Educação sexual é fundamental para combater o abuso infantil, defende especialista

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Verão e festas de fim de ano exigem cuidados especiais com as crianças - Hospital Pequeno Príncipe

Com a temporada de festas de fim de ano, é importante direcionar nossa atenção para a segurança, principalmente, das crianças. Com o aumento nos casos de abusos durante este período, fortalecer a conscientização e promover medidas preventivas pode evitar inúmeros casos de violência sexual e/ou exploração. A educação sexual, apontada não é de hoje por especialistas como ferramenta vital na prevenção de casos de abusos, desempenha um papel ainda mais importante nestes períodos de recesso quando crianças e adolescentes passam mais tempo com familiares e conhecidos.

Pensando que o período de celebrações, marcado por encontros familiares e eventos sociais, infelizmente, pode expor as crianças a situações de risco e que no Brasil, a violência sexual – de quaisquer tipos -, é, sobretudo, doméstica – ou seja, ocorre dentro do ambiente familiar, por aqueles que deveriam oferecer proteção: pais, familiares, responsáveis ou outras figuras de cuidado -, a Agência Aids preparou uma matéria que explora e reforça a importância da prevenção.

Um levantamento feito pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) revelou que entre os anos de 2017 e 2022, em todo o território nacional foram registrados 179.277 casos de estupro de vulnerável com vítimas de até 19 anos – uma média de quase 45 mil casos por ano. Dos envolvidos, as crianças representam 62 mil das vítimas.

Foto de Menina Da Criança Do Americano Africano Virado Que Grita O Assento Sozinho No Assoalho e mais fotos de stock de Criança - iStock

Com relação ao perfil predominante das vítimas, mais da metade delas são crianças negras (50,9%), do sexo feminino (81,8%) e com até 13 anos (53,8%), segundo dados levantados pelo 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A maioria das violações acontece dentro das próprias casas. 87% dos agressores são pais, padrastos, tios, ou seja, membros da própria família.

Abuso sexual de crianças: onde o Brasil e o mundo estão acertando e no que têm de melhorar, segundo relatório - BBC News Brasil

Mas diante de tudo isso fica aquela indagação: quem é responsável pela educação sexual das crianças? A escritora Beatriz Cruz, estudante de serviço social, educadora social, e idealizadora do “Lá em Casa Tá Tudo Bem”, projeto voltado à promoção da educação sexual infantil, responde que todos são.

A educadora sexual alerta que o período de férias, os finais de semana, viagens com parentes, dentre outros, são ambientes onde os abusadores se sentem mais confortáveis. Por isso, destaca que é de extrema importância que os educadores, utilizem dinâmicas para que as crianças contem como foram ou estão sendo suas férias, se aproximem mais das crianças em sua individualidade, onde os mesmos possam observar possíveis sinais de violências, como novos hábitos estranhos, medos e timidez onde não havia antes.

Para ela, o silêncio não resolve a questão, muito pelo contrário, constrói muros que ampliam o problema e consequentemente nos distanciam ainda mais de um ambiente onde a criança possa ser livre de fato. Por isso, para avançarmos na resposta ao combate ao abuso e exploração de vulneráveis, segundo ela, é necessário primeiramente reconhecermos isto enquanto problema social, e dada a sensibilidade e complexidade do tema, Beatriz aposta em uma abordagem natural e humanizada.

“Antes da abordagem, é necessário que o cuidador entenda a importância de abordar o assunto. Autoconhecimento, prevenção ao abuso sexual, prevenção a gravidez precoce, prevenção de ISTs, entre outros, são os motivos do porquê abordar a educação sexual. A partir disso, é importante abordar de forma leve, assim como abordamos qualquer outro assunto! Costumo falar para as crianças que o nosso corpo não carrega nada de ruim para que tenhamos medo ou vergonha dele. Com isso, apresentar as partes íntimas através de ilustrações, com os devidos nomes, explicar que são partes íntimas porque merecem ser cuidadas e protegidas, de acordo com a idade, ensinar sobre toque seguro e toque não seguro…”

“Os canais de denúncia precisam ser mais democratizados! Nós precisamos começar a enxergar nossas crianças como seres humanos! Criança tem querer sim! Criança pode chorar, pode rir, pode gostar ou não gostar de algo, crianças podem se recusar a querer falar com uma pessoa e não fazer só porque é “mais educado”. Estamos ensinando crianças a serem obedientes e não questionadoras. Enquanto uma criança obedecer um abusador e não questionar o porquê de aquilo estar acontecendo, estaremos errando enquanto sociedade”.

Ao seu ver, ainda há muito para aprender, e educadores, profissionais e familiares não podem se abster dessa luta. “90% das ocorrências têm lugar no ambiente familiar. É fundamental que o ensino sobre sexualidade esteja incorporado nas escolas [e outros espaços], a fim de que mais crianças possam ter acesso à informação sobre proteção e cuidado pessoal.”

Violência sexual é crime, denuncie!

Saiba como e onde denunciar

  • Polícia Miliar – 190: quando a criança está correndo risco imediato
  • Samu – 192: para pedidos de socorro urgentes
  • Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres
  • Qualquer delegacia de polícia
  • Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa
  • Conselho tutelar: todas as cidades possuem conselhos tutelares. São os conselheiros que vão até a casa denunciada e verificam o caso. Dependendo da situação, já podem chegar com apoio policial e pedir abertura de inquérito.
  • Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros, precisam fazer notificação compulsória em casos de suspeita de violência. Essa notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e polícia.
  • WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008
  • Ministério Público

Redação da Agência de Notícias da Aids

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