Em encontro realizado na redação da Agência de Notícias da Aids, Dra. Rosana Del Bianco, Américo Nunes e Adriano Queiroz analisam o que ficou da maior conferência mundial sobre HIV e colocam no centro do debate acesso, aids avançada, continuidade da prevenção, envelhecimento e estigma
A ciência nunca ofereceu tantas possibilidades para transformar a resposta ao HIV. Novas tecnologias de prevenção, medicamentos de longa duração, pesquisas em busca da cura e estratégias capazes de ampliar as escolhas das pessoas ocuparam espaço importante na 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026), realizada no final de Julho, no Rio de Janeiro. Mas, na redação da Agência de Notícias da Aids, a conversa começou justamente onde os anúncios científicos costumam terminar: quem conseguirá acessar tudo isso?
E rapidamente foi além. O que acontece com quem ainda chega aos serviços de saúde com aids avançada? Os novos profissionais estão preparados para reconhecer e tratar infecções oportunistas? Por que algumas pessoas começam a PrEP, mas não conseguem permanecer em prevenção? Como cuidar de uma geração que envelhece vivendo com HIV? E como falar em fim da epidemia enquanto o estigma ainda interfere na vida de quem recebeu o diagnóstico?
Essas foram algumas das questões que atravessaram o Ecos da Aids 2026 – Informação Aliada da Prevenção, iniciativa da Agência de Notícias da Aids para fazer os principais debates da conferência continuarem circulando depois que os auditórios se esvaziaram.

Mediado pela jornalista Roseli Tardelli, o encontro reuniu três pessoas que acompanharam a conferência no Rio: Dra. Rosana Del Bianco, médica infectologista e diretora de internação do Centro de Referência em DST/Aids da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo; Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova e integrante do controle social da tuberculose; e Adriano Queiroz, coordenador do setor de prevenção da área de IST/Aids da cidade de São Paulo e integrante de comitês técnicos de saúde da população negra e LGBT+.
A proposta era refletir sobre o que a AIDS 2026 trouxe, o que o Brasil apresentou ao mundo e, sobretudo, quais devem ser os próximos passos para reduzir novas infecções e continuar avançando na resposta ao HIV. As respostas mostraram que falar sobre o futuro da epidemia exige também encarar problemas que permanecem muito presentes.
A tecnologia avança. O acesso conseguirá acompanhar?
Entre tantas novidades apresentadas na conferência, uma palavra atravessou boa parte da conversa na Agência Aids: acesso. Para Américo Nunes, não é possível pensar em superar o HIV como problema de saúde pública sem garantir a presença da sociedade civil nas decisões.

“Não dá para a gente pensar no fim do HIV enquanto problema público de saúde se a sociedade civil não for pautada, não estiver nas mesas de discussões. Isso é fundamental, principalmente enquanto pessoa vivendo com HIV”, afirmou.
Ao analisar a conferência, Américo destacou justamente a distância que pode existir entre o desenvolvimento de uma tecnologia e sua chegada efetiva à população. “O que me chamou muito a atenção nessa conferência foi justamente não só a questão das novas tecnologias, dos tratamentos de longa duração, mas o acesso a essas tecnologias.”
E sintetizou: “Não basta chegar e a população não ter acesso.”
Adriano Queiroz parte de uma preocupação semelhante. A prevenção caminha para oferecer métodos que podem exigir cada vez menos intervenções frequentes do usuário. Mas, para ele, nenhum medicamento será capaz de produzir todo o seu potencial se continuar distante da vida de quem precisa dele. “A gente pode ter o melhor medicamento do mundo, mas não vai adiantar”, afirmou.
Para Adriano, a eficácia da prevenção também depende de serviços mais próximos, amigáveis e capazes de organizar suas estratégias a partir das necessidades das pessoas — e não apenas da estrutura tradicional das unidades de saúde.
A questão muda a perspectiva. Em vez de perguntar apenas por que determinadas populações não chegam aos serviços, talvez seja necessário perguntar por que os serviços ainda não conseguiram chegar até elas.
