Uma estratégia preventiva baseada no uso de antibióticos após relações sexuais desprotegidas tem mostrado impacto significativo na redução da sífilis em nível populacional. Dados analisados no condado de King, que inclui a cidade de Seattle, indicam que a profilaxia pós-exposição com doxiciclina (doxyPEP) esteve associada a uma queda de 52% nos diagnósticos da infecção. A redução foi observada em diferentes grupos populacionais — incluindo homens, mulheres e pessoas trans e não binárias — e sugere ainda possíveis efeitos indiretos de proteção, especialmente entre mulheres.
O estudo, publicado na revista Clinical Infectious Diseases, foi conduzido pelo médico Timothy Menza e uma equipe de pesquisadores vinculados ao Public Health – Seattle and King County e à University of Washington. A análise amplia o conjunto de evidências sobre o impacto da doxyPEP, indicando que seu uso pode contribuir de forma relevante para conter a transmissão da sífilis em comunidades onde a estratégia é implementada.
Como funciona a doxyPEP
A doxyPEP consiste na administração de uma dose única de 200 mg do antibiótico doxiciclina em até 72 horas após uma relação sexual sem preservativo. O objetivo é impedir o desenvolvimento de infecções bacterianas sexualmente transmissíveis, como sífilis e clamídia, além de reduzir, em menor escala, o risco de gonorreia — cuja prevenção é mais limitada devido ao aumento da resistência antimicrobiana.
A estratégia tem sido direcionada principalmente a homens gays e bissexuais sexualmente ativos e a pessoas trans em maior risco de infecção. Ainda que sua eficácia venha sendo demonstrada em diferentes contextos, especialistas alertam que o método não oferece proteção absoluta.
Um dos fatores críticos é o tempo de administração. Embora diretrizes considerem adequado o uso dentro de um intervalo de até 72 horas após a exposição, há evidências de que a bactéria da sífilis pode começar a se disseminar pelo organismo já nas primeiras 24 horas. Nesses casos, mesmo que a doxiciclina atinja níveis eficazes no organismo, uma dose única — especialmente se administrada tardiamente — pode não ser suficiente para eliminar completamente o agente infeccioso.
Estudos anteriores indicam que as concentrações do antibiótico em tecidos genitais e retais permanecem acima dos níveis eficazes por até três dias após a ingestão. No entanto, concentrações mais baixas no sangue sugerem que, caso a bactéria já tenha se espalhado para além dos tecidos locais, a eficácia da profilaxia pode ser reduzida.
Além disso, quando a doxyPEP falha, há a possibilidade de que o medicamento desacelere a progressão da bactéria, mas não a elimine. Isso pode mascarar sintomas iniciais da sífilis e atrasar resultados positivos em testes diagnósticos, permitindo que a infecção avance silenciosamente para a fase latente. Ainda não está claro com que frequência esse fenômeno ocorre na prática clínica, nem qual sua relevância diante dos benefícios gerais da estratégia.
Alternativa em debate: doxyPrEP
Diante das limitações relacionadas ao tempo de administração, pesquisadores têm discutido a possibilidade de uso da doxiciclina como profilaxia pré-exposição (doxyPrEP). Nesse modelo, a proposta seria o uso de doses menores, como 100 mg, de forma regular — possivelmente diária.
Embora a hipótese seja considerada plausível, ela levanta preocupações importantes. O uso frequente de antibióticos pode causar efeitos colaterais, impactar o microbioma intestinal e contribuir para o aumento da resistência bacteriana, o que pode comprometer opções de tratamento no futuro. Além disso, especialistas destacam a necessidade de avaliar cuidadosamente o equilíbrio entre riscos e benefícios, considerando que a sífilis, apesar de grave, geralmente pode ser tratada com antibióticos quando diagnosticada.
Análise de quase uma década
Para avaliar o impacto da doxyPEP, os pesquisadores analisaram dados de vigilância epidemiológica entre 2017 e 2025 no condado de King. A clínica de saúde sexual de Seattle foi um dos locais de realização de um ensaio clínico sobre a estratégia, encerrado em maio de 2022. Após o término, a doxyPEP passou a ser oferecida aos participantes do estudo e, a partir de março de 2023, também a pessoas fora do ensaio.
No total, foram registrados 9.951 casos de sífilis ao longo de oito anos e meio, com média mensal de 98 diagnósticos. Desse total, 7.851 casos ocorreram em homens (média de 77 por mês), 1.829 em mulheres (18 por mês) e 271 em pessoas trans e não binárias (cerca de três por mês).
