“Ela me salva todos os dias”: a história de Jéssica Carolina, mulher negra que enfrentou o HIV, a violência obstétrica e a perda do marido — e encontrou na maternidade razões para continuar vivendo

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Existem histórias que atravessam o jornalismo e se transformam em memória. Não apenas pela dureza dos acontecimentos, mas pela forma como uma pessoa consegue seguir existindo depois de ter sido atravessada por tantas violências. A história de Jéssica Carolina de Oliveira, de 34 anos, é uma dessas histórias que não terminam quando a entrevista acaba. Ela permanece. Ecoa. Incomoda. E, ao mesmo tempo, acolhe.

Jéssica fala com a serenidade de quem precisou aprender a sobreviver muito cedo. Em alguns momentos da conversa, sua voz vacila. Em outros, ganha firmeza, principalmente quando fala da filha, Agnes, de cinco anos. Há pausas longas entre uma lembrança e outra, como se algumas memórias ainda precisassem pedir licença para sair. Mas existe algo que permanece o tempo inteiro em sua fala: a dignidade. Mesmo quando narra episódios profundamente violentos, Jéssica não perde a capacidade de refletir sobre a vida, sobre o racismo, sobre a maternidade e sobre o direito de mulheres negras vivendo com HIV serem vistas para além do diagnóstico.

Psicóloga, coordenadora de um serviço de atendimento a mulheres vítimas de violência, viúva e mãe, Jéssica não gosta de ser reduzida ao HIV. E talvez seja justamente por isso que sua trajetória seja tão potente. Porque sua história não é sobre um vírus. É sobre o que a sociedade faz com determinados corpos quando eles carregam marcadores que ainda são alvo de preconceito: ser mulher, ser preta, viver com HIV e ocupar espaços historicamente negados.

Ao longo de mais de uma hora de conversa, ela revisitou episódios que ajudam a compreender não apenas sua trajetória individual, mas também o modo como o racismo estrutural e a sorofobia ainda organizam relações sociais, atendimentos médicos e até a forma como mulheres negras têm seus sonhos interrompidos ou desacreditados.

“Quando uma mulher preta fala que vive com HIV, as pessoas não querem mais saber quem ela é. Elas deixam de enxergar a pessoa e passam a enxergar só o diagnóstico”, afirma. A frase não surge como teoria. Surge da experiência.

Um diagnóstico tardio e uma infância marcada por adoecimentos

Jéssica não nasceu com HIV, embora tenha convivido com o vírus durante praticamente toda a vida sem saber. Ainda bebê, foi amamentada por uma amiga da família que vivia com HIV e não conhecia o diagnóstico e que, anos depois, morreu em decorrência da aids. Na época, seus pais chegaram a procurar orientação médica, mas ouviram que não havia motivo para preocupação porque a menina aparentava estar saudável.

Ela cresceu adoecendo com frequência. “Eu tive muitos episódios de pneumonia, anemia, muita fraqueza. Vivia tomando antibióticos, mas ninguém imaginava que era HIV.”

O diagnóstico só veio aos 17 anos, durante exames exigidos (de forma ilegal) para ingresso em uma comunidade missionária católica. O momento, que poderia ter sido apenas um choque individual, rapidamente se transformou em um processo de isolamento emocional.

“Foi estranho porque, inicialmente, eu achei que estava tudo bem. Achei que seria só me cuidar e seguir a vida. Mas foi com o tempo que eu fui entendendo o que significava viver com HIV.”

A compreensão não veio pela informação médica. Veio pelas reações das pessoas.

Jéssica conta que dentro da comunidade religiosa já começou a perceber mudanças no tratamento que recebia. Os líderes sabiam do diagnóstico, e ela precisava sair com frequência para consultas e exames. Aos poucos, vieram os olhares atravessados, as especulações e o distanciamento.

“Era uma tratativa muito hostil. Eu percebia que as pessoas queriam saber o que eu tinha. E quando o HIV aparecia, tudo mudava.”

Ela deixou a comunidade pouco tempo depois. Voltou para a casa dos pais tentando compreender o que faria daquela informação dali em diante. O problema é que, naquele momento, o HIV não aparecia para ela como uma condição de saúde apenas. O HIV se transformava, socialmente, em um marcador moral.

“Eu queria esquecer que tinha HIV. Tomar o remédio me fazia lembrar. Então, várias vezes, eu parei o tratamento.”

