“É uma oportunidade para visibilizar as realidades e as necessidades do Sul Global. Espero que sua liderança contribua para colocar as mulheres no centro da resposta ao HIV”: ativistas falam sobre suas expectativas em relação a uma cientista brasileira ocupar a presidência da IAS

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Uma pessoa elegante, sensível, séria, inteligente e conectada às transformações que o mundo produz e propõe. Sempre presta atenção aos seus interlocutores. Olha nos olhos e parece decifrar o que eles querem dizer. Recebe e conversa com muitas pessoas, principalmente neste período que antecede a Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro.

Simpática e afável, tem bom humor e respostas rápidas. Posiciona-se com clareza e argumenta com a autoridade que o conhecimento, conquistado ao longo de anos de estudo e experiência, lhe conferiu. Muitos consideram que sua excelência, seu rigor científico e seu olhar humanizado para as questões da saúde estão entre seus maiores atributos.

Cursou a Universidade Federal Fluminense (UFF), onde se formou em Medicina em 1985. Concluiu o mestrado e o doutorado em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após concluir sua formação acadêmica, passou a atuar na saúde pública e especializou-se em HIV/aids no Brasil, participando do desenvolvimento de estratégias eficazes para o tratamento e a prevenção da infecção. Também participou de inúmeras publicações científicas e conferências internacionais sobre a pandemia em diferentes partes do mundo.

Atualmente, é pesquisadora-chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Recentemente, foi homenageada com o Prêmio Christophe Mérieux 2026 por suas pesquisas pioneiras em HIV, infecções sexualmente transmissíveis e infecções emergentes na América Latina.

Neste ano, a Dra. Beatriz Grinsztejn preside, no Rio de Janeiro, a 26ª Conferência Internacional sobre a Aids, organizada pela International AIDS Society (IAS). O evento reunirá representantes de 93 países, cerca de 700 bolsistas de diferentes nacionalidades e aproximadamente 12 mil participantes.

É a primeira vez que uma mulher latino-americana preside a International AIDS Society (IAS), e também será a primeira vez que a Conferência Internacional de Aids será realizada no Brasil. A Agência Aids quis saber quais são as expectativas em relação ao enfrentamento da pandemia entre as mulheres, na região e no mundo, diante desse fato inédito. Conversamos com mulheres ativistas que vivem com HIV e dedicam suas vidas a ações de prevenção, cuidado e acolhimento.

Renata Souza, integrante do MNCP no Conselho Nacional de Saúde:

“Acho que esse é um momento histórico que vai muito além do simbolismo.Ver uma mulher brasileira e latino-americana presidindo um congresso da dimensão da IAS, realizado no nosso país, é uma oportunidade para dar mais visibilidade às realidades e às necessidades do Sul Global. Espero que ela contribua para fortalecer políticas públicas baseadas na ciência, nos direitos humanos e na equidade, garantindo que as mulheres, especialmente as que vivem com HIV, sejam reconhecidas não apenas como um grupo vulnerável, mas como protagonistas na construção das respostas à epidemia.
Tenho a expectativa de que esse momento deixe um legado concreto para a prevenção, o tratamento, o enfrentamento do estigma e a melhoria da qualidade de vida das mulheres em todo o mundo.”

Fabiana Oliveira,Secretaria de Comunicação do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP):

“Como ativista, vejo esse momento como a quebra de mais uma barreira histórica. A presença da Dra Beatriz Grinsztejn na presidência da IAS reafirma que as mulheres pertencem aos espaços de poder, de liderança, de decisão e produção de conhecimento.
Minha expectativa é que sua liderança contribua para colocar as mulheres no centro da resposta ao HIV, não apenas como usuárias dos serviços de saúde, mas também como prioridade nas pesquisas científicas. Durante muito tempo, os estudos sobre HIV tiveram como referência predominantemente corpos masculinos, deixando lacunas importantes sobre as especificidades das mulheres. Precisamos de uma ciência que considere nossos corpos, nossos ciclos de vida e nossas diferentes realidades, para que as políticas públicas, a prevenção, o diagnóstico, o tratamento e o cuidado integral sejam cada vez mais equitativos e efetivos. Aproveito para convidar todas as pessoas que participarão da IAS 2026 a visitarem o estande do Movimento Brasileiro de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS na Global Village. O Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas, junto às demais redes que compõem o movimento brasileiro, preparou uma programação diversa, com rodas de conversa, debates, apresentações culturais e atividades interativas. Será um espaço de acolhimento, troca de experiências, incidência política e fortalecimento da participação social. Esperamos vocês para construirmos, juntos e juntas, uma resposta ao HIV cada vez mais baseada nos direitos humanos, na ciência e no protagonismo das pessoas vivendo com HIV. plenamente garantidos.”

