Mato Grosso chega às Eleições 2026 com Wellington Fagundes (PL) e Otaviano Pivetta (Republicanos) tecnicamente empatados na disputa pelo governo estadual.
Pesquisa AtlasIntel divulgada em setembro mostra Fagundes numericamente à frente, com 34,4% das intenções de voto, enquanto Pivetta registra 30,8%. Como a margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, os dois estão em situação de empate técnico. O levantamento ouviu 1.209 eleitores entre os dias 4 e 9 de setembro, tem nível de confiança de 95%.
A disputa acontece em um estado de grandes dimensões territoriais e crescimento populacional. Mato Grosso tinha população estimada em 3.893.659 habitantes em 2025, segundo o IBGE, distribuídos atualmente por 142 municípios.
Na saúde, a extensão territorial impõe desafios para o acesso a serviços especializados, principalmente fora dos maiores centros urbanos. Esse cenário aparece nos programas de ambos os candidatos, que apresentam propostas de regionalização do atendimento, ampliação da telemedicina, fortalecimento dos hospitais e redução das filas.
O contexto do HIV/aids também chama atenção. Segundo o Boletim Epidemiológico de HIV e Aids de 2025, do Ministério da Saúde, Mato Grosso registrou, em 2024, 23,4 casos de aids por 100 mil habitantes, a sétima maior taxa entre as unidades da Federação e superior à média brasileira, de 17,4.
Diante desse cenário, a Agência Aids consultou os planos de governo apresentados pelos dois candidatos mais bem colocados para identificar as propostas relacionadas à saúde, ao Sistema Único de Saúde (SUS), aos direitos humanos e às políticas de prevenção e enfrentamento ao HIV/aids, às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e à Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP).
Quem é Wellington Fagundes

Wellington Fagundes nasceu em Rondonópolis e exerce atualmente mandato de senador por Mato Grosso, com período de 2023 a 2031. Filiado ao PL, já teve longa passagem pela Câmara dos Deputados antes de chegar ao Senado.
Seu programa para o governo estadual tem 57 páginas e organiza as propostas em áreas como gestão pública, segurança, proteção às mulheres, saúde, educação, infraestrutura, ciência e tecnologia, economia e bem-estar social. A saúde recebe um capítulo próprio, denominado “Saúde perto de casa, gestão que salva vidas”.
Fagundes propõe regionalizar serviços e ampliar exames e cirurgias
O programa parte do diagnóstico de que filas, cirurgias adiadas, falta de medicamentos e grandes deslocamentos ainda dificultam o acesso à saúde no estado.
Entre as propostas estão a criação de linhas permanentes de cuidado para doenças crônicas, fortalecimento da vacinação, ampliação da saúde mental, criação de centros voltados à população idosa, regionalização de centros de reabilitação e implantação de uma rede estadual de transplantes.
Fagundes também propõe ampliar a realização de exames e cirurgias eletivas, inclusive utilizando capacidade ociosa da rede privada para complementar o atendimento público.
O programa dedica atenção específica aos povos indígenas e quilombolas, com proposta de organizar fluxos de regulação para facilitar o acesso a consultas, exames, internações e tratamentos na rede estadual.
Também prevê ampliar os serviços destinados às pessoas com deficiência, com acesso a reabilitação, órteses e próteses.
Medicamentos, regulação e telemedicina
Outra frente do programa é a assistência farmacêutica. Fagundes propõe garantir distribuição contínua de medicamentos para pacientes que dependem de uso frequente e implantar dispensação individualizada nas unidades estaduais.
Na regulação, a proposta é criar um sistema unificado e integrado com os municípios, reunindo toda a demanda existente.
O plano também prevê a criação do programa “Saúde na Ponta do Dedo”, com digitalização da rede, integração de prontuários e histórico clínico e utilização de inteligência artificial.
Consultas e exames poderiam ser marcados pelo celular, e a telemedicina seria utilizada para atendimentos remotos e interconsultas entre profissionais da atenção básica e especialistas.
Também estão previstas uma central de laudos para exames e a digitalização da rede de diagnóstico por imagem.
Hanseníase recebe capítulo específico
Entre as doenças transmissíveis, o programa de Wellington Fagundes destaca nominalmente a hanseníase.
A candidatura propõe capacitar equipes da Atenção Primária para diagnóstico precoce e busca ativa de contatos de pessoas diagnosticadas, além de assegurar medicamentos e acesso a cirurgias de descompressão neural.
Nas buscas realizadas no programa, entretanto, não foram localizadas propostas específicas para HIV/aids, outras ISTs ou PrEP.
Quem é Otaviano Pivetta

Otaviano Pivetta é empresário dos setores agrícola e industrial e construiu parte importante de sua trajetória política em Lucas do Rio Verde. Foi prefeito do município em três mandatos e também exerceu mandato de deputado estadual. Eleito vice-governador em 2018 e novamente em 2022, assumiu o governo de Mato Grosso em 2026.
