“É muito importante que o governo esteja aberto e ouça a população e os grupos mais vulneráveis”, diz a dra. Mariângela Simão, secretária de Vigilância em Saúde

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Em entrevista exclusiva, dra. Mariângela Batista Galvão Simão defende escuta ativa, participação social e equidade no acesso à saúde: “Sem esperança, não dá”

Não é apenas mais uma gestora pública falando sobre políticas de saúde. É uma das vozes brasileiras com maior autoridade internacional na resposta a epidemias — e hoje, à frente de uma das áreas mais estratégicas do Estado.

Secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, a médica e sanitarista Mariângela Batista Galvão Simão — aqui tratada como dra. Mariângela — carrega no currículo a experiência de quem esteve no centro das decisões globais sobre acesso a medicamentos, vacinas e resposta ao HIV, com passagens pela Organização Mundial da Saúde e pelo Unaids. Mas, na entrevista exclusiva à Agência Aids, o tom está longe da formalidade diplomática: é direto, crítico e, em muitos momentos, de alerta.

Diante de um cenário internacional marcado pelo avanço de forças conservadoras, pelo enfraquecimento de consensos multilaterais e pela persistência brutal das desigualdades no acesso à saúde, a dra. Mariângela não hesita: o mundo falhou — e falhou feio — ao demorar mais de uma década para garantir acesso global a medicamentos que salvavam vidas na epidemia de HIV.

Ao mesmo tempo, a dra. Mariângela aponta que o Brasil construiu uma resposta reconhecida internacionalmente, mas que não está imune a retrocessos. Em um ambiente político instável, com disputas de valores e ameaças à ciência, os avanços não estão garantidos — e dependem, mais do que nunca, de participação social ativa e permanente.

Perfil de Mariângela Galvão Simão, médica brasileira diretora da OMS

A entrevista foi realizada em São Paulo, durante a 8ª reunião da Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais (CAMS), espaço que simboliza justamente aquilo que a Dra. Mariângela defende como central: escuta ativa, diálogo e pressão da sociedade civil como motores das políticas públicas.

Na conversa conduzida pela diretora da Agência Aids, Roseli Tardelli, a dra. Mariângela detalha os desafios contemporâneos da resposta ao HIV/aids, fala sobre a complexidade crescente da epidemia, critica visões puramente tecnicistas e reforça que saúde pública não se faz apenas com insumos — se faz com acesso real, equidade e presença do Estado onde as pessoas estão.

Confira a seguir:

Cidade de São Paulo, sediando a 8ª Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais em HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites e ISTs. A dra. Mariângela Simão aqui em São Paulo, participando da mesa de abertura da 8ª CAMS. E a gente tem umas questões para trazer para ela. Primeiro, acho que eu tenho que fazer aqui um depoimento.  Nos conhecemos há muito tempo. Quando nós fundamos a Agência, a dra. Mariângela era diretora do então Programa de Aids. E sempre que nós tivemos uma ação de conversa, o Departamento respondeu todas as questões que o movimento social trazia e questionava. Acho que isso é muito importante, essa transparência do governo quando a gente fala de um assunto tão sério como é a pandemia da aids, que as pessoas acham, dra. Mariângela, que está resolvida, mas a gente sabe que não está. Então, muito obrigada pela sua parceria conosco sempre e muito obrigada por responder todas as questões que o movimento trouxe no transcorrer desse tempo todo.

Agência Aids: A senhora falou bastante na sua abertura sobre o governo estar aberto para uma escuta ativa. Qual a importância dessa escuta ativa na formulação de políticas públicas?

Dr Mariângela Batista Galvão Simão,Dra. Mariângela Simão: Veja, é muito importante que o governo esteja aberto e ouça a população. Ouça os grupos, provavelmente aqueles grupos que são mais vulneráveis. Tem muita coisa nos determinantes sociais da saúde que afetam a saúde das pessoas. E não basta apenas a gente ter uma visão tecnicista.