Jenice Pizão, professora aposentada, integrante do Movimento das Cidadãs:

“Sem dúvida nenhuma é um impacto muito grande que teremos no Brasil uma Conferência internacional de Aids e quem preside essa Conferência é uma mulher , infectologista, com uma bagagem cultural e experiência vasta . Isso é um orgulho só e principalmente na América Latina aonde a gente vê que silenciosamente a epidemia está se alastrando na América Latina e Caribe. A gente vê na África, por exemplo, aonde os investimentos para diagnóstico ,tratamento foram cortados pelos Estados Unidos e pelas Agências Internacionais que não conseguem mais trabalhar lá por falta de financiamentos. A gente está vendo que a epidemia de aids está crescendo e cresce muito o dobro principalmente entre as mulheres porque nós temos mulheres, nós temos suas crianças Na mulher a epidemia de aids ela tem outro aspecto muito mais cruel não só pela doença que sem medicamento mas também por outras questões como desigualdades de gênero que faz com que a mulher seja uma figura onde os efeitos nocivos desse crescimento de forma mais contundente e sofrida. Então quando a gente vê que temos uma Conferência de aids no Brasil com uma mulher representando a
presidência sendo a presidência dessa Conferência nos enche de esperança .A gente precisa novamente colocar os holofotes nessa epidemia Se a gente pensa que ninguém mais está se infectando que os antirretrovirais estão baratos ,quase de graça ,a gente esquece vários aspectos .As pessoas estão sim se infectando : homens e mulheres as pessoas estão sim precisando de medicamentos novos . Nós temos medicamentos de 10 anos atrás .Medicamentos difíceis de tomar principalmente se o estigma continuar fazendo suas suas interfaces nocivas que façam com que a pessoa abandone o tratamento de medo da discriminação pelo preconceito .Então a questão de medicamentos mais modernos deve ser olhada para que eles sejam disponibilizados no SUS com preços adequados para que cheguem até as pessoas que se infectaram.”

Silvia Aloia, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas: 

“Mais do que um fato histórico, esse momento representa uma oportunidade de mudar prioridades. Pela primeira vez, uma mulher brasileira e latino-americana preside um Congresso Internacional de Aids realizado no nosso país. Isso tem um significado muito profundo para todas nós que, há décadas, construímos a resposta à epidemia a partir dos territórios, dos movimentos sociais, da ciência e da defesa intransigente dos direitos humanos.

Esse marco acontece justamente em um dos momentos mais desafiadores da resposta global ao HIV. Vivemos um cenário de desfinanciamento internacional, de redução de recursos para programas de prevenção, tratamento e pesquisa, e de ameaças concretas às políticas baseadas em direitos humanos. Em um contexto como esse, lideranças comprometidas com a equidade tornam-se ainda mais necessárias para reafirmar que enfrentar o HIV não é apenas uma questão biomédica, mas também de justiça social, de combate às desigualdades e de defesa da vida.

Minha expectativa é que essa liderança contribua para colocar definitivamente as mulheres no centro da resposta global ao HIV. Ainda convivemos com profundas desigualdades: mulheres cis, mulheres trans, mulheres negras, indígenas, migrantes, trabalhadoras do sexo e mulheres vivendo com HIV continuam sendo sub-representadas nas pesquisas clínicas, têm acesso mais tardio às novas tecnologias de prevenção e tratamento e enfrentam violência, racismo, pobreza, estigma e discriminação, fatores que aumentam sua vulnerabilidade e dificultam o acesso ao cuidado. Precisamos garantir que as novas tecnologias — como a PrEP de longa duração, o lenacapavir e outras inovações que estão chegando — sejam desenvolvidas, avaliadas e incorporadas considerando as necessidades das mulheres, e não apenas reproduzindo desigualdades históricas.

Também espero que a voz da América Latina seja ouvida com mais força. Nossa região acumulou experiências reconhecidas mundialmente na construção de sistemas públicos de saúde, na participação social e na defesa do acesso universal ao tratamento. Ao mesmo tempo, convivemos com profundas desigualdades sociais e de gênero que ainda determinam quem consegue acessar a prevenção, quem recebe um diagnóstico oportuno e quem permanece excluída dos serviços de saúde.

