“Educar é também falar de sexo”: Laura Muller defende diálogo aberto e afetivo sobre sexualidade entre pais e filhos

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Falar sobre sexo ainda é um tabu em muitas casas brasileiras, especialmente quando envolve pais e filhos. Mas o silêncio pode custar caro. Em tempos de desinformação, o diálogo familiar sobre sexualidade, prazer, prevenção e autocuidado é uma das ferramentas mais eficazes para proteger adolescentes de situações de risco, como infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), violência sexual e relações abusivas. No mês dos Pais, a Agência Aids conversou com a sexóloga Laura Muller, psicóloga com especialização em Terapia Sexual e mais de duas décadas de atuação na área, que reforçou a importância de participar ativamente dessas conversas é também um gesto de afeto, cuidado e responsabilidade.

Laura ganhou projeção nacional por participar durante 15 anos do programa Altas Horas, da TV Globo, onde respondeu a dúvidas do público sobre sexualidade de forma direta e acolhedora. Ela atua como palestrante, consultora e educadora sexual em diversas frentes, sempre com uma abordagem sensível e baseada em evidências.

Laura Muller no programa ‘Altas Horas’ | Foto: Reprodução

Por que ainda é tão difícil falar sobre sexo com os filhos?

Laura acredita que boa parte do bloqueio atual vem de um passado sem referências:

“O adulto hoje não passou por aulas de educação sexual ou por ações na sua infância e adolescência. Então a gente tem sim uma dificuldade ainda hoje de conversar abertamente sobre sexualidade, prazer, prevenção, autocuidado — e com os filhos isso aparece.”

Para ela, essa ausência de diálogo nas gerações anteriores não deve justificar o silêncio atual, e sim motivar uma mudança de postura:

“O incentivo para a gente romper o ciclo é entender que os pais são os primeiros e principais educadores sexuais dos filhos. Se a gente entender o conceito de sexualidade como um jeito de ser no mundo, os pais são os nossos modelos.”

Como começar a conversa?

A sexóloga reconhece que muitos pais não sabem como iniciar esse diálogo, e tudo bem. A chave, segundo ela, está em reconhecer as próprias limitações e abrir espaço com honestidade:

“O caminho acolhedor é se mostrar humano. Dizer que não teve aulas de educação sexual, que acha o assunto difícil de lidar, que é um assunto tabu ainda na nossa cultura, mas que estão abertos ao diálogo, que estão ali para talvez aprenderem juntos, discutirem juntos.”

Ela destaca que essa abertura, mais do que o domínio técnico do assunto, é o que cria um ambiente de confiança e escuta.

Existe idade certa para falar sobre sexualidade?

Laura é direta: não existe “cedo demais” para começar.

“É algo que deve acompanhar o crescimento da criança e do adolescente. Em casa, as perguntas podem surgir muito precocemente, às vezes aos 4, 5, 6 anos de idade. E os pais podem responder na linguagem da criança, não precisam se esquivar de dúvidas.”

Ela dá um exemplo simples e eficaz de como adaptar a resposta a uma criança pequena:

“Para a pergunta ‘o que é sexo?’, a resposta pode ser ‘é quando o papai e a mamãe forem namorar’. E aí a gente já está colocando que sexo é uma prática de mundo adulto na linguagem da criança.”

Além do papel da família, Laura ressalta a importância da escola nesse processo:

“A escola também precisa oferecer essa educação sexual com conceitos que vão evoluindo à medida em que a criança cresce. A indicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais é que o tema sexualidade apareça na escola a partir dos 6 a 7 anos de idade.”

Quando o silêncio vira risco

A ausência de conversa pode abrir espaço para desinformações perigosas. Embora evite atribuir culpa aos pais, Laura não ignora os riscos:

“Eu não gosto muito de ficar apontando culpados. Mas de fato, os pais precisam compreender que eles têm uma tarefa, sim, de educar os filhos. Fazer a educação sexual também compete à casa.”

Ela lembra que o exemplo vivido em casa impacta diretamente a autoestima, as relações e até a segurança emocional dos filhos:

“Os pais são modelos para os filhos. O que é vivenciado em casa impacta positiva ou negativamente na vida como um todo.”

Ainda assim, Laura traz um lembrete importante:

“Os pais podem e devem fazer o melhor que puderem. Mas perfeição não existe. Alguma coisa não vai ser tão boa assim. Se a gente busca fazer o melhor e aceita essa dimensão do humano, de que a gente não é perfeito, aí tá tudo certo.”

Medo de incentivar? Na verdade, é o contrário

Um dos receios mais comuns entre os pais é o de “incentivar” a prática sexual precoce ao falar sobre o tema. Mas Laura desfaz esse mito:

“Quando a gente oferece uma educação sexual de qualidade, esse jovem cresce com uma compreensão maior sobre as práticas sexuais e também com mais responsabilidade.”

Ela explica que o impacto é justamente o oposto do que muitos temem:

“Fazer uma educação sexual de qualidade não vai estimular uma vivência precoce do sexo, mas sim vai favorecer com que esse jovem, quando for se iniciar sexualmente, faça de um jeito mais saudável, mais responsável e mais prazeroso.”

Laura Muller em seu Instagram

Consentimento, limites e respeito: tudo começa em casa

Falar sobre sexualidade também é uma forma de prevenir situações de abuso, relações tóxicas e violência sexual.

“É fundamental o diálogo e a orientação para a gente poder se prevenir de situações como violências das mais variadas.”

Vergonha e silêncio também comunicam

Laura lembra que a ausência de diálogo também comunica algo aos filhos — nem sempre de forma positiva:

“A ausência de conversa pode sim ser interpretada como desinteresse, falta de cuidado, insegurança, culpa… Mas às vezes também precisamos olhar para a dimensão do humano: silêncio e vergonha de conversar só estão dizendo que somos humanos e que temos dificuldades ainda no mundo atual com a temática do sexo e da sexualidade.”

Histórias que inspiram: quando o diálogo vira vínculo

Durante os anos no Altas Horas, Laura ouviu relatos de pais que usaram o programa como ponto de partida para conversar com os filhos:

“Já ouvi muitas histórias interessantes. Pais que sentavam com os filhos para assistir o programa e depois discutiam o assunto.”

Segundo ela, essas histórias têm em comum três ingredientes:

“Criatividade, abertura ao diálogo e jeitos interessantes de lidar com um tema tão tabu ainda na nossa cultura.”

Laura Muller nos bastidores do Altas Horas | Foto: Reprodução

Para além do Dia dos Pais: uma cultura do cuidado

Laura encerra com uma mensagem que serve tanto para a educação sexual quanto para a vida:

“A gente sempre precisa ter uma noção de respeito aos limites — aos nossos e aos de quem está ao lado — pra gente poder viver bem a sexualidade e também favorecer a educação sexual.”

Ela conclui com um lembrete que resume toda sua proposta:

“Na prática sexual, a gente só deve ir até onde não nos fere, nem física nem emocionalmente, e também não fere a pessoa que está ao lado. Isso a gente pode e deve colocar na nossa vida como um todo — e como norte de uma educação sexual que respeite os limites.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista:

Assessoria de Laura Muller

E-mail: maria@lauramuller.com.br

Laura Muller

Instagram: lauramulleroficial

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