Eu penso, pessoalmente, muito que as pessoas têm o direito de ter acesso — aquela questão da equidade — aos bens e serviços de saúde que precisam, na hora que precisam. Não é daqui a um ano, daqui a dois anos.

Então, não basta ter só uma visão tecnicista. Você tem que ter também uma visão de ouvir as pessoas, porque elas têm problemas que podem ser resolvidos de outras formas. Não são abordagens técnicas que resolvem todos os problemas.

Eu acho que é um equilíbrio entre garantir que haja acesso às tecnologias que vão melhorar a qualidade de vida, que vão fazer com que as pessoas vivam melhor e mais tempo, e ouvir as pessoas para saber o que elas realmente necessitam.

Muitas vezes, você coloca, por exemplo, uma vacina em um determinado local, mas daí a pessoa tem… o local não abre no horário certo, a mãe não pode levar a criança, ou a pessoa que vive com HIV ou outras doenças infecciosas crônicas — essas crônicas em geral, doenças infecciosas e não infecciosas — o serviço, às vezes, não está aberto. Então, você tem o medicamento, você tem a vacina, está disponível, mas o serviço não está aberto.

Ou seja, é ouvir ativamente o que é a população, o que os grupos pensam acerca do atendimento. É a forma de fazer política pública de uma forma transparente e mais efetiva.

Quando falamos do combate à aids no Brasil — da discriminação, do preconceito e de tudo que as pessoas vivendo com HIV enfrentam há mais de 40 anos — vemos aqui na CAMS pessoas que vivem com HIV há mais de 30 anos, o que é muito significativo. Diante desse cenário, o que podemos esperar do governo na implantação de políticas públicas, especialmente em um ano tão complexo, com eleições, Copa e a IAS no Brasil?

Uma coisa bem clara é que as prioridades de saúde são muitas. E não se restringem àqueles grupos com quem a gente trabalha mais aqui na Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Você tem uma gama de necessidades na população que vai desde, por exemplo, acesso à consulta especializada, que não afeta só as pessoas vivendo com HIV, com hepatite ou com uma dessas doenças infecciosas crônicas — afeta a população como um todo.

Aí o governo entra com o Agora Tem Especialista para auxiliar de uma forma muito heterodoxa. Você ouve, ou eu escuto de gestões anteriores: “ah, mas isso nós já tínhamos planejado fazer”. Não. Não da forma como o governo Lula está fazendo agora.

A mesma coisa com relação ao acesso a outros bens. O HIV é muito protegido porque tem uma lei, é uma política do Estado brasileiro — não deve ser uma política de governo. Mas a gente vê que é além dos antirretrovirais. Não é só antirretrovirais. E como é frágil numa mudança de governo. E um governo negacionista que nega a ciência.

Aqui nessa CAMS foi mencionada a pauta de costumes. Porque a pauta de costumes voltou com uma tensão redobrada na sociedade. Desde o governo passado — mas não é só aqui no Brasil. A pauta de costumes está voltando. O movimento conservador está voltando com uma força extraordinária globalmente.

A gente vê na Assembleia Mundial de Saúde: de repente, onde ficavam dois ou três países falando, hoje se fala em nome de 50, 60 países. Então, nós não estamos vivendo num ambiente muito favorável para algumas coisas.

Mas, por isso, os mecanismos que a gente tem hoje — mecanismos formais de participação social — têm que ser preservados. E não é só uma função do governo.

Numa mudança — que a gente não deseja que aconteça —, quando você tem uma onda mais conservadora ou um governo mais conservador vindo, tem que ter força. O movimento social tem que estar fortalecido para garantir que a gente não retroceda.

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A senhora falou em convergência de objetivos. Como é que a sociedade civil pode apoiar o governo na construção de políticas públicas?

Esse é um ponto super importante. Eu sempre digo que tem uma relação de equilíbrio desequilibrado entre os desejos do movimento social, de partes específicas do movimento social e aquilo que o governo pode incidir sobre.

