EACS 2025: Pesquisas do CRT e da Casa da Pesquisa destacam o impacto da PrEP, o uso de redes sociais na prevenção ao HIV e um caso inédito de persistência do vírus Mpox em pessoa com HIV avançado

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A produção científica brasileira está brilhando na 20ª edição da European Aids Clinical Society Conference (EACS 2025), que começou nesta quarta-feira (15) e segue até o dia 18, em Paris. Profissionais do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo (CRT) e da Casa da Pesquisa participam do evento com trabalhos que chamam a atenção da comunidade internacional por combinar rigor técnico, inovação e compromisso social na resposta ao HIV e às infecções sexualmente transmissíveis.

As apresentações — conduzidas por Vinícius Francisco, Dra. Mariza Tancredi e Dra. Maria Felipe Medeiros — abordam diferentes dimensões do enfrentamento ao HIV/aids, da prevenção combinada ao impacto da PrEP e aos desafios clínicos de infecções emergentes, reforçando a presença e a relevância da ciência brasileira no cenário global.

PrEP e a redução de novos casos de HIV em homens

A pesquisadora Dra. Mariza Tancredi apresenta o estudo “O impacto da PrEP na redução de novos casos de HIV em homens no estado de São Paulo”, que analisa dados de 2018 a 2023 para compreender as tendências epidemiológicas após a introdução da profilaxia pré-exposição no Brasil.

Os resultados mostram que, no período, houve 16.379 novos casos de HIV entre homens na capital paulista e 23.504 em outras cidades do estado. Enquanto o município de São Paulo registrou queda significativa em todas as categorias de raça/cor, o cenário nas demais cidades revelou redução entre brancos e pardos, mas aumento preocupante entre homens pretos.

“Essas evidências favorecem a formulação de políticas de saúde que norteiam o SUS e mostram a importância de garantir acesso equitativo à PrEP e aos serviços de saúde”, afirmou a pesquisadora.

A Dra. Tancredi enfatiza que, embora os dados comprovem a eficácia da PrEP, ainda persistem desigualdades raciais e regionais que precisam ser enfrentadas.

“A grande mensagem que levamos ao EACS é a importância de fazer a PrEP chegar às mãos das pessoas na hora certa e no local certo”, completou.

O estudo foi reconhecido por oferecer evidências concretas de que a ampliação do acesso à PrEP pode transformar o curso da epidemia de HIV, especialmente em grandes centros urbanos — desde que acompanhada de estratégias de equidade e justiça social.

Descoberta inédita: persistência do vírus Mpox por mais de um ano em paciente com HIV avançado

A Dra. Maria Felipe Medeiros, médica infectologista da Casa da Pesquisa do CRT, apresenta um estudo que surpreende a comunidade científica internacional. O trabalho descreve o primeiro caso documentado de persistência do vírus Mpox por 14 meses consecutivos em uma pessoa vivendo com HIV/aids em fase avançada, mesmo após múltiplos tratamentos antivirais.

O caso envolveu um homem cisgênero negro, de 37 anos, com imunossupressão grave (CD4 de 36 células/mm³) e carga viral de 8.080 cópias/mL. Apesar do uso de Tecovirimat e terapia antirretroviral combinada, o paciente apresentou recidivas sucessivas e detecção contínua do vírus, comprovadas por testes de PCR e sequenciamento genético.

“Esse achado reforça a necessidade de protocolos terapêuticos específicos para populações imunossuprimidas e do monitoramento rigoroso de casos de persistência viral”, explicou Maria Felipe.

Realizado em parceria com o Instituto Adolfo Lutz, o estudo traz contribuições inéditas sobre a interação entre o HIV e infecções virais emergentes, apontando novos caminhos para o manejo clínico de pessoas com imunossupressão grave.

“É uma oportunidade incrível de mostrar nossos trabalhos diários para o mundo. Isso eleva nossa vontade de continuar construindo dentro da pesquisa”, declarou a médica.

Redes sociais como aliadas na prevenção ao HIV

O jornalista e coordenador da área de Educação Comunitária da Casa da Pesquisa, Vinícius Francisco, apresenta o estudo “O uso de redes sociais como ferramenta de recrutamento para a prevenção combinada do HIV e ISTs”, desenvolvido em parceria com o infectologista Dr. Lucas Rocker.

A pesquisa analisou o impacto de campanhas digitais realizadas entre setembro de 2022 e novembro de 2023, utilizando o Instagram, Facebook e um aplicativo de relacionamentos para divulgar ações de testagem, PrEP e aconselhamento em ISTs.

O resultado foi expressivo: 1.726 pessoas preencheram o formulário de interesse, das quais 365 foram consideradas elegíveis e 202 compareceram às consultas presenciais. A maioria dos participantes eram homens cisgêneros que fazem sexo com homens (93%), seguidos por mulheres trans (3%), homens trans (3%) e pessoas não binárias (1%).

“As redes sociais mostraram grande impacto para engajar a população de homens gays e bissexuais. No entanto, ainda não conseguimos alcançar de forma efetiva a população trans, que segue enfrentando barreiras relacionadas ao estigma e aos determinantes sociais de saúde”, destaca Vinícius.

 

O estudo reforça a importância de políticas públicas que ampliem o acesso à prevenção combinada, garantindo equidade e inclusão digital na promoção da saúde.

Em diferentes perspectivas — epidemiológica, comunitária e clínica —, os estudos apresentados no EACS 2025 revelam um Brasil que produz ciência de ponta, enfrenta desigualdades e aposta na inclusão como caminho para o fim da aids.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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