“Você toma a medicação todos os dias? E vai precisar tomar para o resto da vida?” A pergunta de uma estudante dirigida ao influenciador e ativista Diego Krauzs, que vive com HIV, abriu espaço para uma das questões que mais despertam curiosidade entre os jovens quando o assunto é o diagnóstico. Outro estudante quis saber como lidar com o medo e o julgamento depois de descobrir que vive com HIV.
As perguntas fizeram parte do bate-papo promovido pela Agência Aids na manhã desta segunda-feira (10), no Senac Guarulhos, que reuniu estudantes da unidade para uma conversa sobre saúde, sexualidade, prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), HIV e os avanços no tratamento e nas estratégias de prevenção.
A atividade marcou a retomada de um novo ciclo de encontros da Agência Aids em unidades do Senac São Paulo. A proposta é levar informação diretamente aos jovens, criando espaços de diálogo, escuta e esclarecimento de dúvidas sobre temas que ainda são cercados por tabus, desinformação e estigma.
A parceria entre o Senac São Paulo e a Agência Aids já percorreu diferentes unidades da instituição na capital, litoral e interior do Estado, levando profissionais e convidados para conversar com os estudantes sobre saúde e prevenção.

Para Lucila Sciotti, superintendente de Operações do Senac São Paulo, doutora e mestre em Educação, iniciativas como essa fazem parte da formação cidadã oferecida pela instituição.
“É com imenso prazer que vemos a nova série de palestras da Agência Aids, com a coordenação de Roseli Tardelli e vários profissionais fazendo um roteiro de palestras pelas unidades do Senac São Paulo. Essas palestras são momentos muito informativos. São momentos significativos que trazem para todos os nossos estudantes a oportunidade de conhecer todas as possibilidades de precaução e prevenção com relação às ISTs, às infecções pelo HIV e a outras doenças que possam ser transmitidas sexualmente.”
Lucila destaca que o acesso à informação amplia a capacidade dos jovens de fazer escolhas mais seguras e conscientes.
“Ao terem as informações, eles podem escolher a prevenção, eles podem escolher pelo caminho mais seguro. O nosso processo de formação profissional é um processo de formação do profissional e do cidadão. Quanto mais informações eles puderem ter, quanto mais escolhas saudáveis eles puderem fazer, melhor será para toda a sociedade e para cada um deles”, afirma.
A superintendente também ressalta a importância de manter espaços de diálogo com os estudantes. “Nós temos um carinho muito grande por essa parceria, que já tem alguns anos, e esperamos continuar por muito tempo ainda trazendo informação e um espaço de fala, de escuta e compartilhado com os jovens.”
“A informação precisa chegar antes que o HIV”
Para Roseli Tardelli, jornalista, diretora da Agência Aids e idealizadora do projeto em parceria com o Senac São Paulo, retomar os encontros significa ampliar o acesso dos jovens às informações sobre as possibilidades atuais de prevenção.

“Ficamos muito felizes de retomar a série de encontros com o Senac de São Paulo. A informação chegar antes que o HIV encontre esses jovens é fundamental: salva vidas e promove saúde! A nova geração de estudantes que serão os adultos de amanhã, passam a conhecer conceito da Mandala da Prevenção Combinada para que possam escolher qual sua melhor estratégia de prevenção”, afirma.
Roseli lembra que, apesar dos avanços no tratamento e na prevenção, o HIV continua presente e a vulnerabilidade faz parte da vida de qualquer pessoa.
“O HIV segue infectando quem não se protege. A vulnerabilidade dos jovens é presente e deve ser trabalhada oferecendo informações para que eles possam manejar melhor as possibilidades que as novas tecnologias de prevenção oferecem e se protegerem”, destaca.
Durante o encontro, Roseli resgatou parte da história da epidemia de HIV/aids e mostrou aos estudantes como a imprensa contribuiu, especialmente nos primeiros anos, para a construção de imagens marcadas pelo medo e pelo preconceito.
Ao apresentar antigas manchetes sobre a epidemia, ela chamou a atenção para o impacto que palavras e imagens podem produzir sobre quem vive com HIV.
“Nenhum vírus vem antes da pessoa”, afirmou Roseli durante a conversa, ao defender uma comunicação que coloque a pessoa no centro e ajude a desconstruir estigmas.
A jornalista também compartilhou sua trajetória pessoal. Ela contou aos estudantes que começou a trabalhar com HIV após perder um irmão para a aids e, posteriormente, fundou a Agência Aids, dedicada à produção e disseminação de informação sobre HIV e aids.

