A aprovação do lenacapavir injetável para profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi recebida com esperança, entusiasmo e, ao mesmo tempo, com um senso de urgência entre ativistas da luta contra a aids em todo o Brasil. Para o movimento social, a autorização do uso do medicamento é apenas a primeira etapa de um caminho que ainda passa por negociações de preço, análise da Conitec e, sobretudo, pela garantia de que a tecnologia chegue às populações mais vulnerabilizadas por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). “É um momento histórico para as pessoas com HIV no Brasil, mas agora é fundamental que trabalhemos juntos para garantir que o lenacapavir seja acessível a todos, independentemente da situação financeira. A luta pelo acesso à saúde é uma luta de todos”, afirma Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova.
Na mesma direção, representantes da sociedade civil alertam que o país já viveu outras vezes a frustração de ver tecnologias inovadoras esbarrarem em preços abusivos e em processos lentos de incorporação. Para Renata Souza, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas no Conselho Nacional de Saúde, a decisão regulatória precisa vir acompanhada de responsabilidade social. “A aprovação é um passo importante, mas ainda insuficiente para garantir acesso real à população que mais precisa. É essencial transparência no preço, negociação firme com a indústria e prioridade na análise pela Conitec, considerando equidade e impacto epidemiológico, e não apenas custo-efetividade”, defende.
A Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids) reforça que a PrEP de longa duração já está na agenda prioritária do movimento, mas avalia que o cenário é desafiador. Segundo Carla Almeida, a estratégia de licenciamento adotada pela indústria farmacêutica e os altos custos podem se tornar barreiras concretas para a incorporação no SUS.
Do Norte do país, o alerta ganha contornos ainda mais urgentes. Para Janailson Lobo Giron, do Fórum de ONGs/Aids do Pará, o lenacapavir pode ser um divisor de águas para populações ribeirinhas, indígenas e periféricas, onde a adesão diária à PrEP oral é dificultada por distâncias e barreiras de acesso aos serviços de saúde.
O lenacapavir é um antirretroviral de longa duração aplicado por injeção apenas duas vezes ao ano, com estudos que apontam eficácia próxima de 100% na prevenção da infecção pelo HIV quando utilizado como PrEP. A tecnologia representa uma mudança significativa em relação à PrEP oral diária, especialmente para pessoas que enfrentam dificuldades de adesão ao uso contínuo de comprimidos, seja por barreiras de acesso aos serviços de saúde, estigma, rotina de trabalho ou contextos de maior vulnerabilidade social.
Confira a seguir o que dizem os ativistas:
Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova:
“A aprovação do lenacapavir pela Anvisa é um avanço importante para a prevenção do HIV no Brasil. Do ponto de vista do ativismo, é fundamental que essa tecnologia seja acessível a todos, especialmente aos mais vulneráveis. Alguns pontos que considero essenciais são: Preço justo — é crucial que o preço do lenacapavir seja negociado de forma a garantir a acessibilidade e a sustentabilidade do sistema de saúde. A Anvisa deve trabalhar para obter um preço que permita a incorporação no SUS. A incorporação do lenacapavir no SUS é fundamental para garantir que todas as pessoas tenham acesso a essa tecnologia de prevenção, independentemente de sua situação financeira. A Conitec deve avaliar a tecnologia de forma transparente e baseada em evidências, considerando não apenas a eficácia, mas também a custo-efetividade e o impacto na saúde pública. É importante educar os profissionais de saúde e as pessoas sobre os benefícios e os riscos do lenacapavir, para garantir que seja utilizado de forma segura e eficaz. Para que essa tecnologia não fique restrita a poucos, é fundamental que haja uma mobilização conjunta de ativistas, profissionais de saúde, governo e sociedade para garantir que o lenacapavir seja acessível e incorporado no SUS. É um momento histórico na luta contra a Aids no Brasil. Agora, é fundamental que trabalhemos juntos para garantir que o lenacapavir seja acessível a todos, independentemente de sua situação financeira. A luta pelo acesso à saúde é uma luta de todos. Viva a Vida!”
Renata Souza, representante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas no Conselho Nacional de Saúde:
“A aprovação do Lenacapavir pela Anvisa é um passo importante, mas ainda insuficiente para garantir acesso real à população que mais precisa. No Brasil, já vimos outras tecnologias inovadoras chegarem com grande expectativa e permanecerem inacessíveis por anos devido a preços abusivos e à lentidão no processo de incorporação no SUS. A decisão regulatória precisa ser acompanhada de responsabilidade social e compromisso com o direito à saúde. Para que o Lenacapavir não se torne mais uma tecnologia restrita a poucos, é essencial transparência no preço, negociação firme com a indústria e prioridade na análise pela CONITEC, considerando não apenas custo-efetividade, mas também equidade, impacto epidemiológico e a realidade das populações mais vulnerabilizadas pelo HIV. O SUS tem histórico e capacidade de liderar respostas inovadoras à epidemia, mas isso exige vontade política, participação social ativa e o reconhecimento de que acesso a novas tecnologias de prevenção e tratamento não é privilégio, é direito.”
