Do silêncio de Bach ao grito do baile: como o “doutor da quebrada” transforma sexo, corpo e saúde sexual em teoria política

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Na música clássica europeia, o silêncio entre uma nota e outra carrega significados. No baile funk da periferia, o impacto vem do oposto: do excesso, do choque, do corpo, da palavra sem filtro.

É nesse território de tensão — entre o erudito e o popular, entre a academia e a favela, entre a moral e o desejo — que o professor e musicólogo Thiago de Souza construiu sua trajetória intelectual. Conhecido profissionalmente como Thiagson, ele se define como alguém que atravessa mundos.

Nesta terça-feira (24), às 18h30, ele lança em São Paulo o livro Putologia avançada – O Funk de pernas abertas: como sexo, política e música se misturam, na Drummond Livraria, no Conjunto Nacional. Publicada pela Matrix Editora, a obra nasce de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo e propõe uma ruptura direta com a tradição europeia da musicologia.

A tese é provocadora: o funk sexualmente explícito — frequentemente tratado como vulgar, vazio ou alienado — seria uma das manifestações culturais mais politizadas da juventude brasileira.

Mais do que um estudo musical, o livro propõe uma leitura radical da sociedade brasileira.

“Vim da periferia e fiz doutorado em funk”

Em entrevista à Agência Aids, Thiagson fala com entusiasmo, alternando reflexões acadêmicas e lembranças pessoais. Sua trajetória ajuda a explicar o interesse pelo tema.

Nascido no sertão da Bahia, criado em contexto periférico e formado em música clássica pela Universidade Estadual Paulista, ele decidiu levar para a universidade aquilo que, segundo ele, raramente entra nos livros.

“Sou conhecido por ter feito formação em música clássica, mas ter feito doutorado em funk. Eu confronto esses dois universos: o da música clássica, visto como elevado, branco, europeu e digno de interesse, e o funk, que revela tensões raciais, sociais e políticas do Brasil.”

Sua pesquisa investiga o funk de baile de favela — especialmente o chamado “funk de putaria” — analisando como o conteúdo sexual explícito revela desigualdades estruturais. “Eu procuro mostrar que aquilo que parece só vulgaridade é também um discurso social.”

A ciência da “putaria”

O conceito central do livro nasce de uma provocação linguística inspirada em uma música do PK: a “putologia”. A ideia combina o termo popular “putaria” com o sufixo “logia”, criando uma espécie de “ciência do desejo”.

Mas o conceito vai além da provocação. “O funk que canta o sexo é visto como vazio político. Eu mostro justamente o contrário. Essa ‘putaria’ cantada pela juventude periférica questiona a moralidade e revela contradições sociais.”

Segundo o pesquisador, o sexo no funk funciona como fantasia, afirmação e projeção de um mundo desejado. “Os jovens cantam aquilo que não têm. Cantam autoestima quando a sociedade é racista, cantam desejo quando não são desejados, cantam riqueza quando vivem na precariedade. É uma forma de utopia.”

A sexualidade explícita, portanto, não seria apenas entretenimento, mas uma linguagem simbólica de sobrevivência.

O incômodo que revela o Brasil

Para Thiagson, a dimensão política do funk aparece principalmente na reação que provoca. “O incômodo causado pelo funk é um incômodo político. Ele revela o choque entre classes sociais e diferentes formas de viver a sexualidade.”

Ele cita como exemplo a controvérsia de 2014, quando apresentações de crianças cantando letras explícitas foram proibidas pelo Ministério Público.

Para o pesquisador, o episódio revelou mais sobre desigualdade social do que sobre moralidade. “Quando uma criança canta sexo explícito, estamos ouvindo alguém que não teve direito à infância. Na periferia, muitas vezes não existe infância — existem pequenos adultos.”

Segundo ele, a exposição precoce à sexualidade está ligada a experiências estruturais: trabalho infantil, violência, precariedade e exclusão.

Educação sexual distante da realidade

Um dos principais pontos defendidos pelo autor é a desconexão entre educação sexual formal e a experiência real da juventude periférica. “Recebo relatos constantes de professores que dizem não conseguir trabalhar o funk em sala de aula porque ele desperta incômodo moral.”

Para ele, esse distanciamento enfraquece o processo educativo. “Não adianta uma educação sexual moralizante, distante da realidade. Só conseguimos conscientizar quando falamos do mundo como ele é. O funk é uma realidade social e precisa ser discutido.”

Ele argumenta que ignorar o fenômeno cultural apenas reforça tabus e impede diálogo.

Quando o debate chega à saúde: HIV, juventude e tabu

A discussão sobre sexualidade no funk também atravessa um tema urgente da saúde pública brasileira: o crescimento das infecções sexualmente transmissíveis entre jovens.

Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que a epidemia de HIV/aids continua avançando entre pessoas mais jovens — realidade que, segundo Thiagson, exige cuidado ao ser interpretada.

Para o pesquisador, existe um risco recorrente de associar automaticamente problemas sociais ao funk. “O grande perigo é usar causas legítimas, como o aumento das infecções, para atacar o funk e tentar impedir que ele exista. Isso sempre aconteceu.”

Ele afirma que o gênero não cria o problema, mas expõe contradições sociais que já existem. “O funk canta o sexo como ele aparece na realidade — inclusive o sexo desprotegido. A questão não é calar essa expressão, mas pensar sobre ela.”

Segundo o autor, o silêncio moral em torno da sexualidade pode contribuir para a desinformação entre jovens. “Quando a escola, a família ou a sociedade não conseguem falar sobre certos temas, eles viram tabu. E quando viram tabu, existe manutenção da ignorância.”

Para ele, ignorar aquilo que a juventude já vive e consome culturalmente enfraquece a educação sexual. “Não adianta falar de sexualidade de forma distante da realidade. O funk faz parte da vida social da juventude. Se ele gera engajamento, pode ser usado também para conscientizar.”

O pesquisador vê potencial no gênero como ferramenta de comunicação em saúde, desde que o diálogo não seja baseado em condenação moral.

Na sua avaliação, políticas públicas poderiam explorar essa potência cultural por meio de campanhas, ações educativas e iniciativas que dialoguem com o universo simbólico da juventude periférica — desde mensagens musicais até estratégias de prevenção em espaços de sociabilidade como bailes e festas.

Mais do que responsabilizar a cultura, ele defende enfrentar desigualdades estruturais. “Os problemas que atingem a população periférica começam muito antes — na moradia, na educação, na falta de investimento público. O funk revela essas questões.”

Liberdade ou imposição?

Ao analisar o papel da sexualidade no funk, o pesquisador reconhece contradições importantes. “Rebolar pode ser um ato de liberdade, mas também pode ser uma imposição do mercado.”

Em sua pesquisa, encontrou artistas mulheres que desejavam cantar temas sociais, mas enfrentaram pressão para produzir conteúdos sexualizados. “Qualquer obrigação revela relações de poder — seja ter que rebolar ou ter que trabalhar doze horas por dia.”

O funk, segundo ele, é simultaneamente espaço de libertação e de reprodução de desigualdades.

Racismo, desigualdade e desejo

Para o pesquisador, o debate sobre sexualidade no funk não pode ser separado de questões estruturais. “Problemas que atingem a população periférica começam na moradia, na educação, na falta de investimento público.”

Ele vê o gênero como espaço de resistência simbólica. “O funk revela tensões entre um Brasil negro e um Brasil embranquecido, entre diferentes visões de sexualidade e de moralidade.”

A música, afirma, pode criar referências positivas e ampliar horizontes. “Às vezes agimos de determinada maneira por falta de referência. Ter artistas falando de forma consciente mostra que outras formas de viver são possíveis.”

Universidade, moralismo e ruptura

Thiagson também faz críticas ao próprio ambiente acadêmico, que considera historicamente moralizante.

Ele argumenta que a universidade herdou padrões de sua origem religiosa europeia, dificultando discussões abertas sobre sexualidade. “Quando não podemos falar sobre certos temas, eles voltam como sintoma. Precisamos de uma educação menos moralizante e mais acolhedora.”

Seu trabalho, diz, busca aproximar saber acadêmico e experiência periférica.

Um livro para circular fora da academia

O autor afirma que um dos objetivos do livro é romper com a lógica da produção acadêmica voltada apenas à carreira universitária. “Hoje muitos textos acadêmicos são escritos para autopromoção. Não são escritos para serem lidos.”

Ele celebra a recepção pública da obra, que rapidamente alcançou destaque em vendas online. “É romper esse ciclo de escrever para ninguém ler. Quero que as pessoas entendam o mundo como ele é.”

Ao final da conversa, Thiagson resume a ambição do trabalho: transformar o funk em instrumento de leitura crítica do país.

“Não faço campanha para que as pessoas gostem de funk. Faço campanha para que entendam o mundo. E o funk é uma realidade potente da vida social brasileira.”

Entre Bach e o baile, entre teoria e periferia, sua pesquisa sugere que compreender o Brasil contemporâneo talvez exija ouvir aquilo que mais incomoda.

Putologia avançada – O Funk de pernas abertas: como sexo, política e música se misturam é um convite a atravessar essas fronteiras. Para quem deseja pensar cultura, juventude, desigualdade e desejo sem filtros morais, a leitura é provocação necessária. O livro já está disponível para compra e promete tirar o debate sobre funk dos rótulos fáceis para colocá-lo no centro da reflexão sobre o país.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Thiagson

Instagram: @canaldothiagson

 

Apoios