“É só o começo”: Jovem transforma o diagnóstico de HIV em força para sonhar e lutar por outros jovens

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O que faz um jovem seguir acreditando nos próprios sonhos depois de um diagnóstico de HIV? Para Robson Lucas Oliveira Ferreira, de 27 anos, a resposta passa por acolhimento, música e luta coletiva. Estudante de Gestão em Turismo e morador da Zona Sul de São Paulo, ele descobriu viver com HIV em 2019, no CTA de Guaianases, quando buscou atendimento para investigar sintomas de sífilis.

De lá para cá, o que poderia ter sido uma sentença de medo virou combustível para novos projetos, terapia, militância e a certeza de que o futuro está apenas começando.

O impacto do diagnóstico

Robson tinha apenas 21 anos quando recebeu a notícia. Foi um amigo próximo, Gabriel, que insistiu para que ele fosse fazer exames. O resultado veio acompanhado de acolhimento no serviço de saúde, mas a lembrança do momento ainda dói.

“Por fora eu era forte, mas por dentro estava destruído. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo.”

A revelação abalou sua relação com a família. Uma tia contou à mãe antes mesmo que ele tivesse tempo de conversar. O irmão, inicialmente duro, trouxe depois um gesto de acolhimento inesperado: contou que o pai dele também havia vivido com HIV.

“Ali percebi que eu não estava sozinho, que havia uma história antes de mim”, recorda.

Terapia e medicamento: rotina de autocuidado

Nos primeiros meses, Robson sentiu o peso de manter o tratamento. As dúvidas, o medo da rejeição e o preconceito interno quase o afastaram do cuidado. Mas a terapia e a disciplina com os antirretrovirais se tornaram uma virada de chave:

“A terapia e a rotina do tratamento me colocaram de novo no eixo. Hoje sigo com tudo em dia e em paz comigo mesmo.”

O acompanhamento psicológico ajudou não só a aceitar o diagnóstico, mas também a enxergar possibilidades de vida plena. É essa soma de remédio e escuta que o fortalece diariamente.

Música, Ney e Cazuza: a arte como resistência

Robson encontrou também na música um espaço de refúgio. Ele canta desde jovem e se inspira em artistas que, como ele, transformaram dor em arte. Ídolos como Ney Matogrosso e Cazuza são referência:

“A música me ajudou a não perder a sensibilidade. Ney e Cazuza me mostraram que é possível ser intenso, vulnerável e forte ao mesmo tempo.”

Nos ensaios, nas apresentações ou simplesmente cantando para si, Robson sente que a música é um lugar onde o HIV não limita: pelo contrário, amplia sua capacidade de se expressar.

Faculdade e projetos de vida

Mesmo com todos os desafios, Robson nunca deixou de sonhar grande. Cursa Gestão em Turismo, área onde já trabalha desde os 16 anos, mas planeja migrar para Relações Públicas para ampliar horizontes profissionais. Entre seus objetivos estão: tirar a CNH, fazer a primeira viagem internacional — o passaporte já está pronto — e construir um relacionamento sólido e duradouro.

“Quero viver o amor sem precisar esconder quem eu sou. Um relacionamento em que haja respeito, parceria e verdade.”

Esses projetos, mais do que metas pessoais, representam o desejo de um jovem que se recusa a deixar o diagnóstico ditar os limites de sua vida.

O ativismo na Rede de Jovens

A grande guinada veio com o ativismo. Durante a pandemia, Robson conheceu a Rede de Jovens SP+. O primeiro encontro presencial foi um marco: ao lado de outros jovens vivendo com HIV, ele se sentiu, de fato, abraçado.

“A Rede é acolhimento, abraço e escuta. Quando a gente se encontra, a solidão perde força.”

De participante, Robson passou a liderança. Hoje é coordenador da Rede, representando jovens em encontros estaduais e nacionais, e foi reeleito para continuar no cargo por mais dois anos. No espaço, ele participa de formações, rodas de arte-terapia, debates sobre saúde mental e direitos. O ativismo virou não só um compromisso, mas também parte essencial de quem ele é.

Um horizonte aberto

Robson acredita que cada sonho realizado é uma forma de provar que o HIV não define quem ele é. Seja na música, na faculdade, na construção de um relacionamento saudável ou na militância, ele carrega a mensagem de que a vida não para com o diagnóstico.

“Quero alcançar mais jovens, ser uma voz e um rosto que digam: você não está só.”

Com a mesma força com que enfrenta o estigma e os desafios, ele olha para frente.

“Para quem acabou de receber o diagnóstico: é só o começo. Não desista agora.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Rede de Jovens SP+

Instagram: rededejovenssp

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