A morte do irmão e o medo dentro de casa

A relação de Jéssica com o HIV também era atravessada por outra dor familiar profunda. Quando ela tinha cinco anos, seus pais adotaram Wellington, um bebê de três meses cuja mãe havia morrido em decorrência da aids. Pouco tempo depois, descobriram que ele também vivia com HIV.

Wellington morreu aos oito anos. O luto devastou a família, especialmente o pai de Jéssica. “Meu pai sofreu muito. Ele acreditava que meu irmão poderia ficar bem. Tentou de tudo para salvar ele.”

Depois da morte do menino, o pai entrou em depressão e desenvolveu diversos problemas. Por isso, quando Jéssica recebeu o diagnóstico anos depois, sua mãe demorou para contar ao marido. Era como se aquela família estivesse sendo obrigada a reviver uma tragédia que nunca tinha sido completamente elaborada.

“O racismo potencializa tudo”

Quando fala sobre preconceito, Jéssica não separa o HIV do racismo. Para ela, as duas violências caminham juntas. “O racismo potencializa muito mais o preconceito com HIV”, explica.

Ela relata que, em muitos espaços, percebeu imediatamente os julgamentos que recaíam sobre seu corpo e sua história. Havia sempre uma associação automática entre HIV e promiscuidade, entre HIV e irresponsabilidade. “Ninguém quer saber quem você é. As pessoas presumem que você fez alguma coisa errada para estar vivendo com HIV.”

Ao falar sobre isso, Jéssica faz uma reflexão importante sobre os atendimentos de saúde que recebeu ao longo da vida. Segundo ela, mulheres negras vivendo com HIV frequentemente deixam de ser vistas como sujeitos completos. “Você deixa de ser a Jéssica. Você vira a mulher com HIV. E aí vêm todos os estigmas possíveis.”

O encontro com outras pessoas vivendo com HIV mudou sua vida

Durante muitos anos, Jéssica acreditou que nunca conseguiria construir a vida que sonhava. Ela queria ser mãe, queria constituir família, queria trabalhar, estudar e viver plenamente, mas o peso do estigma fazia tudo parecer impossível.

A mudança começou quando ela encontrou outras pessoas vivendo com HIV. Ao participar de um encontro da Rede de Jovens Vivendo com HIV e começar a frequentar o GIV (Grupo de Incentivo à Vida), Jéssica experimentou algo que não conhecia até então: pertencimento.

“Eu parecia um bichinho do mato. Estava completamente desesperançosa.”

Ela conta que foi acolhida por pessoas que insistiram em não deixá-la desistir dela mesma. Criaram grupos para ajudá-la na adesão ao tratamento, enviavam mensagens, acompanhavam suas crises emocionais e mostravam, através da própria existência, que havia vida possível depois do diagnóstico.

“Foi a insistência dessas pessoas que me ajudou a entender que eu merecia viver meus sonhos.”

Jéssica também iniciou acompanhamento psicológico e começou a reconstruir a relação consigo mesma. “Eu precisei entender que o HIV não me definia.”

Foi nesse processo que a maternidade voltou a ocupar espaço dentro dela.

“Talvez meus sonhos sejam possíveis”

Jéssica conheceu André, seu parceiro de vida, em seu primeiro trabalho como psicóloga. Os dois atuavam juntos e, naquele momento, ela já fazia um exercício consciente de falar abertamente sobre sua sorologia.

“Eu comecei a perceber que precisava parar de esconder quem eu era.”

Quando contou a André que vivia com HIV, esperou o afastamento que tantas vezes já havia vivido. Mas ele permaneceu exatamente igual. “Eu percebi que o olhar dele não mudou. Eu falei: ‘Eu vivo com HIV. Tudo bem pra você?’”

Jéssica lembra desse momento como um divisor de águas na própria vida. “Ali eu pensei: talvez meus sonhos sejam possíveis.”

O sonho da maternidade e a violência que atravessou o parto

Em 2020, Jéssica descobriu que estava grávida de Agnes. A gestação, inicialmente, foi vivida com alegria e segurança. Ela fazia acompanhamento rigoroso, mantinha carga viral indetectável e se sentia preparada para viver a maternidade que sempre desejou. “Foi um período muito bonito. Eu estava entendendo cada vez mais que o HIV não significava nada perto da vida que eu estava gerando.”

Mas o racismo institucional e a sorofobia voltaram a atravessar sua trajetória logo no início da gestação. Após um descolamento de placenta, ouviu de um médico uma frase que jamais esqueceu.