Quando esperar pela prevenção pode significar chegar tarde
São Paulo levou à conferência experiências construídas justamente para reduzir essa distância. Adriano contou que a cidade apresentou as máquinas automáticas de retirada de PrEP e PEP, além de estratégias extramuros e da oferta de prevenção em espaços fora dos serviços tradicionais de saúde. A experiência paulista foi discutida em diferentes mesas da conferência.
A lógica é simples: prevenção precisa estar disponível no momento em que a pessoa decide procurá-la.

Adriano recordou que, quando a PrEP começou a ser ofertada, ainda existiam barreiras como filas e agendamento. Com o tempo, ficou evidente que criar obstáculos entre o usuário e o método poderia comprometer a própria finalidade da política. “Quanto mais pontos de acesso as pessoas têm para retirar o medicamento, e sobretudo que não haja agendamento, é superimportante”, afirmou.
O motivo é concreto: alguém pode procurar a PrEP, enfrentar meses de espera e, nesse intervalo, adquirir o HIV. “Pode ser que ela volte soroconvertida”, alertou.
A prevenção, portanto, não começa apenas quando um medicamento entra no organismo. Começa no horário em que o serviço abre. Na distância que a pessoa precisa percorrer. Na necessidade ou não de agendamento. No modo como ela é recebida. Na possibilidade de retirar o medicamento sem constrangimento. E na capacidade do sistema de saúde de compreender que diferentes pessoas precisam de diferentes portas de entrada.
Começar a PrEP é apenas parte do caminho
A experiência acumulada com a profilaxia pré-exposição também trouxe uma segunda questão para o debate: não basta iniciar a PrEP; é preciso pensar na permanência em prevenção.
Adriano relatou que algumas pessoas interrompem o método e só retornam aos serviços algum tempo depois. Em determinadas situações, quando voltam para reiniciar a profilaxia, já adquiriram o HIV.
Para ele, o desafio é construir estratégias que acompanhem melhor essas trajetórias. “Tem pessoas que não conseguem se manter em PrEP e, quando voltam para tomar PrEP novamente, soroconverteram”, explicou.
A percepção individual de risco, lembrou Adriano, nem sempre acompanha aquilo que está acontecendo na vida sexual da pessoa. Algumas interrompem o medicamento sem dialogar com profissionais ou com os serviços de saúde.
A próxima etapa da prevenção combinada, portanto, não passa apenas por alcançar mais usuários, mas também por ajudá-los a fazer escolhas informadas sobre quando iniciar, continuar, mudar ou interromper uma estratégia preventiva.
Enquanto se fala do futuro, pessoas ainda chegam com aids avançada

Foi Dra. Rosana quem introduziu um dos contrapontos mais importantes da conversa. Enquanto boa parte dos grandes encontros científicos olha para as novas tecnologias de prevenção, ela sente falta de uma discussão que marcou profundamente os primeiros anos da epidemia e que, segundo sua experiência clínica, ainda está longe de desaparecer: a aids avançada.
“Eu, como sou da área clínica, posso dizer que tenho uma lacuna enorme na questão do doente em si. O diagnóstico, novos medicamentos, os tratamentos de infecções oportunistas… a gente fala muito pouco sobre a aids avançada. Eu acho isso importantíssimo”, afirmou.
Para Dra. Rosana, os avanços no tratamento e na prevenção podem dar a impressão de que certas manifestações da doença pertencem ao passado.
Há abandono e descontinuidade de tratamento. Há diagnósticos tardios. Há pessoas chegando aos serviços com infecções oportunistas. E há quadros que exigem de médicos e equipes um conhecimento que precisa continuar sendo transmitido às novas gerações de profissionais.
Dra. Rosana contou o caso recente de um paciente que chegou ao serviço com lesões disseminadas e uma hipótese diagnóstica que, depois de investigação, mostrou-se equivocada. Um teste permitiu identificar histoplasmose.
O episódio, para ela, expõe uma preocupação maior: quantos diagnósticos podem ser perdidos quando determinadas doenças deixam de ocupar espaço na formação e na atualização dos profissionais?
“Quem é o abandono de tratamento? O abandono vem com o quadro clássico de aids, cheio de infecção. Aí eu pergunto: esses médicos novos estão preparados para fazer esse tipo de tratamento?”, questionou.
