Eleições 2026 em Sergipe: Mitidieri cita pessoas vivendo com HIV/Aids, mas planos dos candidatos não detalham prevenção, PrEP e cuidado específico

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Planos de Fábio Mitidieri e Valmir de Francisquinho apresentam propostas para hospitais, atenção primária e regionalização, mas não detalham políticas para ISTs, PrEP ou cuidado específico em HIV/Aids

A menos de uma semana das eleições estaduais, a disputa pelo governo de Sergipe se concentra entre o atual governador Fábio Mitidieri (PSD), candidato à reeleição, e o ex-prefeito de Itabaiana Valmir de Francisquinho (Republicanos). Pesquisa Real Time Big Data divulgada na terça-feira (22) mostra Mitidieri com 43% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Valmir aparece com 38%. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 17 e 21 de setembro e tem margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Considerando a margem, a diferença pode chegar a um ponto percentual.

A Agência Aids analisou os programas de governo dos dois candidatos para identificar as propostas para a saúde pública, especialmente aquelas relacionadas à saúde sexual, às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), ao HIV e à aids. O levantamento também foi cruzado com os dados do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, exclusivamente para Sergipe.

Quem é Fábio Mitidieri

Fábio Cruz Mitidieri, nascido em Aracaju em 24 de fevereiro de 1977, é o atual governador de Sergipe e disputa a reeleição pelo PSD. Antes de chegar ao governo estadual, foi vereador de Aracaju e deputado federal por dois mandatos.

O programa apresentado pela coligação Sergipe Cresce com Você é destinado ao período de 2027 a 2030 e parte da experiência acumulada durante o primeiro mandato. O documento afirma que a candidatura à reeleição deve considerar as ações já realizadas e aquelas ainda em execução.

O programa também informa que os compromissos apresentados estão organizados em 55 eixos e que o documento ainda poderia ser aperfeiçoado durante a campanha.

Mitidieri aposta em rede de saúde, interiorização e tecnologia

Na área da saúde, o programa de Mitidieri apresenta o compromisso “Saúde Mais Forte”. Entre as propostas estão a reestruturação do Hospital de Urgências de Sergipe (HUSE), a construção do Hospital 60+, em Aracaju, o fortalecimento da Rede Materno-Infantil e a expansão da atenção em saúde mental. O plano também prevê prontuário eletrônico estadual integrado, teleconsultas, telelaudos, teleinterconsultas e integração entre atenção primária, hospitais e serviços especializados.

O documento cita ainda a ampliação de exames, consultas e linhas de cuidado, com atenção a idosos, pessoas com doenças crônicas, pacientes oncológicos, saúde da mulher e do homem e saúde bucal. Também estão previstas medidas para modernizar a assistência farmacêutica, a regulação e o Samu, além do aumento do cofinanciamento da atenção primária.

Outro compromisso é ampliar o Opera Sergipe, com mais cirurgias eletivas e maior interiorização dos serviços. O programa também propõe avançar com o Proredes, modernizando a infraestrutura hospitalar e descentralizando o acesso a diagnósticos e tratamentos especializados.

Na área de direitos humanos, Mitidieri também prevê ações voltadas à população LGBTQIAPN+, incluindo acolhimento humanizado na rede pública de saúde e de assistência social e medidas de combate à LGBTfobia.

HIV/Aids não aparece como política de saúde específica

Apesar de o programa abordar saúde, direitos humanos, população LGBTQIAPN+, saúde da mulher e assistência farmacêutica, não foram localizadas no documento propostas que mencionem infecções sexualmente transmissíveis, saúde sexual, PrEP, prevenção combinada ou profilaxia relacionada ao HIV.

Há, porém, uma menção direta a pessoas vivendo com HIV/aids. Ela aparece fora do capítulo de saúde, no eixo de assistência social. O programa prevê fortalecer programas de transferência de renda, entre eles o CMais Inclusão, que contempla pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade, incluindo pessoas vivendo com HIV/aids.

A referência, portanto, está relacionada à proteção social e à transferência de renda, e não à criação de uma política específica de prevenção, diagnóstico, tratamento ou acompanhamento do HIV/aids.

Quem é Valmir de Francisquinho

Valmir dos Santos Costa, conhecido como Valmir de Francisquinho, nasceu em Itabaiana em 3 de dezembro de 1968. Formado em Direito, iniciou sua trajetória política como vereador e foi eleito cinco vezes para o cargo. Também foi prefeito de Itabaiana e voltou ao comando do município em 2024.

Em 2026, ainda como prefeito de Itabaiana, renunciou ao mandato para disputar o governo de Sergipe pelo Republicanos. Seu programa apresenta a candidatura como uma tentativa de levar para todo o estado a experiência administrativa construída no município, com prioridades como emprego, economia, infraestrutura, serviços públicos, segurança, educação e saúde.

A chapa é formada por Valmir de Francisquinho para governador e Priscila Felizola para vice-governadora. O programa define a saúde pública como uma das prioridades da candidatura.

