Diretor da ONG Motirô-BA afirma que programa não detalha políticas para prevenção, tratamento e cuidado relacionados ao HIV e outras ISTs
A Agência de Notícias da Aids dá continuidade à série de reportagens sobre as eleições de 2026, que terão o primeiro turno realizado no próximo dia 4 de outubro. Nesta etapa, ativistas e representantes da sociedade civil de diferentes regiões do Brasil analisam as propostas para a Saúde apresentadas nos programas de governo dos candidatos mais bem colocados na disputa pela Presidência da República.
Segundo a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira (10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 43% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), com 37,4%. Augusto Cury (Avante) registra 6,6%, praticamente empatado com Renan Santos (Missão), que tem 6,5%. O levantamento ouviu 5 mil eleitores entre os dias 4 e 9 de setembro e tem margem de erro de um ponto percentual, para mais ou para menos.
Nesta reportagem, a Agência Aids apresenta a análise do programa de governo de Augusto Cury, candidato à Presidência pelo Avante. Quem analisou as propostas foi Javier José Angonoa, diretor-geral da ONG Motirô-BA, organização que atua na Bahia com populações em situação de vulnerabilidade e em ações relacionadas à saúde pública.
Conheça o candidato Augusto Cury

Augusto Jorge Cury, 67 anos, nasceu em Colina, no interior de São Paulo. Médico psiquiatra, escritor, conferencista e empresário, tornou-se conhecido nacionalmente pelos livros voltados à saúde emocional, comportamento e desenvolvimento humano. Entre suas obras mais conhecidas está O Vendedor de Sonhos.
Cury disputa pela primeira vez um cargo eletivo. Candidato à Presidência pelo Avante, tem como vice o ex-deputado federal Júlio Delgado, também do partido. Sua campanha procura se apresentar como alternativa à polarização política e tem na educação, na saúde emocional e no que o candidato chama de “Gestão da Emoção” algumas de suas principais bandeiras.
Nas últimas semanas, o escritor ganhou espaço na disputa presidencial e chegou ao terceiro lugar em diferentes pesquisas eleitorais. No Datafolha divulgado no início de setembro, passou de 2% para 8% das intenções de voto.
Saúde no programa de Augusto Cury
Com cerca de 200 páginas, o programa de governo de Augusto Cury, intitulado “O Brasil dos Nossos Sonhos”, apresenta propostas distribuídas em diferentes áreas e dedica atenção especial à saúde mental, prevenção, tecnologia e digitalização do atendimento.
Na área da Saúde, o candidato propõe fortalecer a atenção primária, integrar prontuários, reduzir filas, ampliar equipes multiprofissionais e aumentar a capacidade nacional de pesquisa e produção de medicamentos, vacinas, equipamentos médicos e produtos biotecnológicos.
Um dos principais eixos é a telemedicina. O programa propõe criar uma plataforma pública nacional de medicina digital e estabelece como meta atendimento remoto em até 30 minutos nos casos considerados compatíveis com essa modalidade. O documento também prevê triagem clínica com utilização de inteligência artificial, atendimento entre diferentes estados e criação de pontos públicos de acesso digital para pessoas sem equipamentos ou conexão adequada à internet.
A saúde mental aparece de maneira recorrente. O plano propõe um programa nacional voltado à prevenção da ansiedade, depressão, automutilação e suicídio, além da aplicação de conteúdos relacionados à chamada “Gestão da Emoção” em escolas e até durante a espera por atendimentos na plataforma de medicina digital.

Para o diretor da Motirô-BA, o programa reúne uma grande quantidade de ideias, mas deixa lacunas quando se procura identificar como determinadas propostas seriam implementadas na prática, especialmente para as populações que dependem do SUS e vivem em contextos de maior vulnerabilidade.
Javier questiona principalmente a centralidade atribuída à telemedicina. Em sua avaliação, ampliar o atendimento remoto pode ser importante, mas não resolve sozinho problemas relacionados ao acesso à internet, realização de exames, distribuição de medicamentos e continuidade do cuidado.
A seguir, a Agência Aids publica a análise de Javier Angonoa na íntegra:
“Fui encarregado de fazer uma matéria sobre os presidenciáveis, analisando suas propostas para a saúde, em especial para verificar se existe algo relacionado ao HIV. Tive que fazer uma análise das propostas de Augusto Cury, partindo da minha percepção de que ele é uma mistura de Padre Kelmon e Pablo Marçal.
Sobre a proposta presidencial para o Brasil, adianto que ela parece uma peça produzida por IA, com muitas propostas mirabolantes e carregadas de um otimismo surreal.
A introdução pretende ser uma peça de ‘imparcialidade’ para, depois, apresentar-se como a de um grande pacificador e salvador do povo das ‘ideologias’. É importante destacar que ele reconhece alguns méritos da esquerda, afirmando:
‘Outro mérito histórico da esquerda foi defender sistemas públicos de proteção social. Saúde pública, assistência básica e programas de proteção aos mais pobres nasceram da compreensão de que nenhuma sociedade pode prosperar abandonando milhões de pessoas à própria sorte.’ (p. 13)
Pareceria um elogio, mas todo o discurso posterior é centrado nas ‘benesses’ do capitalismo, embora também aponte que ele precisa ser melhorado.
O candidato se apresenta como uma pessoa propositiva: ‘A política precisa abandonar a lógica do inimigo permanente. Precisamos substituir a cultura do ataque pela cultura dos projetos. O Brasil está cansado de guerras ideológicas. O povo quer segurança, emprego, estabilidade emocional e esperança.’ (p. 19)
Aqui temos o foco de nossa matéria: os projetos concretos. Na verdade, o documento é uma súmula de ideias genéricas, com alguns casos concretos utilizados para ilustrar suas propostas.
Nas propostas para a indústria, há um parágrafo sobre a indústria farmacêutica e a proposta de aumentar a capacidade de pesquisa e fabricação de medicamentos (p. 41).
Sobre HIV/aids, outras ISTs ou outras doenças transmissíveis, não há nada de concreto. Essas questões sequer são mencionadas no Plano — com exceção do HPV, no capítulo dedicado ao câncer. A única questão de saúde destacada de maneira mais específica é o câncer (Projeto 14, ‘Detecção e prevenção do câncer’, p. 166).
Há uma ênfase excessiva na telemedicina, apresentada quase como a grande salvação do SUS. No entanto, a proposta não leva em conta alguns fatores importantes. A maioria das pessoas que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços do SUS está em situação de grande vulnerabilidade. A telemedicina não é necessariamente de ‘fácil acesso’: além da necessidade de conhecimentos para o manejo das ferramentas digitais, é preciso ter acesso à internet — algo que ainda é difícil em muitos locais.
E, mesmo que o médico consiga realizar o atendimento, como serão solucionados os problemas relacionados à realização de exames, ao acesso aos medicamentos e à continuidade do cuidado? Nada disso aparece de maneira clara no Plano.
O documento também apresenta sua atuação profissional, o ‘coaching’, como uma espécie de solução para a saúde mental. Deixo essa questão para as conclusões de cada um. Eu, particularmente, já tenho a minha:
‘Feliz aquela pessoa que não precisa de líder religioso, coach ou influenciador digital!’”
Leia a plano de governo de Augusto Cury na íntegra
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Javier Angonoa
Diretor-geral da ONG Motirô-BA
Instagram: @motirobahia



