Dr. Jarbas Barbosa revela negociações da OPAS para ampliar acesso ao lenacapavir e novas tecnologias contra o HIV

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Diretor da OPAS defende produção regional e compras conjuntas para reduzir preços, afirma que novas tecnologias não podem levar anos para chegar à população e dá nota 9 à resposta brasileira ao HIV

O avanço de novas tecnologias de prevenção e tratamento colocou o mundo mais perto de acabar com a aids como ameaça à saúde pública, mas uma questão decisiva permanece sem resposta: quem terá acesso a essas inovações e quanto tempo será necessário para que elas cheguem às populações mais afetadas pelo HIV?

Para o Dr. Jarbas Barbosa, diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), não é mais suficiente celebrar os avanços científicos. É preciso transformar inovação em acesso — e rapidamente. Em entrevista à Agência Aids durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro, ele afirmou que governos, organismos internacionais, comunidades e indústria farmacêutica precisam encontrar mecanismos para impedir que medicamentos capazes de mudar os rumos da epidemia permaneçam inacessíveis por causa dos preços.

“Nós não podemos ter uma tecnologia que pode salvar vidas e esperar anos até que ela esteja disponível”, afirmou.

Na entrevista, o Dr. Jarbas Barbosa revelou que a OPAS está em negociação com a Gilead em torno do lenacapavir, medicamento de longa duração que pode ser utilizado na prevenção do HIV com aplicação a cada seis meses. A organização também mantém conversas com a GSK e, segundo ele, começará negociações com a Merck sobre a nova PrEP oral de administração mensal.

Uma das estratégias defendidas pelo diretor da OPAS é usar o poder de compra conjunto dos países das Américas para negociar preços mais baixos. Segundo ele, somente no ano passado o mecanismo regional movimentou mais de US$ 900 milhões na aquisição de medicamentos, vacinas, testes diagnósticos e equipamentos médicos. Ao reunir a demanda de diferentes países, inclusive nações pequenas com menor capacidade individual de negociação, a região consegue ampliar seu poder diante dos fabricantes.

O Dr. Jarbas Barbosa também defendeu o fortalecimento da produção regional de medicamentos e tecnologias de saúde como caminho para ampliar o acesso e reduzir a dependência externa.

Ao avaliar a resposta à epidemia, deu nota 7 ao mundo e 9 ao Brasil. Para ele, o programa brasileiro permanece na vanguarda e continua servindo de inspiração internacional. “O programa brasileiro serviu de inspiração para vários países do mundo”, afirmou.

O diretor da OPAS reservou ainda uma mensagem às pessoas vivendo com HIV e aids, destacando o papel histórico da mobilização comunitária nas conquistas alcançadas nas últimas décadas e defendendo que as comunidades permaneçam no centro da formulação, implementação e avaliação das políticas públicas.

Confira a entrevista na íntegra.

Agência Aids — Dr. Jarbas Barbosa, o senhor está acompanhando as conversas e negociações aqui. Qual é a sua expectativa em relação aos resultados desta 26ª Conferência Internacional de Aids, que acontece no Rio de Janeiro?

Dr. Jarbas Barbosa — Muito obrigado pela pergunta e pela oportunidade. Eu creio que essa conferência ocorre num momento particularmente importante, porque os avanços tecnológicos que nós tivemos nos permitem pensar que é possível você eliminar a aids como uma ameaça de saúde pública em poucos anos, se a gente conseguir mecanismos que garantam acesso das pessoas às iniciativas que já têm.

E aí nós estamos falando amplamente. Ainda, apesar de termos testes rápidos e autotestes, muita gente ainda não conhece a sua condição de ser portador do HIV, porque as estratégias não são adequadas: não eliminam barreiras de acesso, não mobilizam a comunidade, não estimulam as pessoas a se testarem.

A PrEP já está disponível em todos os países das Américas de forma gratuita, mas ainda temos muitas pessoas que não utilizam a PrEP. Já temos 330 mil que utilizam, mas ainda faltam várias centenas de milhares para a gente chegar na nossa meta, porque as pessoas não têm acesso ou porque a gente coloca algumas barreiras.

A pessoa tem que ir na unidade de saúde, e a pessoa que não está doente não se sente muito motivada a ir. Precisamos pensar estratégias que eliminem essas barreiras sociais, culturais, da discriminação, para que as pessoas possam ter acesso.

Então, eu diria que o tema central este ano é como nós podemos, primeiro, reafirmar o compromisso com a eliminação da aids como um problema de saúde pública, uma ameaça de saúde pública, e, ao mesmo tempo, acelerar o acesso a essas novas tecnologias.

