serviço público. Foi secretário municipal de Inclusão Digital, vice-prefeito de Boa Vista e secretário municipal de Educação e Cultura. Eleito prefeito da capital em 2020, foi reeleito em 2024 e deixou o cargo em abril de 2026. Filiou-se ao PL em outubro de 2025.
Na eleição suplementar realizada em junho deste ano, Arthur obteve 60,87% dos votos, mas não foi proclamado eleito porque sua candidatura estava sub judice. O resultado permaneceu condicionado às decisões da Justiça Eleitoral.
No plano apresentado para as eleições de outubro, Arthur concorre ao lado de Haroldo Cathedral e dedica uma parte específica do documento à saúde.
Entre os principais pontos está a regionalização da assistência, com fortalecimento da atenção básica nos municípios-polo, recuperação de hospitais do interior, utilização de telemedicina e melhoria dos serviços de ambulância. A proposta parte do diagnóstico de que Boa Vista concentra grande parte da oferta estadual de saúde.
O candidato também propõe transformar o tempo de espera nas unidades de saúde em indicador público. Cada estabelecimento da rede estadual deverá medir e divulgar suas filas, enquanto a Central Estadual de Regulação de Leitos teria um painel para acompanhamento pela população.
Outra frente prevista é a expansão da Estratégia Saúde da Família, em parceria com os municípios, tomando como referência a ampliação realizada em Boa Vista durante sua gestão. O plano afirma que a capital passou de 60 para 149 equipes.
Arthur também propõe a criação de uma frota estadual de Carretas da Saúde, com atendimento médico e odontológico nos municípios, além de concurso público para profissionais da área e mutirões permanentes para cirurgias eletivas, com prioridade baseada no tempo de espera e na gravidade dos pacientes.
Saúde da mulher e hospitais do interior
Para a saúde das mulheres, o programa propõe levar ao interior o modelo de unidades móveis adotado em Boa Vista. A proposta prevê uma frota estadual própria, com mamografia digital, ultrassonografia e capacidade para realização de biópsias. As carretas deverão percorrer os 15 municípios de acordo com uma programação anual e integrar os resultados à regulação estadual para encaminhamento das pacientes que apresentarem exames alterados.
Arthur também promete ampliar e modernizar hospitais e unidades no interior, citando nominalmente estruturas de Pacaraima, Normandia, Alto Alegre e Rorainópolis. O plano prevê ainda a execução de um Plano Diretor de Saúde para o período de 2027 a 2030.
Para os povos indígenas, a candidatura apresenta a criação de um plano específico de saúde, em articulação com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e lideranças das comunidades.
O documento também relaciona o crescimento populacional e a migração venezuelana à necessidade de planejamento dos serviços. Segundo o próprio plano, cerca de um em cada oito moradores do estado seria migrante, situação que, para a candidatura, precisa ser considerada no dimensionamento das políticas de saúde, educação e segurança.
Nas buscas realizadas no documento, não foram encontradas referências nominais a HIV ou aids. Também não aparecem população LGBT+, orientação sexual ou identidade de gênero.
Soldado Sampaio propõe dividir Roraima em quatro regiões de saúde

Francisco dos Santos Sampaio, o Soldado Sampaio, é formado em Ciências Contábeis, policial militar e deputado estadual. Foi eleito pela primeira vez para a Assembleia Legislativa de Roraima em 2010 e chegou ao quarto mandato consecutivo nas eleições de 2022. Presidiu o Legislativo estadual e, em 2026, assumiu interinamente o governo de Roraima.
Candidato pelo Republicanos, Sampaio apresenta o programa “10 Eixos para Reconstruir Roraima”, no qual a saúde ocupa o segundo eixo, denominado “Saúde Mais Perto das Pessoas”.
O programa identifica como problemas a superlotação dos serviços na capital, a precariedade de equipamentos e atendimentos no interior, a baixa capacidade de resolução regional, as filas para consultas e cirurgias, a mortalidade infantil e a cobertura vacinal considerada abaixo do recomendado.
A principal proposta é dividir Roraima em quatro regiões sanitárias: Metropolitana, Sul, Norte e Indígena e Áreas Remotas. Cada região teria uma organização assistencial própria. A área metropolitana concentraria alta complexidade, trauma, neurocirurgia, oncologia e UTIs especializadas; o Sul receberia especialidades, exames e cirurgias; o Norte teria atenção especializada e teleassistência; e as áreas indígenas e remotas contariam com saúde itinerante, unidades móveis, telemedicina e integração entre Estado e Sesai.
Sampaio também propõe criar uma nova Central Estadual de Regulação, com fila única, classificação por risco, prontuário integrado, agendamento digital e monitoramento em tempo real.
Vacinação, telemedicina e redução das filas
Na atenção básica, o programa prevê apoiar a ampliação da Estratégia Saúde da Família, do pré-natal e do acompanhamento de pessoas com hipertensão e diabetes.
