Eleições 2026: pessoas que vivem com HIV defendem o SUS e a democracia no segundo turno: “O seu voto vale a minha vida”

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Em depoimentos marcados pela defesa da saúde pública, da ciência e dos direitos humanos, pessoas que vivem com HIV explicam por que o voto deste domingo representa também um compromisso com a vida

Neste domingo (25), quando milhões de brasileiros voltam às urnas para decidir o segundo turno das eleições de 2026, o voto ganha um significado particular para quem conhece, na própria trajetória, a importância das políticas públicas de saúde. Para pessoas que vivem com HIV, a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), da democracia e dos direitos humanos não se limita ao debate eleitoral: está diretamente relacionada ao acesso ao tratamento, à continuidade do cuidado e à possibilidade de viver com dignidade.

É essa a mensagem que atravessa os depoimentos de pessoas que vivem com HIV e decidiram tornar públicas suas razões para votar. São histórias de diferentes gerações, experiências e trajetórias, mas que encontram um ponto em comum: a defesa de um país que valorize a ciência, combata o preconceito e reconheça a saúde como um direito de todos.

No Brasil, o acesso gratuito aos medicamentos antirretrovirais pelo SUS é garantido desde 1996, uma conquista histórica da resposta brasileira à epidemia de HIV/aids. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, aproximadamente 1,1 milhão de pessoas viviam com HIV ou aids no país em 2024. Por trás desses números estão pessoas que trabalham, constituem famílias, fazem planos e dependem da continuidade das políticas públicas para cuidar da saúde.

“O seu voto vale a minha vida”

Para o advogado e professor de Direito Dimitri Salles, que descobriu o diagnóstico em 2017, a relação entre o voto e a própria sobrevivência é direta. Desde o início do tratamento, ele recebe medicamentos e acompanhamento pelo SUS. Hoje, com carga viral indetectável, faz da sua experiência um chamado à responsabilidade de quem vai às urnas.

“Eu vivo com HIV. Sim, essa é uma informação verdadeira, e o seu voto vale a minha vida. Em 2017, eu descobri o vírus. Imediatamente, eu iniciei o tratamento e, pouquíssimo tempo depois, eu já estava indetectável. Isso significa que o vírus praticamente desapareceu do meu corpo, não representando risco algum pra minha saúde. Todo o tratamento, de lá até hoje, foi custeado pelo SUS. É uma rotina de cuidados permanentes, com exames, com medicação, que custa muito caro. E eu não poderia pagar por conta própria se não fosse o financiamento da saúde pública do SUS. Permanecer indetectável, graças ao tratamento custeado pelo Sistema Único de Saúde, faz com que o vírus não represente nenhum mal à minha saúde ou à saúde de quem esteja próximo a mim. Por exemplo, o meu namorado, que não tem o vírus. Eu digo tudo isso pra te contar que a saúde pública no Brasil salva a minha vida, como tem salvado a vida de milhares de brasileiras e brasileiros. No Brasil, cerca de 1 milhão de pessoas vivem com HIV/aids. É pelo SUS que eu me trato, é pelo SUS que eu sigo acreditando na vida, com esperança, e o seu voto vale a minha vida.”

A experiência de Dimitri também evidencia um dos avanços científicos mais importantes no enfrentamento do HIV: pessoas em tratamento que mantêm a carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual. A condição não significa cura, mas demonstra como o acesso contínuo aos medicamentos transforma a qualidade de vida e as perspectivas de futuro.

O jornalista Alberto Pereira Jr., fundador do bloco de carnaval Domingo Ela Não Vai, amplia essa discussão. Vivendo com HIV há 17 anos, ele associa a defesa do SUS à construção de um país mais democrático, acolhedor e comprometido com a inclusão.

“Sou homem negro, gay e que vivo com HIV há 17 anos. Eu voto por um país mais humano. Eu voto por um país mais democrático. Eu voto por um país que acredita na ciência, na tecnologia, na saúde e na educação. Eu voto por um país mais acolhedor, que não deixa ninguém pra trás. Eu voto por um país que aposta no SUS, de graça e pra todo mundo. Eu voto. Bora votar também?”

Uma conquista construída pela luta de muitas gerações

A defesa do tratamento gratuito também carrega a memória de quem enfrentou os primeiros anos da epidemia, quando as possibilidades terapêuticas eram limitadas e o acesso aos medicamentos ainda precisava ser conquistado.

Aos 66 anos, Nair Brito vive com HIV há 33 anos e participou da mobilização pelo acesso aos antirretrovirais no Brasil. Para ela, a eleição representa a oportunidade de escolher quem terá a responsabilidade de preservar e ampliar direitos conquistados ao longo de décadas.

“Eu vivo com HIV há 33 anos. Eu sobrevivi porque encontrei um SUS estruturado. Eu sobrevivi e sobrevivo porque lutei, em 1996, pelo medicamento para o HIV. Eu lutei e luto até hoje. Por isso, eu tô aqui, pra que o nosso voto signifique contratar gente por 4 anos pra organizar, pra manter, pra ampliar, pra qualificar o nosso país na área da saúde, da educação, do lazer, do trabalho, da moradia, e que a gente seja feliz esses 4 anos. Que haja uma democracia linda, onde todos possam participar, onde todos tenham pão, onde todos possam viver com dignidade, porque a vida conta. Viva a vida! Vote pela vida.”

