Omar Aziz e Professora Maria do Carmo estão tecnicamente empatados no primeiro turno, segundo a AtlasIntel; os dois planos de governo preveem ampliar a assistência fora de Manaus, enquanto propostas específicas para HIV/aids, ISTs e PrEP não foram localizadas no material consultado
O Amazonas, maior estado brasileiro em extensão territorial, chega às eleições de 2026 com um desafio que atravessa praticamente todas as políticas públicas: fazer o Estado chegar a uma população espalhada por um território de mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, onde muitas comunidades dependem dos rios ou de transporte aéreo para acessar serviços básicos.
Na saúde, essa distância ganha peso adicional. Além da concentração da assistência especializada em Manaus, o Amazonas registrou, em 2024, 35,2 casos de aids por 100 mil habitantes, a segunda maior taxa entre as unidades da Federação, atrás apenas de Roraima. Na capital amazonense, a taxa chegou a 53,4 casos por 100 mil habitantes, também a segunda maior entre as capitais brasileiras.
É neste cenário que Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL) aparecem nas duas primeiras posições da pesquisa AtlasIntel divulgada na sexta-feira, 4 de setembro. Omar tem 31% das intenções de voto no primeiro turno, contra 27,4% de Maria do Carmo. Considerando a margem de erro de três pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Em uma eventual disputa de segundo turno entre eles, Maria do Carmo aparece com 53,3%, e Aziz, com 46,7%. A pesquisa ouviu 1.185 eleitores entre 29 de agosto e 3 de setembro, tem nível de confiança de 95%.
A Agência Aids consultou os planos apresentados pelos dois candidatos e as propostas disponibilizadas oficialmente pelas campanhas para identificar o que preveem para saúde, Sistema Único de Saúde (SUS), direitos humanos, população LGBT+ e, especialmente, para o enfrentamento ao HIV/aids, às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e para a ampliação da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP).
Amazonas: 4,3 milhões de habitantes e enormes distâncias
O Amazonas tem área de 1.558.704 quilômetros quadrados e população estimada em 4.321.616 habitantes em 2025, segundo o IBGE. No Censo de 2022, eram 3.941.613 moradores, distribuídos por 62 municípios, com densidade demográfica de apenas 2,53 habitantes por quilômetro quadrado.
A dimensão territorial ajuda a explicar parte dos desafios da saúde pública. Em várias localidades, o deslocamento até os serviços depende exclusivamente de embarcações ou aviões. O próprio plano apresentado por Omar Aziz reconhece que grande parte das comunidades é acessível apenas por via fluvial ou aérea e que a concentração administrativa na capital amplia o tempo de resposta e as desigualdades no acesso às políticas públicas.
O estado também abriga a maior população indígena do Brasil. O Censo 2022 contabilizou cerca de 490,9 mil pessoas indígenas no Amazonas. Manaus, com 71,7 mil, era o município brasileiro com maior população indígena, seguido por São Gabriel da Cachoeira, com 48,3 mil, e Tabatinga, com 34,5 mil.
Essas características territoriais aparecem nas propostas dos dois candidatos, que colocam a interiorização e a regionalização da assistência entre os principais pontos de seus programas para a saúde.
Omar Aziz propõe hospitais regionais e redução da fila do Sisreg

Omar Aziz é senador pelo Amazonas, engenheiro civil e ex-governador do estado. Antes de chegar ao Senado, foi vereador de Manaus, deputado estadual, vice-prefeito da capital e vice-governador. Governou o Amazonas entre 2010 e 2014.
Seu plano foi apresentado em diversos volumes, sob o título Plano Estratégico de Desenvolvimento do Amazonas. O documento se define como uma proposta de longo prazo e afirma que suas diretrizes foram construídas a partir de diagnósticos técnicos e da participação de especialistas e instituições.
Na saúde, uma das principais propostas é a construção de sete hospitais regionais no interior, com a intenção de descentralizar consultas especializadas, cirurgias, internações e serviços de urgência e emergência atualmente concentrados em Manaus. O programa também prevê ampliar a telessaúde e estruturar uma rede regional de atendimento.
Para Manaus, a candidatura anuncia a construção de um novo Hospital Geral e de novas maternidades. A campanha também estabelece como prioridade a redução da fila do Sistema Nacional de Regulação (Sisreg), responsável pelo encaminhamento dos usuários para consultas, exames e procedimentos especializados.
A candidata a vice-governadora na chapa, Alessandra Campêlo, informou ainda que o programa prevê mutirões nos primeiros meses de governo para enfrentar a demanda reprimida por consultas, exames e cirurgias, além da construção de três novas maternidades na capital.
No documento apresentado pela candidatura, a regionalização aparece também na proposta de criação de polos regionais de saúde, com objetivo de reduzir os chamados “desertos assistenciais” e ampliar a cobertura no interior.
O plano dedica atenção ao financiamento da rede. Ao tratar das contas estaduais, o documento sustenta que houve redução proporcional dos investimentos em obras e equipamentos de saúde, ao mesmo tempo em que aumentaram as despesas de custeio e contratos. A reorganização dos gastos públicos aparece como uma das diretrizes para ampliar a capacidade de investimento.
A interiorização é apresentada como estratégia transversal. O plano prevê estruturas regionais permanentes e integração entre órgãos de saúde e outras áreas do governo para alcançar territórios mais distantes.
