Novo estudo da Faculdade de Medicina da USP aponta que desconforto no conteúdo escrotal pode ser uma consequência a longo prazo de infecções
Uma infecção viral costuma se resolver em alguns dias ou semanas, mas pode deixar marcas bem mais duradouras. Há quem fique com tosse seca chata por longos meses após a cura; outros têm a sinusite ou a asma exacerbada pelo vírus; diversas pessoas podem ter fadiga por semanas… Mas sabia que alguns homens ficam sentindo dores nos testículos?
Pois é. Analisando 61 estudos sobre dor crônica no conteúdo escrotal (CSCP, na sigla em inglês) pesquisadores da Faculdade de Medicina e do Hospital das Clínicas da USP encontraram essa correlação.
Publicado no periódico Basic and Clinical Andrology, o estudo é uma revisão sistemática da literatura, e analisa evidências de possíveis associações entre infecções por vírus como SARS-CoV-2, HIV e Zika e dor persistente nos testículos.
A CSCP é uma doença caracterizada por dor ou desconforto contínuo na região escrotal, podendo atrapalhar a qualidade de vida e as atividades diárias dos homens. A prevalência estimada da condição fica entre 0,4% e 4,75% da população mundial, mas especialistas a classificam como um problema desafiador, já que cerca de metade dos casos não tem causa identificada, dificultando o diagnóstico e o tratamento.
Infecções bacterianas já eram reconhecidas como fatores contribuintes para a CSCP, mas o papel das infecções virais é menos compreendido. “Os efeitos agudos de vírus como o SARS-CoV-2 são significativos, mas estamos vendo que os efeitos crônicos são maiores do que imaginávamos”, comenta o urologista Jorge Hallak, coordenador da pesquisa.
Possíveis causas da dor
O estudo foi apenas uma revisão da literatura, então ainda são necessárias pesquisas mais específicas para esclarecer os mecanismos envolvidos e seus impactos sobre a função testicular e a fertilidade.
Mas os pesquisadores destacam três mecanismos que podem resultar na dor crônica:
Excesso de processos inflamatórios no corpo que também atingem o sistema reprodutor masculino;
Ativação do sistema imunológico com liberação de substâncias que aumentam a sensibilidade à dor;
Possíveis respostas autoimunes que mantêm o desconforto mesmo após a eliminação do vírus.
“O entendimento do papel das infecções virais é essencial para melhorar o diagnóstico, o tratamento e a qualidade de vida desses pacientes”, conclui Hallak.
Vírus e saúde sexual masculina
Não é de hoje que se sabe que os vírus podem impactar o sistema reprodutor dos homens. Diversos vírus já foram associados a isso, principalmente por gerarem a tal inflamação testicular.
O vírus da caxumba é um dos exemplos mais clássicos: em alguns casos, a infecção pode levar à atrofia testicular e, consequentemente, à redução da fertilidade a longo prazo. Esse é um dos motivos pelos quais a vacinação na infância é considerada uma medida essencial de prevenção.
Outros agentes, como HIV e zika vírus, também já foram relacionados a impactos no sistema reprodutor masculino, incluindo alterações hormonais e na qualidade do sêmen.
Estudos mais recentes como esse da FMUSP ajudam a reforçar a compreensão de que viroses podem ter efeitos que vão além da fase aguda da infecção, com possíveis repercussões duradouras na saúde sexual e na qualidade de vida masculina.




