Diversidade além do discurso: lideranças do setor jurídico defendem inclusão LGBTQIAPN+ como política permanente

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Evento promovido pelo IBRAC e pela Frente Jurídica LGBTQIAPN+ reuniu lideranças de grandes bancas para debater os avanços, desafios e a consolidação de políticas de inclusão no ambiente corporativo

A diversidade LGBTQIAPN+ deixou de ser apenas um tema de campanhas institucionais e passou a ocupar espaço estratégico nas políticas internas de organizações que buscam construir ambientes mais inclusivos e representativos. Essa foi uma das principais conclusões do evento “Além do discurso: A Evolução Institucional da Diversidade LGBTI+ sob a Ótica das Organizações”, realizado nesta segunda-feira (22), em São Paulo.

Promovido pelo Instituto Brasileiro de Estudos de Concorrência, Consumo e Comércio Internacional (IBRAC) em parceria com a Frente Jurídica LGBTQIAPN+, o encontro ocorreu na sede do Pinheiro Neto Advogados e reuniu especialistas responsáveis por iniciativas de diversidade em algumas das maiores bancas de advocacia do país.

Participaram do debate Laura Mattar, gerente de cidadania corporativa do Mattos Filho; Thaís Alonso, gerente de responsabilidade socioambiental do Lobo de Rizzo; e Monique Bastos, especialista em diversidade, inclusão e responsabilidade social do Veirano Advogados. A mediação ficou a cargo de Bruno Becker, diretor de diversidade e formação do IBRAC, e Jackson Ferreira, coordenador do Comitê de Diversidade e Formação do instituto e da Frente Jurídica LGBTQIAPN+.

Ao longo do encontro, as painelistas apresentaram experiências concretas de construção de políticas institucionais voltadas à promoção da diversidade e à valorização da população LGBTQIAPN+, ressaltando que a consolidação dessas iniciativas exige compromisso permanente, liderança e engajamento coletivo.

Respeito, mobilização e liderança

Ao apresentar a trajetória do Mattos Filho, Laura Mattar resgatou o processo de construção da política de respeito da organização, iniciativa que contou, à época, com a colaboração do consultor Reinaldo Bulgarelli, referência nacional em diversidade corporativa.

Segundo ela, o respeito foi estabelecido como um dos valores centrais da cultura organizacional do escritório. Laura destacou ainda o papel desempenhado por José Eduardo Queiroz, então líder da banca, no incentivo à criação de movimentos internos voltados à promoção da equidade de gênero, em uma estratégia que partiu da alta liderança para toda a estrutura organizacional.

Para a gerente, a transformação cultural exigiu mais do que a criação de normas internas. “Mobilização, engajamento e letramento foram os pilares norteadores daquele momento”, afirmou.

Linguagem como ferramenta de inclusão

Representando o Lobo de Rizzo, Thaís Alonso destacou a importância da utilização adequada da terminologia relacionada à população LGBTQIAPN+.

Para ela, a atenção à linguagem não se limita a uma questão semântica, mas representa uma demonstração concreta de respeito às identidades e experiências das pessoas que compõem esse grupo social.

A gerente ressaltou que o reconhecimento das nomenclaturas e conceitos utilizados pela comunidade LGBTQIAPN+ reflete o comprometimento institucional com práticas inclusivas e contribui para a construção de ambientes mais acolhedores e seguros.

Consistência entre discurso e prática

Já Monique Bastos, do Veirano Advogados, enfatizou que a efetividade das ações de diversidade depende fundamentalmente da consistência das medidas adotadas ao longo do tempo.

Segundo ela, políticas de inclusão só produzem resultados quando estão conectadas à realidade vivida pelos profissionais dentro das organizações.

Monique destacou a necessidade de estabelecer vínculos genuínos com colaboradores e colaboradoras, garantindo que cada pessoa possa exercer suas atividades sem precisar ocultar sua identidade ou carregar o peso da discriminação. “Ninguém consegue entregar o seu melhor carregando um saco de cimento nas costas”, afirmou.

A declaração sintetizou uma das mensagens centrais do encontro: a inclusão não é apenas uma pauta de direitos humanos, mas também uma condição para o desenvolvimento pleno dos talentos e para a construção de ambientes de trabalho mais produtivos e saudáveis.

Durante a mediação, Bruno Becker chamou atenção para a relevância da visibilidade LGBTQIAPN+, especialmente durante o mês de junho, período marcado pelas celebrações do orgulho LGBTQIAPN+ em diversas partes do mundo.

Para ele, as organizações devem demonstrar publicamente seu compromisso com a inclusão, inclusive por meio de símbolos institucionais.

Becker defendeu que, ao menos nesse período, os escritórios de advocacia adotem iniciativas visíveis de apoio à comunidade, como a estilização de seus logotipos com as cores da bandeira LGBTQIAPN+, reforçando o reconhecimento e a valorização dessa população.

O papel do Direito no combate à discriminação

Na etapa final do evento, quando a palavra foi aberta ao público, o debate avançou para a dimensão jurídica da proteção à diversidade.

Marcelo Guimarães, do MBG Advocacia e vice-presidente da Comissão de Diversidade Sexual do Sindicato dos Advogados e Advogadas do Estado de São Paulo, destacou a necessidade de ampliar a compreensão sobre a Lei nº 7.716, de 1989.

Segundo ele, a legislação não deve ser vista exclusivamente como uma norma de combate ao racismo, mas como um importante instrumento de enfrentamento à discriminação em sentido amplo.

Guimarães observou que a lei alcança diferentes formas de preconceito, incluindo discriminações relacionadas à origem, sexo e outros marcadores sociais, reforçando a importância de sua aplicação na proteção dos direitos fundamentais e na promoção da igualdade.

Mais do que celebrar avanços, o debate apontou para um desafio contínuo: garantir que o reconhecimento da diversidade LGBTQIAPN+ esteja incorporado à cultura organizacional de forma consistente, permanente e capaz de produzir mudanças concretas na vida das pessoas.

Marcelo Guimarães, especial para a Agência Aids

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