Os dados analisados não incluíam informações confiáveis sobre orientação sexual, o que levou os pesquisadores a agruparem todos os homens em uma única categoria. Essa limitação pode ocultar diferenças importantes no uso e na eficácia da doxyPEP entre homens heterossexuais e homens gays e bissexuais.
Antes e depois da implementação
Antes da introdução da doxyPEP, foram registrados 6.135 casos de sífilis. Entre 2018 e 2020, os números permaneceram relativamente estáveis, mas passaram a crescer a partir de 2021, com aumento médio de três casos por mês.
Após a implementação da estratégia, a tendência se inverteu. O número de casos começou a cair, com redução média de 6,7 diagnósticos por mês.
Com base nas tendências anteriores, os pesquisadores estimaram que, sem a introdução da doxyPEP, o total de casos teria chegado a aproximadamente 5.952 no período analisado. No entanto, o número observado foi de 2.921 casos, indicando uma redução de cerca de 52%.
Impacto por grupos
A redução foi observada em todos os grupos analisados, embora com magnitudes diferentes.
Entre homens, os casos diminuíram em média 4,5 por mês, resultando em uma queda estimada de 53%. Entre mulheres, a redução foi de cerca de dois casos mensais, equivalente a 47%. Já entre pessoas trans e não binárias, a queda foi menor em termos absolutos — cerca de 0,1 caso por mês —, mas ainda assim representou uma redução de aproximadamente 33%.
Apesar da baixa adesão da doxyPEP entre mulheres, o impacto observado nesse grupo chama a atenção dos pesquisadores, que sugerem a existência de efeitos indiretos associados à redução da transmissão nas redes sexuais.
Situação entre gestantes e recém-nascidos
Em contraste com os resultados gerais, os dados revelam aumento nos casos de sífilis entre gestantes e recém-nascidos ao longo dos anos analisados. Entre 2017 e 2024, os casos em pessoas grávidas passaram de 13 para 48, enquanto os registros entre bebês aumentaram de zero para 23.
No entanto, há indícios recentes de estabilização. Entre janeiro e junho de 2025, os números se mantiveram em níveis semelhantes aos anos anteriores, o que pode indicar uma possível mudança de tendência.
Possível efeito de “imunidade coletiva”
Os autores do estudo sugerem que um mecanismo semelhante ao da imunidade coletiva pode estar contribuindo para os resultados observados. À medida que um número maior de pessoas passa a utilizar a doxyPEP, a circulação da bactéria nas redes sexuais tende a diminuir, reduzindo o risco de infecção mesmo entre indivíduos que não utilizam a estratégia.
Esse efeito pode ajudar a explicar a redução observada entre mulheres, grupo que raramente recebe prescrição de doxyPEP. Por outro lado, o mesmo padrão não foi observado entre gestantes e recém-nascidos, possivelmente devido a diferenças nas redes de transmissão ou ao tempo necessário para que os efeitos indiretos se manifestem nesses grupos.
Resultados semelhantes foram observados em San Francisco, onde a introdução da doxyPEP esteve associada a uma redução de 51% nos casos de sífilis entre homens gays e bissexuais e mulheres trans.
Limitações e cautela na interpretação
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam que o estudo é observacional, ou seja, não permite estabelecer uma relação de causalidade direta entre o uso da doxyPEP e a redução dos casos de sífilis.
Além disso, a ausência de dados detalhados sobre orientação sexual limita a análise de subgrupos específicos. Como homens heterossexuais tendem a utilizar menos a doxyPEP, a análise agregada pode levar à superestimação do efeito nesse grupo ou à subestimação entre homens gays e bissexuais.
Também é possível que parte da redução observada esteja associada a efeitos indiretos em nível comunitário, decorrentes da diminuição da transmissão geral da infecção.
Mesmo com as limitações, o estudo reforça evidências de que a doxyPEP pode desempenhar um papel importante na redução da sífilis em larga escala. Ao mesmo tempo, especialistas ressaltam a necessidade de monitoramento contínuo, especialmente em relação ao uso de antibióticos, possíveis efeitos colaterais e o risco de resistência bacteriana.
A estratégia surge como uma ferramenta adicional no enfrentamento das infecções sexualmente transmissíveis, mas seu uso deve ser cuidadosamente avaliado dentro de políticas de saúde pública que considerem tanto seus benefícios quanto seus potenciais riscos a longo prazo.
Redação da Agência Aids com informações do Aidsmap