Carla Almeida, da Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids):
“A incorporação de novos fármacos, entre eles a PrEP de longa duração, está na agenda prioritária da Anaids. A concessão de registro ao lenacapavir pela Anvisa é a primeira etapa no processo de incorporação; ainda teremos uma longa jornada e muitos desafios para, de fato, termos a tecnologia incorporada e disponível no SUS. O cenário não é favorável: a Gilead licenciou voluntariamente a fabricação do medicamento para indústrias de um conjunto de países, dentre os quais o Brasil não está incluído, e os licenciados estão proibidos de comercializar o medicamento para países fora dessa lista. Nós temos acompanhado e debatido de forma reiterada essa questão com o Ministério da Saúde, e as perspectivas não são muito promissoras, especialmente pelos custos abusivos praticados pela indústria farmacêutica. Neste debate, nós temos reafirmado que o acesso a novas estratégias e tecnologias de prevenção é um direito e, nesse sentido, o governo tem que garantir o acesso à PrEP de longa duração, especialmente ao lenacapavir, que tem se destacado devido às evidências incontestáveis de impacto na redução de novas infecções pelo HIV, inclusive entre mulheres cisgêneras e populações mais vulnerabilizadas. Precisamos retomar as discussões acerca da declaração de interesse público e do licenciamento compulsório de fármacos estratégicos, como o lenacapavir, que impactam diretamente na qualidade de vida das populações mais vulnerabilizadas. Uma medicação de uso semestral, com eficácia próxima de 100%, amplia a autonomia das pessoas e deve ser compreendida e implementada como uma estratégia de prevenção baseada em direitos, ciência e justiça social. O Brasil se destacou no cenário internacional pela ousadia e coragem em construir políticas inovadoras e arrojadas na resposta à epidemia de HIV e aids, ancoradas em evidências científicas, garantia de direitos e enfrentamento das desigualdades sociais. Estamos atentos à dimensão política e econômica e mobilizados para que tenhamos não só a incorporação, mas a garantia do acesso universal ao lenacapavir.”
Janailson Lobo Giron, diretor de Comunicação da Coalizão + Brasil e representante estadual suplente da RNP+ Brasil – Núcleo Pará:
“A aprovação do lenacapavir pela Anvisa representa uma esperança revolucionária para o controle do HIV no Brasil, mas sua chegada à região amazônica exige que a ciência rompa as barreiras da desigualdade geográfica e do custo proibitivo. No Pará, onde as distâncias continentais e os desafios logísticos de acesso às unidades de saúde dificultam a adesão diária à PrEP oral, uma injeção semestral poderia ser o diferencial estratégico para proteger populações ribeirinhas, indígenas e periféricas, transformando a prevenção em uma realidade acessível para quem vive isolado pelos rios e pela negligência estatal. No entanto, para que essa tecnologia não se torne um privilégio distante dos grandes centros, é imperativo que o debate na Conitec priorize a justiça social e o preço justo, garantindo que o brilho da inovação chegue com a mesma força às farmácias do SUS em Belém e no interior da Amazônia, sob pena de aprofundarmos ainda mais o abismo sanitário no Norte do país.”
João Geraldo Neto, do Instituto Multiverso:
“A aprovação do lenacapavir pela Anvisa é, sem dúvida, um marco importante e traz esperança real de uma revolução no tratamento do HIV, especialmente por propor uma nova lógica de cuidado, com menos tomadas e maior facilidade de adesão. Mas é fundamental ter clareza de que, até aqui, quase todo o movimento foi puxado pela indústria farmacêutica, que detém a tecnologia e atua a partir de interesses econômicos. Particularmente, ainda não vi um esforço concreto do Estado brasileiro para planejar a incorporação dessa tecnologia como política pública. Para que o lenacapavir não fique restrito a poucas pessoas, é essencial que o Ministério da Saúde assuma um papel ativo nas negociações de preço, discuta a incorporação na Conitec com transparência e pense desde já em estratégias de acesso amplo e sustentável. Sei que, num primeiro momento, o medicamento provavelmente não estará disponível para todos, mas essa priorização precisa ser feita com critérios justos, considerando especialmente populações que enfrentam mais dificuldades de adesão ao tratamento, como pessoas em situação de rua, idosos, povos indígenas e adolescentes. Sem esse compromisso público, corremos o risco de ter uma inovação revolucionária no papel, mas inacessível na prática.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dicas de entrevista:
Instituto Vida Nova
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Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas:
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ANAIDS
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Janailson Lobo Giron
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Instituto Multiverso
Site: www.institutomultiverso.org