Agência Aids — O ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha, tem dito que é uma injustiça termos tecnologia suficiente para barrar o crescimento do HIV e essas novas tecnologias não chegarem às populações mais vulneráveis em relação ao vírus. Como é que a gente faz para que, no mundo, isso mude, não só no Brasil?

Dr. Jarbas Barbosa — Eu creio que é preciso ter duas estratégias, e que a gente busca combiná-las na região das Américas. Primeiro, fortalecer a produção local, produção regional. Eu acredito que, sem ter essa descentralização da produção, a gente não consegue baixar os preços, fazer com que essas novas tecnologias sejam acessíveis.

Segundo, mecanismos como o que nós temos nas Américas, que é o Fundo Rotatório, o mecanismo de compra conjunta dos países da região. No ano passado, nós compramos pouco mais de 900 milhões de dólares em medicamentos, vacinas, testes de diagnóstico, equipamentos médicos.

Nós estamos, por exemplo, numa negociação com a Gilead, que produz o lenacapavir, que pode ser uma revolução para algumas populações vulneráveis. Ele pode servir quase como uma vacina, porque, com uma injeção a cada seis meses, você quase que completamente elimina a chance de infecção pelo HIV. Mas, se o preço não for acessível, esse produto não vai beneficiar as pessoas como poderia.

Então, esse mecanismo de compra conjunta, nós temos dados de que testes que antes não estavam acessíveis agora estão.

Medicamentos para fungos, para tuberculose, que são coinfecções importantes da doença aids, estão crescendo na sua utilização quando a gente consegue preços acessíveis.

Então, eu diria que garantir produção regional combinado com mecanismos de compra conjunta facilita os acordos. Um país pequeno, Dominica, no Caribe, que tem 70 mil habitantes, para negociar um preço acessível tem dificuldade. Mas, quando a gente junta todos os países da região e negocia, a gente consegue preços que são os melhores preços do mundo para os países da América Latina.

Agência Aids — Na avaliação do senhor, a indústria farmacêutica está mais aberta a esse nível de negociação? Ou seja, a indústria está mais sensível para as possibilidades de venda de novas drogas e novas possibilidades de prevenção? Que tenham menos lucro? Porque a discussão é sempre ganhar mais e, infelizmente, a medicação não chega até quem precisa chegar.

Dr. Jarbas Barbosa — Exato. Eu creio que a pressão das comunidades é muito importante, a pressão dos governos, dos organismos internacionais. Nós não podemos ter uma tecnologia que pode salvar vidas e esperar anos até que ela esteja disponível.

Então, eu acredito que é importante sentar na mesa com o setor privado, negociar preços mais acessíveis para que as populações possam ter acesso.

Eu diria que eu vejo, por parte de grande parte da indústria hoje, uma disposição de sentar, conversar, mas a conversa tem que ser produtiva, tem que ter resultados, tem que significar ter acesso imediato para que as pessoas se beneficiem dessas tecnologias inovadoras.

Agência Aids — Dr. Jarbas Barbosa, se tivesse que dar uma nota para o combate à aids no mundo e para as respostas que o mundo tem construído em relação à questão do HIV, que nota o senhor daria?

Dr. Jarbas Barbosa — Sete.

Agência Aids — Por quê?

Dr. Jarbas Barbosa — Sete, porque a gente avançou muito. Quando a gente olha para os dados, o número de vidas, de milhões de vidas que foram salvas, isso é um, eu diria que é um logro, um êxito histórico, impensável há duas, três décadas atrás.

Então, o fato de você ter hoje países da África, países da América Latina, países da Ásia oferecendo teste gratuito, acesso antirretroviral, uma batalha que inclusive começou no Brasil, quando alguns países ricos diziam que para países pobres eram só medidas de prevenção, porque ninguém poderia pagar pelo tratamento.

Então, a gente tem conseguido tudo isso, é um avanço histórico. Mas, ao mesmo tempo, ainda falta. Por isso que é sete, porque a gente ainda tem que avançar muito para que, efetivamente, a gente acabe a aids como uma ameaça à saúde pública.

Agência Aids — O senhor é brasileiro. Deu 7 para o mundo. E para o Brasil, que nota o senhor dá?

Dr. Jarbas Barbosa — Para o Brasil eu dou 9, porque o Brasil eu acho que está sempre na vanguarda. Eu não dou 10 para ninguém, porque eu acho que sempre tem o que avançar.