“Tem que ser treinado para aids, para HIV, e não só para PrEP”
A crítica de Dra. Rosana não é à expansão da prevenção. É ao risco de uma resposta ao HIV que avance em uma ponta e deixe lacunas na outra. “Esse povo que entra na rede hoje em dia tem que ser treinado para a aids, para o HIV, e não só para a PrEP”, afirmou.
A fala coloca uma questão importante para um país que pretende avançar no controle da epidemia: como preservar o conhecimento acumulado ao longo de quatro décadas?
Uma geração de profissionais aprendeu a reconhecer manifestações clínicas da aids em um período em que os hospitais recebiam diariamente pessoas com doenças oportunistas. Com a transformação promovida pelos antirretrovirais, esses quadros diminuíram — mas não desapareceram.
Para Dra. Rosana, é preciso continuar formando equipes capazes de reconhecê-los. “A gente tem que voltar não só a fazer o diagnóstico do HIV, que é importantíssimo, tratar, mas também fazer o diagnóstico dessas infecções oportunistas”, defendeu.
O alerta quebra uma narrativa excessivamente linear de progresso. A resposta ao HIV pode caminhar para medicamentos cada vez mais modernos e, simultaneamente, continuar recebendo pessoas com manifestações conhecidas desde os primeiros anos da epidemia.
Aproximar a prevenção de quem historicamente ficou distante dela

A desigualdade de acesso também apareceu quando a conversa chegou às populações mais vulnerabilizadas.
Adriano contou que quase metade dos novos usuários de PrEP em São Paulo atualmente pertence à população negra. Mas o resultado, segundo ele, não aconteceu espontaneamente. Foi necessário mudar a forma de oferecer prevenção.
Ações extramuros, horários noturnos, finais de semana e estratégias para além do funcionamento tradicional dos CTA e SAE passaram a aproximar a política pública da rotina das pessoas. “Não é necessariamente que eles não queiram. Têm mais dificuldade de acessar”, observou.
Para Adriano, a inovação científica precisa caminhar junto com inovação na maneira de organizar os serviços. Caso contrário, o risco é produzir tecnologias extraordinárias que continuam chegando primeiro — ou apenas — a quem já consegue acessar o sistema.
O estigma continua presente depois de quatro décadas
Se acesso foi uma palavra central da conversa, estigma foi outra. Américo Nunes vive com HIV há 38 anos e acompanha de perto a experiência de outras pessoas que receberam o diagnóstico.
Quando Roseli Tardelli perguntou qual seria um dos grandes desafios daqui para frente, ele não citou uma nova droga ou uma meta biomédica. Falou de preconceito.
“Combater o estigma, o preconceito, a discriminação. Ainda existe, é muito grande, é muito forte”, afirmou.
Segundo Américo, esse medo continua aparecendo nos grupos de pessoas vivendo com HIV e influencia inclusive decisões sobre revelar ou não o diagnóstico. Não contar é um direito. O problema aparece quando o silêncio é imposto não pela escolha pessoal, mas pelo receio da rejeição e da discriminação.
Mais de quatro décadas depois do início da epidemia, a medicina conseguiu transformar radicalmente o prognóstico de uma pessoa que recebe o diagnóstico de HIV. A sociedade, porém, não avançou na mesma velocidade. Essa diferença também faz parte dos desafios deixados pela AIDS 2026.
Uma geração sobreviveu. Agora é preciso saber como ela vai envelhecer
Américo levantou ainda uma questão que existe justamente porque o tratamento funcionou: o envelhecimento das pessoas vivendo com HIV.
Há pessoas que receberam o diagnóstico há 30 ou 40 anos e chegaram a uma fase da vida que, no início da epidemia, muitas acreditavam que jamais alcançariam. “Precisamos trazer luz para essa discussão: viver com HIV há mais de 40, há mais de 30 anos, e o que isso vai trazer para essas pessoas?”, questionou.
Para ele, a preocupação precisa incluir principalmente quem envelhece sem uma rede de proteção. “População em situação de rua, população privada de liberdade: como ficam essas pessoas envelhecendo com HIV ou aids e sem ter uma rede de apoio e proteção?”
Dra. Rosana acrescentou uma dimensão clínica ao debate. Segundo ela, o envelhecimento exige atenção para outros diagnósticos, incluindo diferentes tipos de câncer, e reforça a necessidade de olhar a pessoa vivendo com HIV para além do controle do vírus.
