Acesso desigual, desconhecimento e barreiras econômicas continuam moldando o cenário da prevenção ao HIV na Europa. Enquanto no Reino Unido 41% das pessoas soronegativas pertencentes a minorias sexuais e de gênero utilizam a profilaxia pré-exposição (PrEP), em grande parte dos países do Leste Europeu esse número não chega a 15%. Os dados são da Pesquisa Europeia sobre Homens que Fazem Sexo na Internet (EMIS 2024) e foram apresentados pelo professor Kai Jonas, da Universidade de Maastricht, durante o 2º Workshop Europeu sobre Superação das Barreiras da PrEP, realizado pela BCN Checkpoint, na semana passada, em Barcelona.
Apesar dos avanços, a Europa continental segue praticamente sem acesso às formas injetáveis de longa duração: quase todos os usuários dependem exclusivamente dos comprimidos de tenofovir disoproxil/emtricitabina. As duas versões injetáveis aprovadas — cabotegravir e lenacapavir — ainda não estão disponíveis em nenhum sistema público de saúde do continente.
Conhecimento e uso da PrEP: um retrato multifacetado do continente
A EMIS 2024 foi disponibilizada online em 35 idiomas e divulgada via aplicativos de namoro e organizações comunitárias. Ao todo, 50.330 pessoas de 50 países participaram, majoritariamente homens gays e bissexuais, além de 2.658 pessoas trans e não binárias.
Os dados revelam que 77% dos entrevistados têm conhecimento básico sobre a PrEP como estratégia de prevenção do HIV. No entanto, as disparidades regionais são marcantes: na Europa Central e Oriental, o índice varia de 60% a 75%, caindo para 51% entre os respondentes da Polônia; a oeste da Áustria, supera 80%.
O conhecimento sobre estratégias específicas — como a PrEP baseada em eventos (2-1-1) — é consideravelmente menor: apenas 46% demonstraram compreensão dessa modalidade. O entendimento sobre interações entre PrEP e terapias hormonais de afirmação de gênero é ainda mais limitado.
A adesão à PrEP oral também varia drasticamente. Países como Reino Unido (41%), França (39%) e Bélgica (36%) apresentam taxas elevadas. Em contrapartida, Irlanda e Áustria não superam 25%, enquanto Itália, Portugal e Suécia ficam abaixo de 20%. No Leste Europeu e no Cáucaso, os índices giram entre 4% e 12%, com exceção da Ucrânia, que se destaca com 20%.
Jovens adultos apresentam necessidades significativamente não atendidas: entre menores de 25 anos, apenas 18% discutiram PrEP com profissionais de saúde, 38% não possuíam conhecimento básico e somente 6,6% estavam em uso.
Entre pessoas trans e não binárias, especialmente aquelas designadas mulheres ao nascer, as lacunas são ainda maiores: apenas 12% conversaram sobre PrEP com profissionais de saúde; 45% desconheciam conceitos básicos; e 2,8% utilizavam a profilaxia.
O estudo também identificou dificuldades expressivas entre pessoas menos abertas sobre sua sexualidade, refugiados e requerentes de asilo, e participantes que se descrevem como vivendo relações “complicadas”.
Interrupção da PrEP: um desafio silencioso e crescente
Além da baixa adesão, cresce a preocupação com as interrupções da PrEP, muitas vezes motivadas por barreiras de acesso — e não pela redução do risco de exposição ao HIV. Dados apresentados no evento mostram que 72% dos usuários de PrEP que posteriormente contraíram HIV na Espanha haviam parado de usar o método. Situação semelhante ocorreu no centro 56 Dean Street, em Londres, onde 61% das pessoas diagnosticadas com HIV no último ano haviam interrompido o uso da PrEP previamente.
O professor Kai Jonas destacou achados do estudo PROTECT, realizado com mais de 15.000 participantes em 20 países, recrutados principalmente entre pessoas interessadas em PrEP injetável. Entre os quase mil homens gays e bissexuais que haviam interrompido a profilaxia oral, as razões mais citadas incluíam dificuldades de aquisição (52%), falta de vontade de pagar pela PrEP (54%) e alto custo (37%). Outros 24% mencionaram dificuldades para realizar exames de HIV e de função renal.
Essa população, segundo o estudo, frequentemente acessa PrEP por vias informais: 11% já haviam obtido o medicamento em farmácias online, amigos ou até traficantes, o que triplica o risco de descontinuação.
Razões pessoais também influenciam: 60% relataram não querer tomar comprimidos diários; 54% temiam contrair outras ISTs; 50% apontaram efeitos colaterais; e 21% afirmaram estar em relacionamentos monogâmicos estáveis.
Após interromperem a PrEP, muitos recorreram a estratégias de risco reduzido, mas menos eficazes: 34% adotaram o que Jonas chamou de “surfar na PrEP”, confiando no uso de PrEP pelo parceiro. Alarmantemente, 9,6% não utilizaram qualquer método de prevenção após abandonar a profilaxia — grupo que apresentou risco nove vezes maior de sexo sem preservativo e três vezes maior de dificuldades financeiras.
Para Jonas, a equação não é apenas sobre adesão, mas sobre continuidade: “Precisamos oferecer a forma de PrEP mais adequada para cada pessoa e compreender as razões da interrupção.”
PrEP injetável: aprovada, mas ainda inacessível
A promessa das injeções de longa duração — que podem contornar dificuldades de adesão e reduzir interrupções — ainda está distante para a maioria dos europeus. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) aprovou o cabotegravir (Apretude) em setembro de 2023 e o lenacapavir em agosto de 2025. No entanto, questões de custo e políticas nacionais vêm travando sua incorporação.
Cada país da União Europeia decide, individualmente, quais medicamentos serão financiados. O custo dos produtos injetáveis — muito superior ao da PrEP oral genérica — tem dificultado negociações. A Espanha, por exemplo, rejeitou o reembolso do cabotegravir em fevereiro. Em setembro, o Ministério da Saúde espanhol admitiu a possibilidade de disponibilizar o medicamento apenas para pessoas com dificuldades de adesão comprovadas. Até agora, nenhum país da UE reembolsa a PrEP injetável.
Caminhos distintos fora da União Europeia
No Reino Unido, que possui regulador próprio desde o Brexit, o cabotegravir foi aprovado em maio de 2024. No mês passado, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (NICE) recomendou seu uso na Inglaterra e no País de Gales, seguindo decisão semelhante do Consórcio Escocês de Medicamentos (SMC). Esses pareceres permitem que o NHS prescreva o medicamento com reembolso.
Mas o acesso será extremamente limitado: o NICE e o SMC concluíram que o cabotegravir só é custo-efetivo para pessoas que não podem se beneficiar da PrEP oral — cerca de mil pessoas por ano. O preço anual no Reino Unido supera £7.000 (US$ 8.000), muito inferior ao praticado nos EUA (US$ 24.000), mas ainda um desafio para os sistemas públicos.
O lenacapavir, com preço oficial de US$ 28.000 por ano nos EUA, ainda não avançou em negociações significativas com agências europeias.
Segundo o professor Raphael Landovitz, da Universidade da Califórnia, apenas cerca de 14.000 pessoas utilizaram cabotegravir como PrEP nos EUA até agora — número considerado baixo para um país com alto investimento na estratégia. Dados sobre lenacapavir não foram divulgados pela Gilead, mas a expectativa é de que os números sejam ainda menores.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações do Aidsmap




