Duas realidades do HIV entram em campo: Irã enfrenta barreiras culturais e Nova Zelândia aposta na prevenção

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Enquanto o Irã enfrenta desafios relacionados ao preconceito, à baixa testagem e ao acesso limitado à prevenção, a Nova Zelândia registra menos de 100 novos casos por ano e se consolida como uma das referências mundiais no enfrentamento ao HIV

A Copa do Mundo de 2026 é feita de contrastes. Alguns aparecem dentro de campo, entre estilos de jogo, tradições e histórias do futebol. Outros surgem longe dos gramados, refletindo diferentes realidades sociais, culturais e sanitárias.

Nesta segunda-feira (15), Irã e Nova Zelândia entram em campo no SoFi Stadium, em Los Angeles, pela primeira rodada do Grupo G. Enquanto os jogadores disputam a posse de bola, outra realidade chama atenção. Quando o assunto é HIV, os dois países vivem cenários praticamente opostos.

O confronto coloca frente a frente uma nação onde o estigma ainda dificulta o diagnóstico e o monitoramento da epidemia e outra que se tornou referência internacional em prevenção, redução de danos e acesso universal à saúde.

Quando o preconceito dificulta o combate à epidemia

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O Irã possui atualmente cerca de 40 mil pessoas vivendo com HIV, segundo estimativas do Unaids. Embora a prevalência seja relativamente baixa — aproximadamente 0,1% da população entre 15 e 49 anos — especialistas apontam que os números podem não refletir totalmente a realidade.

A principal dificuldade está relacionada ao estigma. Em uma sociedade marcada por fortes normas religiosas e culturais, temas ligados à sexualidade ainda enfrentam barreiras importantes. A discriminação contra populações vulneráveis dificulta a busca por diagnóstico, tratamento e acompanhamento médico.

Os reflexos aparecem nos indicadores. Segundo o Unaids, apenas 62% das pessoas que vivem com HIV no país sabem que vivem com o vírus. Entre elas, apenas 78% estão em tratamento antirretroviral.

A baixa cobertura diagnóstica representa um dos maiores desafios para o controle da epidemia no país.

Uma epidemia que mudou de perfil

Historicamente, a epidemia iraniana esteve associada ao uso de drogas injetáveis. Nas últimas décadas, porém, esse cenário começou a mudar.

Hoje, a maior parte das novas infecções está relacionada à transmissão sexual, acompanhando uma tendência observada em diversas regiões do mundo. Em 2024, o país registrou aproximadamente 2.100 novos diagnósticos de HIV.

Apesar dos avanços no acesso ao tratamento, organizações internacionais alertam que o medo da discriminação continua afastando muitas pessoas dos serviços de saúde.

PrEP ainda não faz parte da política pública

Outro desafio importante é a prevenção. Ao contrário de diversos países que participam da Copa do Mundo de 2026, o Irã ainda não incorporou oficialmente a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) às suas estratégias nacionais.

A medicação pode ser encontrada apenas em clínicas privadas, tornando o acesso restrito para grande parte da população.

A Profilaxia Pós-Exposição (PEP) também está disponível apenas em serviços específicos de aconselhamento e testagem.

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Se o Irã enfrenta obstáculos relacionados ao estigma e ao acesso, a Nova Zelândia apresenta um dos cenários mais positivos do planeta. Com uma população de aproximadamente 5,3 milhões de habitantes, o país registra alguns dos menores índices de novas infecções do mundo.

Em 2025, foram contabilizados apenas 80 novos diagnósticos de HIV em todo o território nacional. O número impressiona porque demonstra o impacto de décadas de investimentos em prevenção, educação em saúde e políticas públicas voltadas para populações vulneráveis.

Atualmente, estima-se que cerca de 4.100 pessoas vivem com HIV no país. Dessas, 87% conhecem seu estado sorológico e têm acesso ao acompanhamento médico especializado.

A força da prevenção combinada

O sucesso neozelandês não aconteceu por acaso. A estratégia adotada pelo país combina testagem regular, acesso universal ao tratamento, programas de prevenção e políticas de redução de danos.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o programa nacional de troca de seringas, criado ainda em 1988. A iniciativa ajudou a impedir que a epidemia avançasse entre usuários de drogas injetáveis, algo que ocorreu em diversos países durante as décadas de 1980 e 1990.

Os resultados permanecem evidentes até hoje. Das 80 novas infecções registradas em 2025, apenas três ocorreram entre pessoas que utilizam drogas injetáveis.

Direitos humanos também fazem parte da prevenção

A Nova Zelândia também se tornou referência por adotar uma abordagem baseada em direitos humanos. Em 2021, o país eliminou todas as restrições migratórias relacionadas ao HIV.

A decisão permitiu que pessoas vivendo com o vírus deixassem de enfrentar obstáculos para obtenção de vistos de residência e permanência.

A medida foi comemorada pelo Unaids e por organizações internacionais que defendem o fim das barreiras impostas a pessoas vivendo com HIV ao redor do mundo.

O jogo fora das quatro linhas

Quando a bola rolar em Los Angeles, Irã e Nova Zelândia terão objetivos semelhantes: começar a Copa do Mundo com uma vitória. Fora dos gramados, porém, os desafios são muito diferentes.

O Irã busca superar barreiras culturais, ampliar a testagem e reduzir o impacto do estigma sobre a epidemia.

A Nova Zelândia trabalha para consolidar os resultados alcançados e se aproximar cada vez mais da meta de eliminar novas transmissões.

O confronto entre as duas seleções mostra que a luta contra o HIV não depende apenas de medicamentos ou tecnologia. Ela também passa por educação, acesso à informação, combate à discriminação e respeito aos direitos humanos.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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