Américo trouxe a própria experiência para a conversa. Ele contou que desenvolveu um câncer e passou por um longo tratamento. A partir do relato, defendeu uma assistência integral. “Os profissionais da saúde têm que pensar a pessoa vivendo com HIV na sua totalidade. Não é só o infecto”, disse.
Amamentação: um debate que começa a tensionar antigos paradigmas

A conversa também passou por um dos temas que provocaram discussões na AIDS 2026: a possibilidade de amamentação entre mulheres vivendo com HIV em contextos específicos.
Dra. Rosana defendeu que mulheres com carga viral indetectável de forma sustentada, rigorosamente acompanhadas e que desejem amamentar deveriam poder participar dessa decisão.
“Eu acho que toda mulher que tem a sua carga viral indetectável por um longo período […] teria o direito de escolher a amamentação ou não”, afirmou.
Dra. Rosana fez questão de delimitar sua posição: “Não é para todo mundo”. Segundo ela, qualquer mudança precisaria estar associada a acompanhamento rigoroso e protocolos que permitissem identificar rapidamente alterações de carga viral e outros fatores que pudessem elevar o risco de transmissão.
Américo também defendeu que a autonomia da mulher faça parte da discussão. Ele recordou o sofrimento de mães vivendo com HIV que, nos primeiros anos da epidemia, assistiam outras mulheres amamentarem enquanto eram impedidas de fazer o mesmo. “É um assunto muito delicado, mas eu sou favorável à amamentação e a uma decisão da mãe”, afirmou.
A discussão apresentada no encontro representa a posição dos entrevistados e um debate científico em evolução. No Brasil, a orientação oficial continua sendo que mulheres vivendo com HIV não amamentem, mesmo quando apresentam carga viral indetectável. Por isso, qualquer mudança nessa prática dependeria de revisão das recomendações nacionais e da construção de protocolos específicos.
E a cura?
Apesar das críticas e preocupações, Dra. Rosana também voltou do Rio olhando para aquilo que durante quatro décadas mobilizou cientistas, profissionais e pessoas vivendo com HIV: a possibilidade de uma cura.
Ela acompanhou discussões envolvendo novas abordagens e anticorpos e disse enxergar sinais de esperança, ainda que reconheça um problema conhecido na história da epidemia: o custo pode transformar uma descoberta promissora em algo disponível para muito poucos. “Eu acho que estão chegando. Eu sempre acho que nós estamos chegando”, afirmou.
Entre aquilo que já é possível e aquilo que ainda não chegou a todos
Ao final da conversa, não houve uma única resposta para o que ficou da AIDS 2026.
Dra. Rosana voltou os olhos para as pessoas que continuam adoecendo e para a necessidade de preparar profissionais para cuidar delas.
Adriano falou de uma prevenção que precisa sair dos serviços tradicionais, compreender a vida dos usuários e chegar antes da infecção.
Américo lembrou que nenhuma resposta será completa se a sociedade civil não participar das decisões, se novas tecnologias permanecerem inacessíveis, se o preconceito continuar impondo silêncio e se pessoas que sobreviveram décadas com HIV envelhecerem sem proteção.
São olhares diferentes sobre um mesmo problema. A resposta ao HIV de 2026 já não é a mesma de 1986. Os medicamentos mudaram. A expectativa de vida mudou. A prevenção mudou. O conhecimento científico mudou.
Mas algumas perguntas continuam desconfortavelmente atuais. Quando Roseli Tardelli perguntou a Dra. Rosana qual seria o grande desafio depois da conferência, a resposta veio sem rodeios: “Eliminar a aids.”
E Dra. Rosana acrescentou algo fundamental. “Todos os esforços que a gente faz são para isso, mas eu acho que depende não só da nossa boa vontade. A gente depende muito da política, dos recursos humanos, das pessoas.”
Talvez seja justamente esse o principal eco deixado pela conversa. Porque o futuro da prevenção pode estar cada vez mais próximo — mas ele só fará sentido se também alcançar quem ainda vive os problemas do presente.
Redação da Agência de Notícias da Aids