Diego conta sua história e emociona os jovens
Diego: “Eu não tive educação sexual na minha escola”
A história de Diego Krauzs, ator, youtuber, influencer e ativista que vive com HIV, trouxe para o encontro a experiência de quem transformou o próprio diagnóstico em uma oportunidade de falar publicamente sobre o vírus, prevenção e acolhimento.
Diego contou aos estudantes que, naquele momento de diagnóstico, encontrou na internet informações que não havia recebido na escola. “Quando eu tive meu diagnóstico, não se falava sobre. Poucas pessoas falavam sobre isso. Foi na intenet onde eu consegui achar meu acolhimento e é onde eu pratico acolhimento para pessoas que vêm conversar comigo”, afirmou.
Por isso, logo no início da conversa, fez um convite aos estudantes: “Eu convido vocês a tirarem todas as dúvidas. Eu sou aberto a responder qualquer pergunta, seja na minha história, seja em todas as reflexões que a gente vai passar.”
A falta de informação, no entanto, marcou sua chegada ao diagnóstico. “Quando eu tive o meu diagnóstico já existia o histórico e eu não era informado, eu não tinha nenhum tipo de informação. Eu não tive educação sexual na minha escola”, relatou. Para Diego, essa ausência de conhecimento fez com que o resultado positivo tivesse um impacto ainda maior. “Quando eu tive o meu diagnóstico, foi um impacto que eu não sabia nada.”
O diagnóstico aconteceu depois que um parceiro com quem mantinha relações sexuais sem proteção contou que havia enfrentado um problema de saúde e recomendou que Diego fizesse o teste. “Eu fiz o exame tendo consciência de que com certeza eu tinha HIV”, lembrou.
Mesmo esperando o resultado, o momento foi de choque. “Eu lembro da psicóloga do CRT falando comigo, eu não estava ouvindo nada, eu estava completamente em choque mesmo”, contou. Ao sair do serviço de saúde, Diego voltou para casa e chorou. “Eu não lembro como eu voltei para minha casa. Eu lembro de entrar no ônibus, lembro de fechar a porta da minha casa e aí eu desabei.”
Foi então que a internet voltou a ter um papel importante. Durante aquele fim de semana, ele procurou vídeos e relatos sobre HIV. “Eu passei sábado e domingo vendo vídeo na internet, que foi o que me salvou. Eu vi informadores falando sobre isso, mantendo a calma, deixando tudo muito mais tranquilo”, lembrou.
A experiência pessoal acabou se transformando em uma forma de atuação. Hoje, Diego recebe em suas redes sociais pessoas que procuram informações sobre HIV e outras ISTs. Segundo ele, o perfil desse público também vem se diversificando.
“É importante dizer que, de uns anos para cá, começou a aparecer muito o número de mulheres cis hétero, porque geralmente o meu público é basicamente homens gays e pouquíssimos homens héteros”, contou.
Ele relatou ainda que recebe dúvidas de pessoas com diferentes histórias e contextos sociais. Para Diego, essa diversidade reforça a importância de existirem pessoas vivendo com HIV falando publicamente sobre suas experiências.
“Vai bem esse lugar de ter figuras, das pessoas que vivem com o vírus, quando se sentirem seguras para issso, falarem sobre sua história. Hoje, na internet, a gente tem várias pessoas que falam sobre isso, e eu acho importante que a gente tenha a maior quantidade de pessoas informando, relatando suas histórias, dá força, mostra que a gente pode superar um diagnóstico e uma situação difídil.”, afirmou.
Informação que também acolhe
Durante o bate-papo, Diego também falou sobre os avanços no tratamento. Ao responder sobre a possibilidade de uma pessoa vivendo com HIV manter uma vida saudável e sem transmitir o vírus sexualmente quando está indetectável, ele fez questão de diferenciar o conceito de indetectabilidade da cura.
“Obviamente não é a cura, não é sobre isso que a gente fala, mas é a situação mais saudável que a gente pode ter”, explicou. Ele também destacou que, além do tratamento, existem atualmente diferentes estratégias de prevenção. “A medicina tem todas as prevenções, vai passar por elas aqui.”
A fala ajudou a responder uma das dúvidas que surgiram entre os estudantes sobre o uso contínuo da medicação e as possibilidades atuais de viver com HIV.
Para Diego, porém, a transformação não aconteceu apenas na medicina. A forma como as pessoas recebem informação também mudou — e a possibilidade de encontrar outras pessoas vivendo com HIV na internet pode fazer diferença no momento do diagnóstico.
Foi justamente essa experiência que ele decidiu compartilhar com os estudantes do Senac. Ao contar sua própria história, Diego mostrou que, para quem recebe um diagnóstico, informação não significa apenas saber o que é o vírus ou como funciona o tratamento. Pode significar também encontrar alguém que diga que é possível seguir em frente.