Ter uma mulher brasileira e latino-americana presidindo este Congresso Internacional envia uma mensagem poderosa ao mundo: não será possível controlar a epidemia sem ouvir as mulheres e sem enfrentar as desigualdades que atravessam suas vidas. Espero que esse congresso deixe como legado uma resposta global mais inclusiva, mais sustentável e mais comprometida com os direitos humanos, em que as mulheres deixem de ser vistas como um grupo secundário e passem a ocupar, definitivamente, o lugar de protagonistas na ciência, nas políticas públicas e na tomada de decisões.”

Micaela Carolina Cyrino, arte-educadora e ativista:

“Eu espero que esse marco represente mais do que um símbolo de representatividade: que ele influencie prioridades, políticas e investimentos concretos para as mulheres na resposta ao HIV. E que fortaleça uma resposta ao HIV mais comprometida com as necessidades das mulheres em todas as etapas da vida. Isso inclui dar maior visibilidade a pautas que historicamente receberam pouca atenção, como a amamentação no contexto do HIV, a transmissão vertical, os direitos reprodutivos, o planejamento da maternidade e o cuidado com mulheres que envelhecem vivendo com HIV. A liderança de uma mulher brasileira e latino-americana pode contribuir para que essas questões sejam discutidas a partir das realidades do Sul Global, considerando evidências científicas, direitos humanos e as experiências das próprias mulheres que vivem com HIV.”

Tathiana Aquino de Araújo, Secretária Nacional do Brasil da Rede Latino-Americana de pessoas Trans e Presidenta da Rede Transbrasil

Ter uma mulher na presidência de um encontro tão importante para a saúde pública mostra que a sapiência e a capacidade de nós mulheres está além do que a sociedade durante anos, e a conjuntura nos empurrou: de não estarmos ainda representadas de forma digna como estamos vendo neste momento em diversos outros espaços de força política. A situação hoje do movimento social e de nossa comunidade de mulheres travestis e transexuais ,é que esse encontro ainda é uma dos que mais interessa uma população que ainda continua sem alternativas é claras que a política pública de saúde de prevenção chegue e de forma rápida e com um olhar dentro das especificidades desse público e nós infelizmente temos dados que mostram que ainda não aderimos a Prep e Pep . Somos uma população que nos próprios dados do Ministério da Saúde estamos em desvantagem na na falta de adesão a essa política também nas políticas de prevenção e diagnóstico .hepatites virais. Ainda precisamos visibilizar que a população das travestis e transexuais foram historicamente afastadas dos serviços sociais pela transfobia, pela estrutura machista. Isso tem tudo a ver no momento ímpar onde temos que pensar em todas as mulheres nesse congresso inclusive aqui ainda infelizmente seguem se infectando pelo HIV no nosso país.

Evalcilene Santos, mulher afro-indígena,integrante do MNCP e vice-presidennte da Pré Conferência Internacional dos Povos Indígenas sobre HIV e aids que acontecerá em 24 e 25 de julho no Rio

Estar em espaços de decisão, ciência e incidência política é uma conquista que precisa ser ocupada por cada vez mais mulheres. Ver uma mulher latino-americana e brasileira presidindo um Congresso Internacional nos fortalece, nos inspira e reafirma que nossas vozes têm lugar nos espaços onde o futuro da resposta ao HIV e à aids está sendo construído. E essa conquista ganha ainda mais significado por acontecer no Brasil, um país onde tantas mulheres extraordinárias estiveram e continuam à frente das maiores lutas em defesa da vida, da saúde e dos direitos humanos.

A realização da Conferência Internacional sobre AIDS no Rio de Janeiro renova nossa esperança e traz grandes expectativas. Entre todas elas, há uma que ecoa em nossos corações: a busca pela cura. Não podemos esquecer que foram as mulheres, ao lado de tantos movimentos sociais, que protagonizaram a luta para garantir o acesso universal aos medicamentos no Brasil. Mesmo tendo sido, por muito tempo, invisibilizadas na resposta à epidemia, seguimos firmes, demonstrando ao mundo nossa competência, coragem e compromisso.

Redação Agência Aids

Conheça mais:

www.mncp.org.br
www.iasociety.org

* A Agência de Notícias da Aids vai cobri a 26ª Conferência Internacional de Aids com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.

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