Mas o programa brasileiro serviu de inspiração para vários países do mundo, e essa busca constante do Brasil beneficia não só o Brasil, mas beneficia todos os países da região e do mundo, porque inspira, porque mostra que é possível. Então, o Brasil é um forte aliado que nós temos nessa luta.

Eu diria que as Américas, de uma maneira geral, nós somos um líder em saúde global nos temas de aids. Nós temos 19 países do mundo que conseguiram eliminar a transmissão da mãe para o filho de HIV. Quatorze estão na região das Américas. Quatorze, ou seja, dois terços.

E nós estamos com vários outros países para serem certificados ainda este ano e no próximo ano. Nós temos que manter esse movimento de força da região das Américas, inspirando outras regiões do mundo para que a gente possa ser vitorioso nessa batalha contra a aids.

Agência Aids — O ministro da Saúde anunciou o acordo do Brasil com a GSK para o cabotegravir. Esse acordo que o Brasil está firmando na conferência poderá ser estendido para outros países da América Latina e da América Central?

Dr. Jarbas Barbosa — Sim. O Brasil, quando faz um acordo, eu creio que o Brasil abre um caminho, e nós também temos conversações com a GSK, como temos com a Gilead sobre o lenacapavir, como já vamos começar com a Merck sobre o novo PrEP oral, de uma pílula mensal. Já tivemos uma reunião aqui mesmo, no dia de ontem.

Ou seja, vamos negociar para aproveitar esse mecanismo de compra conjunta que nós temos na região, que outras regiões do mundo estão querendo importar a nossa experiência.

O CDC África já há dois anos vem aprendendo como armar um mecanismo semelhante para os países da África, e os países do Oriente Médio também querem ter um mecanismo semelhante, porque coloca todos os países juntos, a gente consolida uma demanda regional.

Isso é bom para o produtor também, porque ele passa a ter uma demanda maior do que a de um país só, uma demanda estável. Ela elimina as barreiras regulatórias, porque, quando o medicamento é oferecido pelo fundo da OPAS, o produtor não precisa receber uma autorização, uma licença, em cada um dos países.

Ele não necessita ir na Anvisa de cada um dos países para ter um registro. Então, ele também economiza tempo e dinheiro. É uma equação ganha-ganha. Ganha a população, principalmente, que tem mais acesso, e ganham os países também, porque passam a poder pagar um preço acessível, e ganham os produtores, que têm um mercado estável, que se pode predizer, e, ao mesmo tempo, elimina tempo e barreiras regulatórias.

Agência Aids — Dr. Jarbas Barbosa, o senhor está parecendo um ator de Hollywood. Emagreceu, está simpático, boa pinta. É a canetinha mágica ou é exercício? Aliás, um homem que trabalha com saúde está promovendo saúde em si próprio.

Dr. Jarbas Barbosa — É uma combinação de alimentação saudável, exercício, uma compreensão que eu tinha que cuidar mais da minha saúde para poder aproveitar melhor os anos da minha vida.

Agência Aids — Qual é a receita para que mais pessoas possam emagrecer assim, elegantemente e saudavelmente?

Dr. Jarbas Barbosa — Olha, eu reduzi muito a ingestão de carboidratos, principalmente de noite. De noite, meu jantar é uma sopa com um pouquinho de proteína. Jantar cedo, cada vez mais cedo, diminuir as porções da comida. Às vezes a gente já está saciado, mas continua comendo.

E atividade física. Eu acho que a atividade física é fundamental. Uma caminhada, que seja. Se a gente puder combinar uma caminhada com musculação, isso é fundamental.

Agência Aids — Para terminar, uma mensagem sua para as pessoas vivendo com HIV e aids no mundo.

Dr. Jarbas Barbosa — Continuem com o mesmo grau de compromisso que vocês demonstraram durante tantas décadas. A luta de vocês foi fundamental.

As pessoas que vivem com HIV têm um compromisso de cobrar das autoridades, de cobrar das organizações, de cobrar da indústria, de dizer: olha, nós precisamos ser parte do processo de elaboração de políticas, precisamos ser parte da implementação das políticas, da avaliação das políticas, porque é a vida deles, é a vida de cada um deles que está em jogo.

E, quando a gente está lutando pela própria vida, eu acho que a gente desenvolve um compromisso que é muito maior do que um compromisso individual. É um compromisso coletivo, e nós temos muito a agradecer aos que, infelizmente, não estão mais aqui, porque eram numa época que não tínhamos tanto acesso. Os que ainda continuam a falecer, apesar dos medicamentos já disponíveis.

Mas eu acho que cada vez está mais perto o dia que a gente vai poder celebrar o fim da aids como uma ameaça à saúde pública no mundo.

Redação da Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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