Seu plano de governo possui 49 páginas e está estruturado em cinco grandes pilares. O primeiro reúne saúde, educação, assistência social e desenvolvimento humano e estabelece como uma das prioridades descentralizar os atendimentos de média e alta complexidade.
Pivetta propõe fortalecer atenção básica nos 142 municípios
Na saúde, o plano de Pivetta apresenta como uma das principais propostas o programa “Juntos pela Saúde Plena”, baseado na cooperação com os 142 municípios.
A candidatura promete buscar a universalização da Estratégia Saúde da Família e da saúde bucal, com cofinanciamento estadual associado a metas de cobertura e desempenho.
Também prevê levar tecnologia às unidades básicas, permitindo realização de exames, emissão de laudos digitais e uso da telemedicina, além de implantar no âmbito estadual o programa de atendimento domiciliar Melhor em Casa.
Fila única, prontuário estadual e oito centros de diagnóstico
Outra proposta é o programa “A Saúde na Palma da Mão”, voltado à regulação e à redução das filas.
Pivetta propõe unificar as filas estaduais e municipais por meio do Regula MT, criar um prontuário único estadual e enviar avisos automáticos aos pacientes por WhatsApp ou SMS.
O programa também prevê institucionalizar a Tabela SUS/MT e ampliar o credenciamento de serviços complementares ao SUS.
A candidatura pretende implantar oito Centros Regionais de Diagnóstico, previstos para Cáceres, Alta Floresta, Tangará da Serra, Juína, Confresa, Hospital Central, Água Boa e Ribeirão Cascalheira.
As unidades deverão oferecer exames de imagem e laboratório, reduzindo a necessidade de deslocamento até Cuiabá.
Também está prevista a ampliação de telediagnósticos e teleconsultas para especialidades médicas nos municípios do interior.
Novos hospitais e expansão da rede
O plano de Pivetta prevê concluir e colocar em funcionamento os hospitais regionais de Juína, Tangará da Serra e Confresa, além da segunda fase do Hospital Central, em Cuiabá.
Há ainda projetos de hospitais ou pronto-socorros em Várzea Grande, Barra do Garças, Rondonópolis e Pontes e Lacerda.
Na saúde mental, o candidato propõe expandir os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), fortalecer o cuidado relacionado ao autismo e neurodesenvolvimento e construir residências terapêuticas e casas-lares destinadas a pessoas com transtornos psiquiátricos crônicos.
O programa estabelece ainda a meta de atingir 100% de cobertura estadual de atendimento pré-hospitalar móvel até 2028, utilizando Samu ou Corpo de Bombeiros de acordo com as características de cada região.
Assim como no programa de Wellington Fagundes, não foram localizadas nos documentos consultados referências específicas a HIV/aids, ISTs ou PrEP.
Raio-X da aids em Mato Grosso
Mato Grosso está entre os estados brasileiros com taxas de detecção de aids superiores à média nacional.
Em 2024, foram 23,4 casos por 100 mil habitantes, segundo o Ministério da Saúde. Com esse indicador, Mato Grosso ocupou a sétima posição entre as unidades da Federação, atrás de Roraima, Amazonas, Amapá, Pará, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. A taxa nacional naquele ano foi de 17,4 casos por 100 mil habitantes.
A mortalidade também permanece como indicador relevante. Em 2024, foram registrados 199 óbitos por aids no estado, com taxa bruta de 5,2 mortes por 100 mil habitantes. Em 2023, haviam sido 213 óbitos.
Isso significa que, embora tenha ocorrido redução no número de mortes entre 2023 e 2024, a taxa de mortalidade mato-grossense permaneceu acima da média de algumas unidades da região Centro-Oeste.
O dado epidemiológico também precisa ser observado ao lado das características territoriais do estado. Com quase 3,9 milhões de habitantes, 142 municípios e grandes distâncias entre centros de referência e cidades menores, políticas de testagem, diagnóstico, tratamento e prevenção precisam alcançar também a população fora dos principais polos urbanos.
HIV e PrEP não aparecem nos dois programas
Os dois planos apresentam propostas extensas para a organização da assistência.
Wellington Fagundes detalha medidas para atenção materno-infantil, doenças crônicas, saúde mental, população idosa, transplantes, reabilitação, povos indígenas e quilombolas, hanseníase, medicamentos, regulação e telemedicina.
Otaviano Pivetta concentra parte importante de suas propostas no fortalecimento da atenção primária, regionalização dos serviços especializados, ampliação da rede hospitalar, redução das filas, prontuário único e saúde digital.
Nos dois documentos apresentados pela reportagem, entretanto, não foram localizadas propostas que mencionem nominalmente HIV/aids, ISTs ou PrEP.
O próximo governo assumirá, portanto, a responsabilidade pela continuidade das políticas estaduais de prevenção, vigilância, diagnóstico e assistência em um estado que registrou, em 2024, uma taxa de aids superior à média brasileira e a sétima maior do país.
Redação da Agência de Notícias da Aids



