DURANTE SEMINÁRIO DE COMUNICAÇÃO EM SÃO PAULO, ATIVISTAS CRITICAM MODELO DE SUBCOMITÊ DA COMISSÃO NACIONAL DE AIDS E PROGRAMA NACIONAL

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22/03/2007 – 19h00

Mulheres de biquini oferecendo camisinhas. Esse teria sido o teor de um cartaz do Programa Nacional de DST/Aids (PN) que nunca entrou em circulação, de acordo com o ativista Paulo Giacomini, da Rede Nacional das Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+). A peça teria sido apresentada, em 2006, aos integrantes do GT de Comunicação, subcomitê da Comissão Nacional de Aids (CNAIDS). Ainda de acordo com Giacomini, uma das representantes do PN, ligada a área de prevenção do órgão, protestou contra o cartaz, que acabaria não sendo utilizado nas campanhas de prevenção promovidas pelo Ministério da Saúde. “A área de prevenção não se entende com a assessoria de comunicação”, criticou o ativista. “Tudo que a gente trabalhou lá [no GT de Comunicação da CNAIDS] não vale nada”, avaliou Paulo Giacomini durante debate realizado na manhã desta quinta-feira (22/03), segundo dia do Seminário de Políticas de Comunicação em Aids (ComunicAids).

Wildney Feres Contrera, que em sua exposição falou sobre “Comunicação e Aids no Brasil”, concordou com a avaliação do paulista Giacomini. “O nosso poder [dentro do GT de Comunicação] é mínimo”, explicou. Durante sua palestra, a ativista do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids de São Paulo (GAPA/SP), afirmou que “a política de comunicação afeta o cotidiano da gente”. “É uma relação de poder”, acrescentou.

“Eu venho batendo de frente com o Ministério da Saúde há anos porque elas [as campanhas de prevenção] se reduzem a carnaval e primeiro de dezembro [Dia Mundial de Luta contra a Aids]”, afirmou. Além disso, na avaliação de Contrera, as peças seriam “autoritárias” porque textos como o já tradicional “use camisinha”, seriam encarados como ordens e não sugestões da conduta sexual mais adequeda com o advento da Aids.

Por fim, Wildney Feres Contrera, do GAPA paulista, disse “ainda” ter dúvidas sobre a eficácia desse tipo de campanha. Na sua avaliação, hoje a Aids é uma doença de “pobres e iletrados”, que não estariam recebendo a mensagem dos cartazes (tipo de campanha que ela usou como exemplo) de forma adequada.

Adlene Andrade, da ONG pernambucana GESTOS (Soropositividade, Comunicação e Gênero), fez uma rápida auto-avaliação dizendo que as entidades do movimento de luta contra a Aids ainda não sabem se comunicar. “A gente fala tanto em comunicação, mas a gente ainda não sabe se comunicar”, avaliou. Pelo lado do governo, a ativista avaliou que “as campanhas não trabalham a questão da vulnerabilidade”. “Não existe uma campanha que ressalte a questão da vulnerabilidade”, disse.

Na mesa (ou painel) de abertura, os palestrantes também criticaram a política de comunicação do governo federal, embora com um enfoque mais amplo. “Eu sou uma critica ferrenha desse governo Lula. É uma política entreguista, igual as anteriores. Ele entregou a TV digital aos japoneses e para a TV Globo”, avaliou Ana Veloso, da ONG nordestina Mulheres do Cabo.

“A comunicação é um campo de ação política”, ressaltou. Em pernambuco, explica a ativista, uma mulher é assassinada “a cada 28 horas na esfera pública e privada”. “Uma situação de calamidade pública”, protesta.

Pela sua experiência à frente da entidade feminista, que luta contra a violência perpretada pelos homens em relação à mulher, ela acredita que é “possível sensibilizar a mídia”. “O diálogo com os meios de comunicação é fundamental. Isso é uma questão de interesse público”, avalia. A comunicação, conclui a ativista, é um “direito humano inalienável”.

Outro dos palestrantes, João Brante (Coletivo Intervozes), defendeu as rádios comunitárias e criticou a idéia do governo Lula de criar uma TV estatal. “Essa TV [idealizada pelo governo federal] tem cárater estatal. Precisamos de um sistema de TV pública, que é diferente de estatal”, explica. Na concepção de Brante, em uma rede de televisão pública haveria independência editorial, o que não ocorreria em empresa de comunicação estatal.

“Se você tem uma finalidade comercial, fique a vontade. Se você falar em rádio comunitário fica se engalfinhando”, explicou João Brante. Na opinião do integrante do Coletivo Intervozes, ONG paulista que atua na área de comunicação, as rádios comunitárias permitem a “diversidade e pluridade” de opinião. “É preciso pensar em um novo marco regulatório, mas também usar os frágeis instrumentos que a gente tem a disposição”, defendeu.

Para ilustrar quais seriam esses “instrumentos”, Brante lembrou do “caso João Kléber”, quando a Rede TV ficou algumas horas fora do ar, em 2005, por causa de uma ação movida por ONGs junto ao Ministério Público paulista. Intitulado “Tarde Quente”, o programa de João Kléber trazia pegadinhas nas quais os alvos eram mulheres e homossexuais. Quadros que foram considerados ofensivos pelas entidades que deram início ao movimento.

No início do segundo painel (ou mesa), o mediador, Paulo Giacomini (Rede Nacional das Pessoas Vivendo com HIV/Aids), justificou a ausência Alexandre Magno, coordenador de comunicação do Programa Nacional de DST/Aids (PN). Ele disse que, por e-mail, Magno explicou que não pôde comparecer ao evento por causa da inundação da sede do PN, o que deixou o órgão incomunicável e, portanto, sem possibilidade de emissão das passagens aéreas.

“Na verdade ele tava cansado de falar sobre a mesma coisa”, acrescentou Giacomini, diante da platéia do Seminário de Políticas de Comunicação em Aids (ComunicAids), que termina amanhã em São Paulo. Giacomini explicou que o gestor público teria falado isso via telefone. Contatado, Alexandre Magno disse que não falou “com Paulo Giacomini, em nenhum momento, sobre o ComunicAids”. “Eu não tinha porque falar com o Paulo Giacomini. Falei apenas com o Veloso [José Carlos Veloso, presidente do GAPA (SP) e organizador do evento dessa semana]”, explicou Magno por telefone.

“Eu não fui porque o programa [Nacional de DST/Aids] ficou ilhado, sem comunicação e, por isso, a passagem não foi emitida”, concluiu o assessor. Contatado, via telefone, Giacomini explicou que Magno teria dito o que foi relatado no páragrafo acima para José Carlos Veloso. De acordo com Veloso, o integrante do governo federal não disse isso para ele. Contudo, o presidente do GAPA paulista admitiu ter ficado a par dessa suposta fala por meio de “outras pessoas”. Indivíduos que falaram isso “em off”, ou seja, em confidência.

Léo Nogueira

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