Populações indígenas e direitos
As propostas de Omar também contemplam políticas voltadas aos povos indígenas, especialmente nas áreas de presença territorial do Estado, consulta às comunidades e integração entre políticas públicas. O programa defende que a atuação estadual em territórios indígenas seja contínua e culturalmente adequada e prevê estruturas descentralizadas no interior.
Nos materiais consultados pela reportagem, entretanto, não foram localizadas propostas específicas para HIV/aids, ISTs ou PrEP. Nos volumes disponibilizados para consulta, as buscas pelos termos HIV e aids não retornaram referências.
A sigla LGBTQIA+ aparece no glossário de um dos volumes, mas a referência localizada é apenas a definição do termo, sem uma política específica associada naquele trecho.
Maria do Carmo propõe seis hospitais regionais e equipes fluviais de saúde

Professora Maria do Carmo é empresária e educadora e disputa o governo pelo PL. Seu plano apresentado à Justiça Eleitoral é mais enxuto e reúne as principais propostas para diferentes áreas em nove páginas.
Na saúde, a candidata também coloca a interiorização entre suas principais diretrizes.
O programa propõe ampliar as equipes de saúde fluvial e ribeirinha e a telessaúde, priorizando municípios ainda sem cobertura e requalificando estruturas de saúde já existentes.
Outra proposta é construir seis hospitais regionais, localizados em São Gabriel da Cachoeira, Tefé, Tabatinga, Humaitá, Itacoatiara e Eirunepé. As unidades deverão contar com leitos de UTI, consultas com especialistas e atendimento de média e alta complexidade, com o objetivo de reduzir as transferências de pacientes para Manaus.
Na saúde da mulher, Maria do Carmo propõe fortalecer o cuidado integral e reduzir o intervalo entre diagnóstico e tratamento de doenças graves, citando especificamente o câncer do colo do útero.
Saúde indígena e populações vulneráveis
O programa reserva uma proposta específica à saúde indígena. A candidata pretende capacitar profissionais para o atendimento intercultural e organizar a logística de medicamentos e transporte respeitando a língua e a cultura de cada povo.
Na assistência social, o documento prevê fortalecer a proteção de mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência, povos indígenas e comunidades tradicionais. Também propõe integrar ao sistema de saúde os serviços destinados à população em situação de rua e às pessoas com dependência química.
O plano não apresenta uma seção específica dedicada aos direitos humanos e não foram localizadas referências a população LGBT+, HIV ou aids. Também não há proposta identificada para PrEP.
Raio-X da aids no Amazonas
Os dados mais recentes do Ministério da Saúde colocam o Amazonas entre os estados mais atingidos pela aids no país.
Em 2024, o estado registrou 35,2 casos de aids por 100 mil habitantes, a segunda maior taxa do Brasil, atrás apenas de Roraima, que teve 41,3. A taxa brasileira naquele ano foi de 17,4 casos por 100 mil habitantes. Isso significa que a taxa amazonense foi aproximadamente o dobro da média nacional.
Manaus também aparece nas primeiras posições entre as capitais. Em 2024, foram 1.217 casos de aids, correspondentes a uma taxa de 53,4 por 100 mil habitantes. Apenas Belém, com 57,5, registrou índice superior.
A série histórica mostra que as altas taxas não são um fenômeno isolado. Em 2014, Manaus já apresentava 63,1 casos por 100 mil habitantes. Depois de oscilações ao longo da década, a capital chegou a 69,7 em 2021 e permaneceu acima de 50 casos por 100 mil habitantes em 2022, 2023 e 2024.
Além da taxa de detecção, o boletim nacional utiliza um indicador composto que reúne ocorrência de aids, mortalidade, tendência da epidemia e outros marcadores. No período de 2020 a 2024, o Amazonas ficou na segunda posição entre as unidades da Federação nesse índice, reforçando a dimensão do desafio epidemiológico.
Manaus concentra serviços de prevenção e tratamento
A capital possui uma rede pública estruturada para diagnóstico, tratamento e prevenção. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, em dezembro de 2025, quatro Serviços de Atenção Especializada (SAEs) e outras oito unidades acompanhavam 11.954 pessoas vivendo com HIV em Manaus.
A rede municipal registrou, em 2024, 1.756 novos casos de HIV em adultos, 546 novos casos de aids e 244 mortes pela doença. Em 2025, até a divulgação dos dados do Dezembro Vermelho, haviam sido registrados 1.298 novos casos de HIV, 445 casos de aids e 183 óbitos.
A PrEP também faz parte da prevenção disponível pelo SUS na capital. Em 2025, 14 unidades municipais de saúde ofereciam a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, enquanto 11 ofertavam PEP, utilizada após uma situação de possível exposição ao vírus. A testagem rápida e outros insumos preventivos estavam disponíveis em 193 unidades.
Os números mostram ainda uma característica importante para o próximo governo: ampliar a assistência no interior não significa apenas construir hospitais. Em um estado com 62 municípios, enormes distâncias, forte presença de populações indígenas, ribeirinhas e fronteiriças e alta carga de HIV/aids, a regionalização também envolve garantir prevenção, testagem, diagnóstico, tratamento e continuidade do cuidado longe da capital.
Redação da Agência de Notícias da Aids




