Robson é coordenador da Rede de Jovens SP+. Ele relembra o cuidado recebido da Dra. Damiana Montes Santos e conta por que perguntas sobre a vida, a família e o trabalho fizeram diferença em sua trajetória
A Dra. Damiana Montes Santos perguntava como estavam as coisas em casa, como ia o trabalho e como Robson se sentia. Na consulta com a infectologista, havia espaço para falar da vida que os resultados dos exames não mostravam. Para um jovem que enfrentava dificuldades emocionais e tentava lidar com o diagnóstico de HIV, aquele interesse tinha um significado que ele guarda até hoje.
“Ela olhava para mim como uma pessoa, não apenas como alguém vivendo com HIV”, afirma Robson Lucas Oliveira Ferreira, estudante de Gestão em Turismo e coordenador da Rede de Jovens SP+.

É à médica que ele dedica sua homenagem neste Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro. Ao recordar o acompanhamento, Robson fala da atenção e do carinho de uma profissional que procurava compreender o que acontecia com ele para além da infecção.
“Ela talvez nem tenha dimensão do quanto aquelas perguntas sobre minha vida, minha casa e meu trabalho foram importantes para mim. A forma como ela me atendia fazia com que eu me sentisse visto e cuidado de verdade”, recorda.
Uma história que precisava caber na consulta
Robson recebeu o diagnóstico aos 21 anos. Jovem, gay, preto e criado em uma família cristã tradicional, tinha pouco espaço para conversar sobre saúde sexual. O que conhecia sobre o HIV vinha, principalmente, de informações superficiais recebidas na escola. No primeiro atendimento, em um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), encontrou acolhimento e foi encaminhado para dar continuidade ao cuidado, mas ainda não compreendia o que significava viver com o vírus nem conhecia os avanços do tratamento.
Nos anos que se seguiram, precisou enfrentar a quebra do sigilo de seu diagnóstico dentro da família, a discriminação no trabalho e dificuldades emocionais. Em meio ao processo de aceitação e ao peso dessas experiências, sua relação com a própria saúde também foi afetada. Houve um período em que interrompeu o tratamento porque já não conseguia lidar com tudo o que estava vivendo.
“Foi nesse percurso que entendi que o cuidado em saúde precisa ir muito além da consulta e da prescrição de medicamentos. Precisamos de profissionais que enxerguem a pessoa por inteiro e compreendam que, muitas vezes, existem questões emocionais, familiares e sociais que interferem diretamente no tratamento”, relata.
É nesse contexto que Robson situa a importância do vínculo com a Dra. Damiana Montes Santos. A possibilidade de conversar sobre suas dificuldades e encontrar uma escuta interessada fazia com que se sentisse amparado em um momento de fragilidade.
A relação foi interrompida quando a médica foi promovida e precisou deixar o serviço em que ele fazia acompanhamento. Robson conta que não conseguiu construir a mesma conexão com o profissional que passou a atendê-lo. Em sua avaliação, essa mudança também contribuiu para o afastamento do tratamento naquele período.
“Às vezes, uma atenção que parece simples para o profissional representa muito para quem está do outro lado”, diz.
Ao lembrar as pessoas que o ajudaram a atravessar essas dificuldades, ele também destaca a assistente social Cíntia Nocentini, cujo apoio considera fundamental para que não desistisse do cuidado. Sua homenagem à médica traz, assim, o reconhecimento de uma rede de profissionais que fizeram diferença em sua vida.
Poder falar sem medo de uma bronca
Entre as experiências mais dolorosas de sua trajetória, Robson menciona a exposição do diagnóstico dentro da família. A quebra do sigilo marcou sua percepção sobre privacidade e sobre a importância de poder decidir com quem compartilhar essa informação. No consultório, a confiança também passa pela segurança de falar abertamente, inclusive quando o tratamento está difícil.
“Para mim, confiar em um médico é sentir que posso ser sincero, inclusive quando não estou bem, quando tenho dificuldade de seguir o tratamento ou quando preciso conversar sobre algo que vai além dos exames. É saber que vou receber orientação, e não uma bronca; acolhimento, e não julgamento”, explica.
Para ele, dificuldades para manter o tratamento precisam ser compreendidas à luz do que cada pessoa está vivendo. Interpretá-las automaticamente como desinteresse ou falta de responsabilidade pode deixar de fora justamente as questões que mais precisam de atenção. Sexualidade, saúde mental, relações familiares e condições de trabalho fazem parte dessa conversa.
Essa compreensão, construída a partir da própria experiência, acompanha hoje sua atuação na Rede de Jovens SP+. Como coordenador, Robson acolhe jovens que enfrentam desafios relacionados ao diagnóstico, ao preconceito e à construção de perspectivas para o futuro. Ao ouvir essas histórias, reconhece dificuldades que também atravessaram a sua.
“Uma palavra pode afastar uma pessoa do cuidado, enquanto uma escuta atenta pode ajudá-la a encontrar forças para continuar”, afirma.
“Ninguém deve precisar provar que merece cuidado”
No Dia do Médico, a lembrança das consultas com a Dra. Damiana dá sentido à mensagem que Robson dirige a quem exerce a profissão ou se prepara para entrar nela. Ele defende que o conhecimento científico caminhe junto com a capacidade de ouvir, respeitar a privacidade e compreender as condições de vida de quem busca atendimento.
“Aos médicos e futuros profissionais, deixo um pedido: estudem, atualizem seus conhecimentos e conheçam os avanços da ciência, mas não deixem de olhar nos olhos de quem está diante de vocês. Respeitem o sigilo, escutem sem preconceitos e entendam que ninguém deve precisar provar que merece cuidado”, afirma.
As perguntas sobre a casa, o trabalho e os sentimentos permaneceram em sua memória porque abriam espaço para que ele falasse de si. Hoje, ao apoiar outros jovens, Robson leva consigo essa experiência e a convicção de que o diagnóstico não deve limitar a maneira como uma pessoa é vista — nem as possibilidades que ela enxerga para a própria vida.
“O HIV faz parte da história de uma pessoa, mas não resume quem ela é. Um atendimento humanizado pode ajudar alguém a compreender isso e a voltar a sonhar com o próprio futuro”, conclui.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
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Instagram: rededejovenssp