A trajetória de Nair ajuda a compreender por que a continuidade das políticas de saúde ocupa um lugar tão importante nesses depoimentos. O acesso aos medicamentos não surgiu espontaneamente: foi resultado de mobilização social, decisões políticas e da atuação de pessoas que reivindicaram o direito de continuar vivendo.

Também usuário do SUS há mais de três décadas, Veriano Terto, vice-presidente da ABIA, chama a atenção para a necessidade de proteger a saúde pública e os mecanismos de participação social. Em sua manifestação, ele relaciona o voto à defesa da cidadania e ao enfrentamento das diferentes formas de discriminação.

“Eu sou usuário do SUS há mais de 30 anos. Eu estou vivo por causa dos medicamentos que eu pego regularmente nas farmácias do SUS para me manter vivo. Por isso, eu voto pela saúde como um direito humano fundamental. Eu voto pela saúde como um direito do cidadão. Eu voto pela democracia. Eu voto pela participação social. Eu voto contra todos os preconceitos e contra qualquer forma de discriminação. Pensem bem antes de votar. Pensem bem em quem vocês estão escolhendo. Não escolham políticas que venham a afetar a saúde de vocês. Não queremos que passe no Brasil o que está acontecendo na Argentina, com taxas de suicídio crescentes, pessoas com HIV sem receber medicamentos, pessoas idosas tendo todo o seu apoio para conseguir medicamentos cortado. Nós queremos a saúde como um direito. Saúde é vida, saúde é direito. Viva a democracia!”

Ciência, direitos humanos e o futuro do país

Embora o acesso ao tratamento ocupe um lugar central nos relatos, as preocupações vão além da assistência médica. A defesa da democracia aparece associada ao combate à violência, à valorização da educação, ao respeito às diferenças e à construção de políticas públicas capazes de alcançar toda a população.

É nessa perspectiva que Letícia de Assis, do Gapa de Santa Catarina, apresenta suas razões para votar. Sua manifestação reúne reivindicações relacionadas à prevenção do HIV, ao fortalecimento do SUS e à proteção das mulheres contra diferentes formas de violência.

“No dia 25, eu vou votar pela ciência, pelo SUS, que ele seja cada vez mais forte, universal e gratuito, pela saúde, pela repreensão de qualquer tipo de violência, para que mulheres não sejam mais machucadas, nem violentadas, nem mortas. Por uma política forte para nós, pessoas que vivemos com HIV/aids, e também uma política de prevenção, pela saúde, pela democracia, pelos direitos humanos. Vote, vote com consciência, vote pela vida.”

A professora aposentada Jenice Pizão, que vive com HIV há 36 anos, também olha para além do presente. Ao defender o fortalecimento do SUS e da educação pública, ela destaca a responsabilidade de pensar no Brasil que será deixado para as próximas gerações.

“Meu voto será pela ciência, pela educação pública de qualidade, pelo fortalecimento cada vez maior do SUS. Enfim, por um Brasil que quero deixar para os meus netos. Um Brasil com mais trabalho, dignidade para seu povo, com mais soberania e democracia. Venha votar você também.”

A esperança também aparece como elemento central no depoimento de Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova. Para ele, defender a democracia significa garantir que diferentes vozes sejam ouvidas e que nenhuma pessoa seja silenciada.

“Meu voto é pela esperança, pela ciência que nos mantém vivos, pelo SUS que nos acolhe, por um Brasil mais justo, pela democracia que nos dá voz e também pelo fim de todo silenciamento. Meu voto é pela vida. Vote você também.”

Entre as diferentes gerações representadas nesses depoimentos, Diego Krausz reforça o impacto concreto da assistência pública na vida cotidiana. Há oito anos, o SUS garante o acesso gratuito aos medicamentos de que necessita. É dessa experiência que nasce sua defesa da ciência, da democracia e da participação eleitoral.

“Oi, eu sou Diego Krausz e eu vivo com HIV. E eu voto, eu voto pela esperança, pela democracia. Eu voto pela ciência e voto pelo SUS, que há 8 anos faz com que eu tenha o medicamento de forma gratuita. Vote você também.”

O que está em jogo nas urnas

Neste segundo turno, os brasileiros escolhem o presidente da República e, nos estados onde há disputa, os governadores que estarão à frente de decisões fundamentais para a organização e o financiamento das políticas públicas nos próximos quatro anos.

Para as pessoas que compartilharam suas histórias, a eleição também é um momento de reafirmar conquistas e defender sua continuidade. Os depoimentos não indicam candidatos ou partidos, mas expressam expectativas sobre o país que desejam construir: com saúde pública acessível, respeito aos direitos humanos, investimentos em ciência e participação democrática.

Neste domingo, as urnas recebem milhões de votos e, com eles, diferentes expectativas sobre o futuro do Brasil. Para Dimitri, Alberto, Nair, Veriano, Letícia, Jenice, Américo e Diego, há algo que não pode ficar fora desse debate: a defesa da vida, do SUS e da democracia.

As seções eleitorais funcionam neste domingo (25), das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Redação da Agência de Notícias da Aids

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