Do teste obrigatório à descriminalização: Uzbequistão e Colômbia levam à Copa visões opostas sobre o HIV

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O Estádio Azteca já recebeu Pelé, Maradona, finais de Copa do Mundo e alguns dos momentos mais marcantes da história do futebol. Na noite desta quarta-feira (17), o lendário palco da Cidade do México testemunhará outro capítulo especial: a estreia do Uzbequistão em uma Copa do Mundo.

Pela primeira vez em sua história, a seleção da Ásia Central entrará em campo em um Mundial. Do outro lado estará a Colômbia, uma das forças emergentes do futebol sul-americano, acostumada aos grandes torneios e embalada por uma geração que sonha em repetir ou até superar as campanhas históricas das últimas décadas.

Mas o encontro entre uzbeques e colombianos vai além da disputa pelos primeiros pontos do Grupo K.

Fora das quatro linhas, os dois países representam visões muito diferentes sobre uma das maiores questões de saúde pública das últimas décadas: o enfrentamento ao HIV.

Enquanto a Colômbia avançou na descriminalização e ampliou o acesso à prevenção e ao tratamento, o Uzbequistão ainda enfrenta críticas internacionais por manter políticas consideradas discriminatórias contra pessoas vivendo com o vírus.

O estreante da Copa que ainda exige testes obrigatórios

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A classificação para a Copa de 2026 transformou o Uzbequistão em motivo de orgulho nacional. Após décadas tentando alcançar o principal torneio do planeta, a seleção finalmente rompeu a barreira que separava o país da elite do futebol mundial.

Mas, fora dos gramados, o país ainda convive com desafios importantes relacionados ao HIV. Com aproximadamente 60 mil pessoas vivendo com o vírus, o Uzbequistão possui a terceira maior epidemia da Europa Oriental e da Ásia Central.

Historicamente, o HIV esteve ligado ao uso de drogas injetáveis, impulsionado pelas rotas de tráfico que atravessam a região. Nos últimos anos, porém, a dinâmica da epidemia mudou.

A transmissão sexual passou a ocupar espaço crescente nas estatísticas nacionais, ampliando os desafios para as autoridades sanitárias.

Ao mesmo tempo em que o país expandiu o acesso ao tratamento gratuito e fortaleceu sua rede de assistência, adotou medidas que despertaram preocupação entre organizações internacionais.

Em 2025, o Senado uzbeque aprovou uma legislação que tornou obrigatórios os testes de HIV para cidadãos que retornam do exterior após mais de 90 dias e para estrangeiros que buscam emprego ou residência no país.

Na prática, pessoas estrangeiras diagnosticadas com HIV podem ter pedidos de trabalho ou residência negados.

A medida provocou reação de organismos internacionais. As políticas punitivas tendem a afastar as pessoas da testagem e dos serviços de saúde, aumentando o estigma e dificultando o controle da epidemia.

Avanços que convivem com contradições

O paradoxo uzbeque é evidente. Ao mesmo tempo em que amplia exigências legais, o país registra avanços importantes nos indicadores de saúde.

Atualmente, 84% das pessoas vivendo com HIV estão em tratamento antirretroviral. A taxa de supressão viral praticamente dobrou em poucos anos, saltando de 47% em 2016 para 79% em 2023.

O governo também conseguiu reduzir significativamente os custos da terapia antirretroviral, permitindo a aquisição de novos medicamentos e ampliando o acesso aos tratamentos.

Grande parte desses avanços, contudo, continua dependendo do apoio de organismos internacionais, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

Colômbia escolheu outro caminho

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Se o Uzbequistão aposta em medidas de controle que geram controvérsias, a Colômbia seguiu uma direção diferente.

O marco mais simbólico ocorreu em junho de 2019, quando o Tribunal Constitucional colombiano derrubou a lei que criminalizava a transmissão do HIV.

Os magistrados concluíram que a legislação violava princípios fundamentais de igualdade e não discriminação.

A decisão foi celebrada por especialistas em saúde pública e organizações de direitos humanos, que há anos argumentavam que a criminalização não reduz transmissões e apenas reforça o estigma contra pessoas vivendo com HIV.

O julgamento colocou a Colômbia entre os países latino-americanos que passaram a adotar abordagens mais alinhadas às recomendações internacionais.

Uma das maiores epidemias da América do Sul

A mudança jurídica não elimina os desafios. Com cerca de 230 mil pessoas vivendo com HIV e prevalência de 0,6% entre adultos, a Colômbia possui uma das maiores epidemias da América do Sul.

Em 2023, foram registrados aproximadamente 12 mil novos diagnósticos. Bogotá, Medellín e Cali concentram grande parte dos casos, refletindo também a concentração populacional do país.

Os homens representam quase oito em cada dez novos diagnósticos, enquanto homens que fazem sexo com homens continuam sendo o grupo mais impactado pela epidemia.

Apesar disso, os indicadores de tratamento mostram avanços importantes.

Mais de 80% das pessoas diagnosticadas recebem terapia antirretroviral, e a grande maioria dos pacientes em tratamento alcança supressão viral.

Aposta em acesso e inovação

Nos últimos anos, a Colômbia também ampliou suas estratégias de prevenção. A PrEP foi incorporada oficialmente ao sistema de saúde em 2021, tornando-se mais uma ferramenta para reduzir novas infecções.

Em 2024, o país deu outro passo importante ao emitir sua primeira licença compulsória para o dolutegravir, um dos principais medicamentos utilizados no tratamento do HIV.

A medida permitiu ampliar o acesso a versões genéricas do medicamento e reduzir custos para o sistema público de saúde.

Foi uma decisão vista por especialistas como um marco na tentativa de tornar os tratamentos mais acessíveis à população.

Dois estreantes em momentos diferentes

No futebol, apenas uma seleção viverá a sensação inédita de disputar sua primeira Copa do Mundo. Mas, de certa forma, os dois países chegam ao Azteca escrevendo novos capítulos de suas histórias.

Enquanto os uzbeques ainda enfrentam questionamentos sobre políticas que vinculam o HIV a restrições migratórias e trabalhistas, os colombianos passaram os últimos anos removendo barreiras legais consideradas discriminatórias.

Quando a bola rolar no Azteca, estará em jogo muito mais do que três pontos. Será o encontro entre dois países que escolheram caminhos diferentes para enfrentar uma mesma epidemia — e que agora compartilham o mesmo palco na maior celebração do futebol mundial.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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