Então, tem, por exemplo, a intersetorialidade é uma pauta muito complexa. Não é porque se fazia os diversos setores trabalharem em torno do mesmo…

Mas eu diria que nós tivemos avanço, por conta do problema da pandemia do SARS-CoV-2, da Covid-19, nós tivemos avanço, porque se entendeu que alguns problemas são coletivos e têm que ser enfrentados de forma mais intersetorial.

E eu acho que, principalmente não só, mas principalmente por conta do movimento do HIV a gente avançou muito. Porque se tornou, eu te diria assim, um abril picada numa área que a gente não tinha incidência. Não tinha um trabalho do movimento social mais próximo do governo.

Mesmo com a Constituição de 88, com a criação dos conselhos e tudo mais, não é a mesma coisa.

O ministro da Saúde, o dr. Alexandre Padilha, ele fala uma coisa que ele aprendeu aqui na Zona Leste de São Paulo, que governo é que nem cozinhar feijão na panela de pressão. Só trabalha sobre pressão.

Então, é algo assim. Não é bem assim que ele fala, mas é algo assim. Mas isso é um ponto, né? Eu acho que tem que ter essa convergência de objetivos com cada um fazendo o seu papel.

Tem que ser construtiva. Ela não pode ser no embate quando não precisa de embate.

Nós estamos num governo que valoriza o diálogo, que valoriza as políticas baseadas em evidência e então nós precisamos conversar, conversar de forma com respeito, com entendimento das diferentes responsabilidades nesse processo que é a construção do sistema único de saúde do Brasil.

Consolidação, diria que ele está construído, agora a gente tem que consolidar e aprimorar.

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Jornalista adora nota. Uma nota para o mundo quando falamos em saúde no combate à aids?

Eu acho que a resposta global à pandemia da aids foi um ensinamento. Na época da Covid-19, eu estava na Organização Mundial da Saúde e a gente tentou usar as lições aprendidas.

E é por isso que eu digo hoje que tem áreas em que a gente não aprende nada. A questão da inequidade do acesso ao antirretroviral em tempo oportuno, na maior parte do mundo, foi uma lição que a gente não devia esquecer.

Países ricos e países que tinham vontade política, como o Brasil, conseguiram introduzir tecnologias de forma mais tempestiva. Mas o mundo falhou extraordinariamente. Demorou mais de 10 anos para virar uma política global o acesso a medicamentos que salvavam vidas. Então, esse ponto não foi bom.

E a nota?

Na política global, talvez por conta desse passado, valeu uns 6.

Brasil, qual é a nota do Brasil?

Ah, eu acho que o Brasil é 10. Não é só porque eu estou aqui. Acho que é uma construção coletiva. O Brasil ofereceu de forma oportuna. E não resolveu tudo.

Hoje o HIV tem determinação social. Não só no Brasil — em todos os países. Quem enfrenta o HIV hoje são determinados grupos na sociedade. Então, é complexo. O mundo está mais complexo. Mas cada tempo tem a sua complexidade.

Saúde, o que é em uma palavra?

Saúde não é um bem-estar pleno. É que nem felicidade — eu não sei resumir em uma palavra. Mas eu acho que é se sentir bem consigo mesmo e na sociedade em que vive.

Quando a gente fala aids, uma palavra?

Que vem à mente é discriminação, preconceito. Mas também vem a aids como experiência positiva de que é possível. Foi uma catástrofe na vida de muitas pessoas, mas também ensinou muito. Mostrou que é possível, mesmo em condições econômicas difíceis, um país como o Brasil ofertar diagnóstico e tratamento.

Aids, uma palavra. Esperança, luta, resiliência, o quê?

Resiliência, luta e esperança. Sem esperança não dá.

Entre avanços históricos e ameaças contemporâneas, a fala da Dra. Mariângela não deixa dúvidas: a resposta à aids segue sendo um campo de disputa — política, social e científica. E, como ela própria resume, não há caminho possível sem três elementos fundamentais: resiliência, luta — e esperança.

Assista a entrevista:

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

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