Regiane ressaltou a importância dos jovens sempre trabalharem sua emoção
Regiane: informação para fazer escolhas
A psicóloga e sexóloga Regiane Garcia participou do encontro trazendo para a conversa aspectos relacionados à sexualidade, comportamento, vulnerabilidade e saúde. Formada em Psicologia pela Universidade Metodista, com especializações em sexualidade e psicodrama e licenciatura em História, ela atua no Instituto Cultural Barong, organização não governamental voltada à prevenção das ISTs/HIV/aids e à promoção da saúde sexual e reprodutiva. Regiane também trabalha na área educacional e clínica e já participou de palestras e rodas de conversa sobre sexualidade e saúde em diferentes espaços públicos de São Paulo e de outros estados.
Regiane contou aos estudantes que sua aproximação com o tema do HIV aconteceu após sua formação em sexualidade, educação e terapia. Recém-formada, conheceu o Instituto Cultural Barong, organização da qual faz parte há mais de 15 anos, e se aproximou de um trabalho que unia educação, prevenção e intervenção comportamental.
Na época, o Barong mantinha uma unidade móvel na Praça Ramos de Azevedo, em São Paulo, onde conversava com a população sobre sexualidade e distribuía preservativos, gel lubrificante e materiais informativos. “Eu compreendi a intervenção comportamental, me encantei, comecei a trabalhar.
A experiência também ajudou Regiane a construir uma visão sobre prevenção que vai além da simples transmissão de informações. Para ela, reconhecer a própria vulnerabilidade é parte importante do processo de cuidado.
“Somos vulneráveis sim, somos muito vulneráveis, porque todo ser humano é. A gente não está livre de um acidente, a gente não está livre de um acontecimento inesperado, assim como a gente também não está livre de uma doença, de um vírus entrar em contato com a gente”, afirmou.
A psicóloga relacionou essa percepção à experiência vivida durante a pandemia de Covid-19. “O quanto que mostra que somos vulneráveis, porque somos humanos. E por isso temos que aprender a nos cuidar”, disse.
Para Regiane, esse cuidado começa pelo acesso ao conhecimento. “A gente precisa de informação, a gente precisa de troca, a gente precisa de conhecimento para a gente poder fazer melhores escolhas na nossa vida, para a gente ter um projeto de vida a longo prazo”, afirmou.
Ao falar diretamente aos estudantes, ela destacou que juventude e prevenção não precisam ser tratadas como conceitos opostos. “Viver, principalmente vocês que são jovens, viver tudo o que vocês possam viver com cuidado, com conhecimento, porque eu acredito muito na educação e na saúde. Se a gente se educa, a gente consegue ter mais saúde.”
A partir dessa perspectiva, Regiane também questionou a associação automática entre sexualidade e julgamento moral. Ao responder à pergunta de Roseli Tardelli sobre por que o HIV ainda é tão cercado de preconceito, ela relacionou o estigma à forma como a sociedade historicamente encara a sexualidade.
A psicóloga lembrou uma discussão que acompanhou em um congresso de sexualidade sobre os métodos contraceptivos. Segundo ela, a chegada da pílula anticoncepcional representou uma mudança importante na autonomia feminina: a mulher passou a poder fazer sexo não necessariamente para engravidar, mas porque desejava.
“Não é vai fazer sexo pra ter bebê, vai fazer sexo porque quer e vai ter bebê a hora que quer e, se quiser, tem mais essa”, afirmou.
Para Regiane, essa mudança ajuda a compreender também por que o HIV ainda carrega uma dimensão de julgamento. “O estigma do HIV, porque é uma infecção sexualmente transmissível, fica uma questão aí por trás de uma certa culpabilidade”, explicou.
Em outro momento da conversa, ao discutir a ideia de que determinadas pessoas estariam mais protegidas ou mais expostas ao HIV, Regiane reforçou que a vulnerabilidade não desaparece com a idade. “Mesmo tendo 15 ou tendo 70. É que com 15 a gente se sente mais super-homem. (…) Mas é vulnerável tanto quanto uma pessoa com mais idade.”
A fala reforçou uma das principais mensagens do encontro: prevenção não deve partir do julgamento sobre quem a pessoa é ou sobre como escolhe viver sua sexualidade. Deve partir do reconhecimento de que qualquer pessoa pode estar vulnerável e, por isso, precisa ter acesso a informação, acolhimento e ferramentas para cuidar da própria saúde.

