Fenômeno pode elevar demanda e sobrecarregar sistemas de saúde regionais, segundo pesquisadores da Fiocruz
Levantamento mostra que cidades apostam em monitoramento e protocolos; poucas têm planos específicos
O El Niño severo já em curso deve pressionar as redes de saúde em todo o país. Projeções de pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) apontam para uma ampla gama de problemas associados ao fenômeno, provocados tanto pelo excesso de chuvas quanto pelo calor extremo. Por consequência, o instituto classifica o evento climático como uma emergência sanitária.
Diante desse cenário, as capitais brasileiras ainda apresentam respostas desiguais. Levantamento feito pela Folha com as 26 cidades e o Distrito Federal mostra que, embora algumas tenham protocolos e estruturas já organizadas, predominam medidas fragmentadas, como monitoramento climático e emissão de alertas.
Entre as cidades que responderam ao levantamento, Curitiba foi a única a informar uma reserva financeira para situações de calamidade.
A Folha procurou as 27 unidades da federação na última semana. Apenas 12 responderam.
O principal desafio é que o El Niño produz efeitos distintos conforme a região. Ao favorecer simultaneamente secas e chuvas intensas, o fenômeno dificulta prever quais doenças terão maior impacto em cada local.
Segundo especialistas, a expectativa é de aumento de doenças respiratórias e de arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. O calor extremo também pode agravar doenças cardiovasculares, quadros alérgicos e outras condições crônicas.
A lista de impactos é mais extensa, afirma Renata Gracie, coordenadora do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz.
“Cada um dos eventos ambientais —inundação, onda de calor ou estiagem prolongada — resulta em efeitos bastante difusos na saúde”, diz a pesquisadora, doutora em saúde coletiva pela UFRJ.
As ondas de calor exigem atenção especial para pessoas com diabetes e doenças respiratórias, mas também podem agravar problemas no sistema nervoso. Já as inundações aumentam o risco de leptospirose, hepatite A e diarreias, principalmente em locais com deficiência de saneamento básico.
A preocupação também alcança pacientes crônicos e pessoas com transtornos mentais.
“É mais provável que uma pessoa hipertensa, por exemplo, sofra um AVC por causa do estresse térmico. A gente percebe também uma elevação dos suicídios em locais onde acontecem tragédias, como no Rio Grande do Sul em 2024.”
Além do aumento da procura por atendimento, desastres costumam comprometer a própria capacidade de resposta das redes de saúde, com unidades danificadas, dificuldades de deslocamento e interrupção de tratamentos contínuos.
Segundo o Ministério da Saúde, o governo prepara estruturas itinerantes para dar suporte a estados e municípios durante eventos climáticos extremos. A meta, segundo a pasta, é conseguir montar um hospital de campanha em até 12 horas após uma tragédia, em qualquer ponto do país.
Entre as cidades que responderam ao levantamento, Rio de Janeiro e São Paulo são as que relataram maior integração entre monitoramento climático e resposta da saúde.
O Rio afirma manter, desde 2024, um protocolo para ondas de calor que classifica níveis de risco e orienta a população sobre medidas de proteção. A prefeitura também diz ter treinado profissionais da atenção primária e da rede de urgência para atender casos relacionados ao calor extremo.
São Paulo instalou nove tendas de resfriamento com oferta de água, frutas, ventilação, espaço para descanso e proteção solar.
“Em situações extremas, a Secretaria Municipal de Saúde aciona o Comitê de Crise para Altas Temperaturas”, informou a administração municipal, que também afirma manter um contingente de 1.500 profissionais, distribuídos em 161 equipes, para atuar durante chuvas intensas e ventanias.
Manutenção de rede
Florianópolis diz ter reforçado estoques de medicamentos e insumos e preparado equipes para atuar em caso de tragédias. A cidade afirma que pretende redistribuir atendimentos entre unidades da rede e adotar estratégias alternativas de transporte para transplantes e tratamentos que não possam ser interrompidos.
Segundo Renata Gracie, preservar o atendimento a pacientes crônicos é um dos maiores desafios quando eventos extremos afetam a infraestrutura da saúde.
A capital catarinense afirma ainda que prepara um sistema de georreferenciamento de pacientes em tratamento contínuo, incluindo cerca de 250 pessoas em hemodiálise.
Belo Horizonte informou ter criado um protocolo para identificar populações mais vulneráveis e afirmou ter capacidade para ampliar o atendimento nas unidades de saúde caso a demanda aumente.
Boa parte das respostas das prefeituras concentra-se em medidas de monitoramento e preparação inicial.
O Distrito Federal informou que elabora um plano específico para o El Niño, ainda em desenvolvimento. A estratégia inclui monitoramento por drones para localizar possíveis focos do mosquito da dengue e emissão de alertas sobre riscos climáticos.
Palmas afirmou manter um painel que cruza indicadores ambientais com dados sobre doenças respiratórias, arboviroses e acidentes por animais peçonhentos. A cidade também produz boletins semanais e capacita agentes comunitários para identificar situações de risco.
Cuiabá diz monitorar doenças associadas à estiagem e às queimadas e informou que a Defesa Civil contará com recursos extras para reforçar o combate aos incêndios durante o período seco.
Campo Grande afirmou apenas que organiza ações para fortalecer a capacidade de resposta da rede diante de situações adversas.
Medidas pontuais
Algumas capitais relataram iniciativas específicas, mas sem apresentar planos detalhados de contingência.
Aracaju informou manter estoques de medicamentos e soluções para hidratação e disse avaliar adaptações nas unidades para reduzir o impacto das altas temperaturas.
Maceió afirmou desenvolver ferramentas de comunicação digital e ampliar o acesso a especialidades, mas não detalhou como essas medidas funcionarão nem informou previsão de novos recursos.
João Pessoa disse não possuir um plano específico para o El Niño e afirmou que poderá ampliar a rede caso a demanda aumente.
Reserva financeira
Curitiba foi a única cidade a informar uma reserva financeira destinada ao enfrentamento de situações de calamidade.
Segundo a prefeitura, o Fundo de Recuperação e Estabilização Fiscal reúne atualmente R$ 327 milhões e pode ser utilizado em crises econômicas, calamidades, desastres naturais ou emergências de saúde pública, mediante aprovação do prefeito e da Câmara Municipal.
A cidade também afirma que receberá um Centro de Informação em Saúde e Clima, do Ministério da Saúde — estrutura que também será implantada em Belo Horizonte e Cuiabá para monitorar os efeitos de ondas de calor, frio e outros eventos extremos.
Para Renata Gracie, porém, o desafio vai além da criação de protocolos.
“O evento climático não afeta apenas a população. Ele também pode atingir a própria estrutura da saúde. O planejamento precisa considerar as duas coisas ao mesmo tempo”, afirma.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.