“Ele se recusou a me dar medicação para segurar o bebé, foi como se ele tivesse falando que seria até um favor pra sociedade se eu abortasse.”

Jéssica trocou de obstetra e encontrou acolhimento em outra profissional. Ainda assim, a violência mais profunda aconteceria no momento do parto.

Mesmo com todos os exames comprovando carga viral indetectável e aptidão para um parto normal, ela foi obrigada a passar por uma cesárea desnecessária. “Quando eu falei que vivia com HIV, a médica mudou imediatamente.”

Sem exames adequados, sem escuta e sem acolhimento, ouviu que precisaria aceitar a cesárea ou procurar outro hospital — já com a bolsa rompida.

O relato do parto é devastador. Ela descreve horas abandonada em corredores, procedimentos realizados sem explicação, profissionais que se recusavam a ouvi-la e olhares constantes de desprezo.

“Parecia que eles me enxergavam como alguém que não merecia cuidado.”

Agnes nasceu em meio a uma cirurgia traumática, foi levada à UTI e Jéssica só conseguiu vê-la 12 horas depois.

O trauma não terminou ali. Durante o pós-parto, ela continuou sofrendo negligências e humilhações. “Era pra eu estar inteira pra minha filha. Mas eu estava tentando sobreviver emocionalmente.”

A maternidade como reconstrução possível

Jéssica não romantiza a maternidade. Pelo contrário. Ela fala das dores, do cansaço extremo, das noites sem dormir e das dificuldades emocionais do puerpério com uma honestidade rara.

“Maternidade é muito difícil. Muito. Tem dias que a gente não tem força.”

Mas também fala sobre transformação. “Antes da Agnes, eu era só uma menina.”

Por conta do parto, Agnes passou os primeiros anos enfrentando problemas respiratórios severos. Foram muitas internações, noites em hospitais e medos constantes.

Em uma dessas madrugadas, enquanto segurava a filha cheia de fios e aparelhos em um leito hospitalar, Jéssica percebeu algo que nunca esqueceu. “Eu entendi que eu era mãe.”

O suicídio do companheiro e a dor de continuar

Em junho do ano passado, a vida de Jéssica sofreu outro abalo irreparável. André morreu por suicídio. “Ele se jogou de uma passarela na minha frente.”

A frase sai baixa, quase sem ar. Mas o que mais a destruiu não foi apenas testemunhar a morte do homem que amava. Foi voltar para casa e perceber que precisaria contar para a filha de quatro anos que o pai nunca mais voltaria.

“Eu tive que mostrar o caixão pra ela. Tive que explicar que o papai não ia abrir os olhos.”

Desde então, Jéssica vive outra reconstrução. Agora como mãe solo. Ela conta que, em muitos momentos, acreditou que não conseguiria suportar a dor. Mas Agnes permaneceu sendo sua principal razão para continuar. “Ela me obriga a ser melhor.”

Hoje, mãe e filha fazem terapia. Jéssica tenta transformar o luto em cuidado e reconstruir, pouco a pouco, a relação com a própria vida.

“Nós somos o útero do mundo”

No fim da conversa, Jéssica volta à dimensão coletiva da própria história. Ela insiste que mulheres negras vivendo com HIV precisam ser vistas com humanidade dentro das instituições de saúde e da sociedade como um todo.

“Não adianta falar sobre direitos se os próprios serviços de saúde continuam violentando mulheres pretas vivendo com HIV.”

Ela faz uma pausa antes de concluir: “Nós somos o útero do mundo. Toda humanidade nasceu de uma mulher. E, ainda assim, nós continuamos sendo as mais negligenciadas.”

A frase não soa como discurso pronto. Soa como alguém que viveu na pele tudo aquilo que está dizendo. Talvez por isso a história de Jéssica seja tão impossível de esquecer.

Porque ela não fala apenas sobre dor. Ela fala sobre permanência. Sobre continuar acreditando na vida mesmo depois de tantas tentativas de destruição.

E, sobretudo, porque no centro de toda essa travessia existe uma menina chamada Agnes, que desenha para a mãe enquanto, sem perceber, ajuda essa mulher a sobreviver um dia de cada vez.

“Ela me salva todos os dias”, diz Jéssica.

E, quando fala isso, não existe nenhuma metáfora.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Jéssica Carolina

E-mail: jessicacarolina.psicologia@gmail.com

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