Valmir propõe regionalização da saúde e novos hospitais

O programa de Valmir dedica uma das dez diretrizes estratégicas à “Saúde Humanizada e Eficiente”. O diagnóstico apresentado aponta problemas como desabastecimento de medicamentos especializados, superlotação hospitalar, concentração da média e alta complexidade na capital, filas para consultas, exames e cirurgias e dificuldades de integração entre atenção primária, serviços especializados e hospitais.

Entre os objetivos estão fortalecer a atenção primária, ampliar o acesso aos serviços especializados, descentralizar a assistência hospitalar, reduzir filas, modernizar a gestão do SUS e garantir o abastecimento de medicamentos e insumos. O programa também prevê linhas de cuidado integradas entre atenção primária, média e alta complexidade.

Na infraestrutura, a candidatura propõe construir o Hospital do Servidor Público Estadual, um Hospital Geral na Região Metropolitana de Aracaju e ampliar a capacidade dos hospitais regionais. Também prevê implantar o Hospital de Clínicas de Sergipe como referência regional de média e alta complexidade e criar novos serviços especializados no interior.

O plano inclui ainda propostas para saúde mental, saúde da mulher, da criança e da pessoa idosa, assistência farmacêutica, transformação digital e gestão do SUS. Na área de inclusão e equidade, prevê consolidar políticas de atenção integral à população LGBTQIAPN+.

HIV, aids e ISTs não são citados no programa

Assim como no programa de Mitidieri, não foram localizadas no documento de Valmir de Francisquinho menções específicas a HIV, aids, ISTs, saúde sexual ou prevenção combinada. Também não foi encontrada proposta específica de PrEP ou profilaxia relacionada ao HIV.

O programa, entretanto, apresenta uma política de atenção integral à população LGBTQIAPN+, com previsão de ambulatórios especializados, atendimento humanizado no SUS e capacitação de profissionais da saúde, educação, segurança e assistência social.

Essa proposta pode alcançar populações que também são consideradas prioritárias na resposta ao HIV, mas o documento não estabelece uma conexão explícita entre essas ações e a prevenção, o diagnóstico ou o cuidado em HIV/aids.

O que os programas apresentam — e o espaço deixado para HIV/Aids

Os dois candidatos apresentam propostas amplas para reorganizar a rede estadual de saúde. Mitidieri concentra o programa em infraestrutura hospitalar, digitalização, interiorização de serviços, atenção primária, assistência farmacêutica e ampliação de procedimentos, enquanto Valmir propõe regionalização da assistência, novos hospitais, redução de filas, fortalecimento da atenção primária, medicamentos e ampliação de serviços especializados.

Na abordagem de direitos e inclusão, os dois programas também fazem referências à população LGBTQIAPN+. Mitidieri fala em acolhimento humanizado na rede pública e combate à LGBTfobia; Valmir propõe políticas de atenção integral, ambulatórios especializados e capacitação de profissionais.

A diferença está no grau de especificidade em relação ao HIV. No programa de Mitidieri, há uma menção direta a pessoas vivendo com HIV/AIDS, mas no contexto de transferência de renda e assistência social. No programa de Valmir, a sigla HIV/AIDS não aparece. Em nenhum dos dois documentos foram identificadas propostas específicas para testagem, prevenção combinada, PrEP, PEP, diagnóstico, tratamento ou acompanhamento das pessoas vivendo com HIV.

O cenário epidemiológico do HIV/Aids em Sergipe

Os dados mais recentes consolidados no Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, mostram que Sergipe registrou 337 casos de HIV em 2024, com taxa de detecção de 14,7 casos por 100 mil habitantes. O estado acumulava 4.871 registros de HIV no período apresentado pela tabela, considerando o primeiro registro nos sistemas de vigilância.

No mesmo ano, foram registrados 346 casos de aids em Sergipe, com taxa de detecção de 15,1 casos por 100 mil habitantes. A taxa estadual caiu em relação a 2023, quando havia sido de 18,1 casos por 100 mil habitantes.

O boletim também registra 83 óbitos por aids em Sergipe em 2024. A taxa bruta de mortalidade foi de 3,6 óbitos por 100 mil habitantes, enquanto a taxa padronizada ficou em 2,9 por 100 mil.

Outro indicador relacionado à prevenção da transmissão vertical aparece na série de gestantes com HIV: em 2024, Sergipe registrou 83 casos, com taxa de detecção de 3,0 casos por 1.000 nascidos vivos.

O boletim ainda contabiliza 75 crianças expostas ao HIV em Sergipe em 2024.

Os números ajudam a dimensionar o tema para o próximo governo estadual: embora os programas dos dois candidatos apresentem propostas abrangentes para a organização do SUS, as ações específicas de prevenção e cuidado em HIV/aids, ISTs e saúde sexual não aparecem detalhadas nos documentos analisados.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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