
Dados do Grupo Gay da Bahia e da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) revelam que o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas LGBTQIAP+ no mundo — uma realidade alarmante que reforça, ano após ano, a urgência do combate à LGBTfobia. Na contramão do violência, ganham força iniciativas que oferecem acolhimento, promovem direitos e criam oportunidades. A Casa Florescer é uma delas.
Mantida pela Coordenação Regional das Obras de Promoção Humana em parceria a Secretaria Municipal de Assistência de Desenvolvimento Social, a Casa Florescer foi criada para atender travestis e mulheres transexuais, a instituição atua com foco na inclusão social por meio de ações voltadas à saúde, educação, cultura, lazer, assistência social, trabalho e moradia.
Vindas de diferentes partes do Brasil, oferecendo mais do que abrigo, a Casa resgata a dignidade, o cuidado e a chance de viver sem medo. Com 30 vagas, a instituição é hoje um dos principais pontos de apoio à população trans na capital paulista.
Em entrevista à Agência Aids, Alberto Silva, o Beto, um dos colaboradores da Casa Florescer, fala sobre a trajetória da organização:
“Já são nove anos e três meses de trabalho e de muitas pessoas que passaram por aquele espaço, que conseguiram, de repente, ressignificar o seu processo existencial, a sua história. Em São Paulo, a gente tem a elevação escolar com o programa da cidadania, que é da coordenação municipal de políticas públicas LGBT. E, na questão da saúde, a gente tem unidades, como os Centros de Referência em ISTs/Aids e algumas Unidades Básicas de Saúde que acabam prestando sensibilizações pelas acolhidas. Não só na questão relacionada à hormonoterapia, mas ISTs, HIV e aids.”
Beto explica que o trabalho começa desde a chegada das acolhidas, com foco na construção de autonomia: “O serviço social e a psicologia se desenvolvem no plano individual de atendimento, onde é desenhada, diante do contexto do que a acolhida está trazendo, a perspectiva dela. Às vezes elas chegam já procurando um trabalho, mas não têm a documentação, e a questão da saúde está precisando ter um foco maior. Então é feito o encaminhamento para a documentação, para a rede de saúde, para a rede de cursos de qualificação profissional.”
Segundo ele, muitas mulheres que chegam à Casa vêm de outros estados, buscando segurança e o direito de existir plenamente.
“Muitas, infelizmente, alegam ter sofrido violência dentro do próprio lar. Elas saem do seu território de origem em busca do direito de ser quem são. Então o trabalho do espaço interno da Casa é tentar fazer essa rede de apoio um pouco mais fortalecida para que essas mulheres consigam ter uma compreensão mais clara do poder que elas têm, de certa forma, do direito. A gente tenta garantir esse direito e ressignificar esse processo de violência, de dor e de perda.”

Um ponto de alerta para a equipe da Casa é o número crescente de meninas jovens que procuram acolhimento.
“Tem muitas meninas de até 23 anos. E aí, como você trata todo esse processo já de tanta violência com uma faixa etária que deveria estar sonhando, deveria estar vivendo de uma outra maneira diferente e já está dentro de um espaço de acolhida?”
Para além do trabalho direto com as acolhidas, Beto defende que é preciso envolver a sociedade e o poder público no enfrentamento à violência contra pessoas LGBT.
“Acho que esse enfrentamento não só é feito com campanhas de sensibilização na grande mídia, mas também com a implantação de política pública mais afirmativa. Isso possibilitaria dar uma resposta não só sobre a segurança pública, mas também sobre outras esferas. E é importante que apliquem os processos cabíveis contra esses casos de violência e preconceito com um requinte de rigor, no sentido de dar uma devolutiva para a sociedade como um todo.”
Beto conclui com um alerta:
“Hoje, o direito à vida, o direito de ser quem é, não é para todo mundo.”
Apesar de reconhecer os avanços conquistados em São Paulo, ele destaca que o ideal seria que esses serviços estivessem disponíveis em todo o país. A realidade, no entanto, é que muitas mulheres trans ainda precisam migrar em busca de um mínimo de dignidade.
“Isso precisa ser considerado, principalmente pelo empoderamento dessas mulheres ou desses homens que precisam de uma retaguarda para poder de fato exercer os seus direitos”, afirma.
A Casa Florescer é, hoje, um exemplo potente da importância de políticas públicas e iniciativas sociais voltadas à população trans e travesti. Em um país onde ser trans ainda é um risco, espaços como esse não apenas acolhem — salvam vidas.

Como apoiar a iniciativa?
A Casa Florescer está localizada na Rua Prates, 1101, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Quem quiser apoiar o trabalho da instituição pode contribuir de diferentes formas: atuando como voluntário ou realizando doações financeiras, de alimentos, roupas e outros itens essenciais para o acolhimento das moradoras.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo, na Agência Aids.
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Casa Florescer
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