Também estão previstas policlínicas regionais com serviços de cardiologia, endocrinologia, ortopedia, ginecologia e pediatria, além de tomografia, ultrassonografia, fisioterapia e pequenas cirurgias. A rede de transporte sanitário seria ampliada para atender pacientes regulados e usuários do Tratamento Fora de Domicílio (TFD).
Para reduzir as filas, o candidato propõe mutirões permanentes para cirurgias eletivas, exames e consultas especializadas, com metas de produção e acompanhamento público.
Na vacinação, a proposta é criar um programa articulado com as 15 secretarias municipais de saúde, distritos sanitários indígenas e comunidades indígenas, com atenção especial aos primeiros mil dias de vida.
O programa inclui ainda uma carreta destinada à saúde da mulher, com mamografias, exames de Papanicolau e ultrassonografias, além de um novo Centro de Referência da Saúde da Mulher em Boa Vista.
Assim como ocorre no documento de Arthur Henrique, as buscas no plano de Soldado Sampaio não localizaram referências a HIV ou aids. Também não foram encontradas menções à população LGBT+, orientação sexual ou identidade de gênero.
O documento estabelece, entre seus princípios, que as decisões governamentais deverão ser tomadas “sem distinção de origem, raça, sexo, cor, idade, credo ou convicção”, mas não apresenta um capítulo específico para direitos humanos ou diversidade sexual.
Raio-X da aids em Roraima

Os indicadores epidemiológicos colocam Roraima em posição de destaque no cenário brasileiro do HIV/aids. Em 2024, o estado apresentou 41,3 casos de aids por 100 mil habitantes, a maior taxa entre as 27 unidades da Federação. A média do Brasil foi de 17,4 casos por 100 mil habitantes. O segundo colocado, Amazonas, registrou 35,2.
A comparação com uma década antes mostra crescimento expressivo. Em 2014, a taxa de detecção de aids em Roraima era de 23,4 casos por 100 mil habitantes. Em 2024, chegou aos 41,3, aumento de 76,5% no período.
O Boletim Epidemiológico de 2025 também utiliza um índice composto que reúne taxa de detecção de aids, mortalidade, casos em crianças menores de 5 anos e indicadores relacionados ao momento do diagnóstico. Nesse ranking, considerando o período de 2020 a 2024, Roraima aparece em primeiro lugar entre as unidades da Federação, com índice 7,178. A taxa média de mortalidade por aids considerada nesse cálculo foi de 6,2 óbitos por 100 mil habitantes.
Há outro indicador que ajuda a dimensionar o desafio: entre 2014 e 2024, enquanto várias unidades da Federação reduziram as taxas de aids, Roraima caminhou no sentido contrário, passando de 23,4 para 41,3 casos por 100 mil habitantes.
Boa Vista também está entre as capitais com altas taxas de HIV
Os dados do Ministério da Saúde permitem observar separadamente a infecção pelo HIV e os casos de aids. Essa distinção é importante: uma pessoa pode viver com HIV sem desenvolver aids quando é diagnosticada e tratada adequadamente.
Em 2024, Boa Vista registrou taxa de detecção de HIV de 47,6 casos por 100 mil habitantes, a terceira maior entre as capitais brasileiras, atrás apenas de Florianópolis, com 49,4, e Manaus, com 49,2.
No indicador de aids, a situação da capital já vinha chamando atenção. Em 2023, Boa Vista tinha a maior taxa de detecção de aids entre as capitais brasileiras, com 50,4 casos por 100 mil habitantes, segundo o Ministério da Saúde.
Prevenção e tratamento no próximo governo
O HIV é uma infecção tratável. Com diagnóstico e uso regular da terapia antirretroviral, pessoas vivendo com HIV podem manter qualidade de vida e impedir a evolução para a aids. A prevenção oferecida pelo SUS inclui preservativos, testagem, PEP — utilizada depois de uma possível exposição ao vírus — e PrEP, tomada antes da exposição para reduzir o risco de adquirir HIV.
Em Roraima, o desafio apresentado pelos dados oficiais envolve tanto a prevenção de novas infecções quanto o diagnóstico oportuno e a vinculação das pessoas aos serviços de saúde.
Os planos apresentados por Arthur Henrique e Soldado Sampaio preveem ampliação da atenção básica, regionalização dos serviços, telemedicina, ações no interior e atendimento às populações indígenas. Nenhum dos dois documentos, porém, apresenta proposta específica para HIV/aids, ISTs ou PrEP.
Em um estado que registrou em 2024 a maior taxa de detecção de aids do Brasil, essas políticas estarão entre as atribuições da administração que assumirá o governo de Roraima em 2027.
Redação da Agência de Notícias da Aids