Estudantes do Senac de Guarulhos acompanham o clipe de Gabriel Comicholi, que fez paródia de uma música de Anitta: “O Gabizinho tem HIV”
Prevenção combinada
A conversa também apresentou aos estudantes a ideia de prevenção combinada, mostrando que atualmente existem diferentes estratégias que podem ser escolhidas de acordo com as necessidades e a realidade de cada pessoa.
Roseli reforçou que o objetivo do encontro não é dizer aos jovens como devem viver sua sexualidade, mas oferecer informação para que possam tomar decisões mais conscientes.
“O comportamento de vocês não deve ser nem aprovado e nem reprovado por ninguém. É uma escolha de vocês. A gente está aqui para dizer para vocês que façam uma escolha mais saudável, e tem muitos métodos de prevenção que vocês vão poder usar”, afirmou.
Durante o bate-papo, também foi explicado que HIV e aids não são sinônimos e que o tratamento mudou profundamente a realidade de quem recebe o diagnóstico. Pessoas vivendo com HIV que estão em tratamento e com carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual — princípio conhecido como Indetectável=Intransmissível (I=I). A transcrição registra essa explicação feita durante o encontro.

Em todas as dependências da unidade, cartazes que estimulam a educação e o respeito
Guarulhos
A realização do encontro em Guarulhos ganha relevância diante da dimensão do município. A cidade tem mais de 1,2 milhão de habitantes, segundo o Censo 2022, e é a segunda mais populosa do Estado de São Paulo.
Dados divulgados em 2025 pela Agência Aids apontavam que o CTA Ubiratan Marcelino dos Santos e o Serviço de Assistência Especializada (SAE) de Guarulhos acompanhavam, juntos, mais de 11 mil pacientes.
Além de ser um dos principais polos econômicos do Estado, Guarulhos concentra uma população jovem e diversa, tornando espaços de educação em saúde especialmente importantes para ampliar o acesso à informação e estimular a prevenção.

Incentivando e orientando sobre locais para pedir ajuda
Informação antes do diagnóstico
Ao final do encontro, ficou a mensagem de que falar sobre HIV não deve acontecer somente depois de um diagnóstico. Para os jovens, conhecer as possibilidades de prevenção, entender a própria vulnerabilidade e ter espaço para tirar dúvidas são passos importantes para fazer escolhas mais conscientes.
“E por isso temos que aprender a nos cuidar. A gente precisa de informação, a gente precisa de troca, a gente precisa de conhecimento para a gente poder fazer escolhas bacanas na nossa vida, para a gente ter um projeto de vida muito legal”, afirmou Regiane. Para a psicóloga, esse cuidado deve estar associado também à educação. “Viver, principalmente vocês que são jovens, viver tudo o que vocês possam viver com cuidado, com conhecimento, porque eu acredito muito na educação e na saúde. Se a gente se educa, a gente consegue ter mais saúde.”
É justamente esse o propósito do projeto desenvolvido pela Agência Aids em parceria com o Senac São Paulo: fazer a informação chegar antes, criando espaços em que os jovens possam perguntar, refletir e conhecer as diferentes estratégias de prevenção sem medo de julgamento. Ao levar ciência, experiência e acolhimento para dentro das unidades de ensino, a iniciativa busca transformar informação em autonomia para escolhas mais seguras.

Foto com a gerente Fabiana Martins, a equipe da Agência e os alunos
Redação da Agência de Notícias da Aids



