Diretora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), Dra. Valdiléa Veloso diz que é um desafio tornar a PrEP mais acessível, especialmente em países do sul global

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A jornalista Roseli Tardelli conversou com Dra.Valdiléa Veloso quando ela visitou a Estação Prevenção Jorge Beloqui, no metro República, em São Paulo

Na última semana, a infectologista Valdiléa Veloso, diretora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), esteve em São Paulo para conhecer de perto as ações e iniciativas da Coordenadoria de IST/Aids em São Paulo, como a Estação Prevenção Jorge Beloqui – na Estação República, que oferece a população o acesso da população às estratégias gratuitas de prevenção ao HIV em horários alternativos ao período comercial. Em entrevista à jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids, dra. Valdiléa elogiou os esforços da equipe municipal e do SUS em promover saúde e acesso a tratamentos, especialmente para populações vulneráveis. Ela ressaltou a importância de replicar esse modelo de sucesso em outras regiões do país.

A médica enfatizou ainda o desafio de tornar a PrEP, incluindo a forma injetável com Lenacapavir, mais acessível, especialmente em países do sul global. A expectativa é que novos planos de compartilhamento de tecnologia e precificação garantam que essas inovações cheguem a quem mais precisa. Confira a entrevista a seguir:

Agência Aids: Essa é uma série de reportagens ‘aquilo deu nisso’. Se a dra. Valdiléa, a dra. Beatriz e a equipe da Fiocruz não tivessem realizado o estudo que possibilitou a introdução da PrEP no Brasil, elas não estariam em São Paulo para essas visitas. A senhora esperava isso? Obrigada pela entrevista! Tudo bem?

Valdiléa – Olha, nós começamos com São Paulo, com o ImPrEP, a implementação de PrEP no Brasil, antes de estar disponível na rede pública. Foi com muita satisfação que nós fizemos essa visita. Celebramos os 34 anos da criação do SUS e acho que tudo o que a gente viu aqui é a concretização do SUS, dos objetivos do SUS, a promoção da saúde, atenção à saúde, o direito de cada cidadão e de cada cidadã brasileira. É um exemplo o que a gente viu na Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, sob a liderança da Cristina. Eu acho que essa equipe tão dedicada, capaz e motivada, é uma demonstração do que o poder público pode fazer pela população brasileira. Eu acho que a gente vê que a prefeitura tem investido bastante para que a população tenha acesso à prevenção, aos tratamentos, aos mais diversos segmentos da população, e com ações tanto dentro das unidades de saúde quanto extramuros, indo ao encontro daquelas pessoas que mais têm necessidades, populações vulneráveis. Aprendi muito com a visita, ver a incorporação de novas tecnologias, que não são apenas tecnologias físicas, mas são tecnologias sociais também. Então, saio daqui muito feliz, feliz pela população, feliz pelo nosso Sistema Único de Saúde e a experiência daqui é resultado de muitos anos de trabalho, de muitos anos de investimento e é uma experiência que precisa ser replicada no Brasil.

Agência Aids:Acho que isso é um grande desafio, a gente tornar a PrEP mais acessível e sair do serviço de saúde. Ou seja, usar as novas tecnologias para informar. Quando é que a gente vai conseguir replicar o modelo que deu certo como esse?

Valdiléa – Olha, eu acho que o exemplo está aqui, eu acho que isso precisa do envolvimento dos gestores, dos municípios, dos estados, acho que o governo federal está bastante envolvido, bastante determinado também a incorporar novas tecnologias, então acho que a gente precisa de investimento, de mobilização para que a gente possa alcançar a eliminação do HIV como problema de saúde pública e é possível. Eu acho que precisa de determinação, investimento e motivação.

Agência Aids:Quais são as suas expectativas em relação ao Congresso de Prevenção no Peru?

Valdiléa – São grandes as expectativas. Acho que o congresso vai trazer para a nossa região uma visibilidade grande e é uma oportunidade de a gente ter mais gente da nossa região participando da Conferência, nem todo mundo da nossa região pode viajar pela a Europa, né? São voos caros, tudo na Europa é bastante caro.

Eu tenho essa expectativa de que a nossa região possa marcar presença maciça nessa conferência, e que a gente possa aproveitar não só para ver e aprender com os resultados das pesquisas que vão ser apresentadas, mas também uma troca maior entre profissionais de saúde, pesquisadores e comunidades da nossa região.

Agência Aids: PrEP injetável pelo o que a gente está aferindo pelas pesquisas deu certo. O desafio agora é tornar acessível a mais países, a mais pessoas vulneráveis. Qual é a sua expectativa em relação a essa acessibilidade do Lenacapavir? 

Valdiléa – Olha, eu acho que essa é a questão do momento, o acesso. Acesso não só de PrEP, é acesso a vacina para Mpox, tratamento para Mpox… existe hoje uma grande questão que é o acesso das populações do sul global às tecnologias. Muitas dessas tecnologias nos ajudam a testar, a validar, mas precisamos ter acesso depois dos estudos. Então eu acho que nós temos a expectativa de que a PrEP injetável tenha um plano de compartilhamento de tecnologia, de precificação, que possa realmente concretizar o acesso da população mais vulnerável, porque de nada adianta nós temos uma tecnologia que é altamente eficaz, mas que as pessoas não podem acessar. Então, uma tecnologia que só vai beneficiar os países mais ricos, ela não vai alcançar os seus objetivos como uma tecnologia para contribuir para o controle da epidemia de aids.

Agência Aids: Lenacapavir tem que estar onde o HIV quer estar?

Valdiléa – Exatamente. O Lenacapavir precisa chegar antes do HIV.

Agência Aids: A prevenção tem que chegar antes do HIV? 

Valdiléa – Tem que chegar antes do HIV.Esse é um princípio global. Eu acho que todos nós trabalhamos para o desenvolvimento de novas tecnologias, a população contribui também dando as suas impressões, participando dos estudos… e nós precisamos agora nos unir nesse movimento de exigir que os produtores, não só do Lenacapavir, mas também do Cabotegravir, outro injetável de longa duração, que tenha uma política de preços para os países do sul global, incluindo o Brasil. O Brasil muitas vezes é deixado de fora, se cobra preços maiores do que outros países em desenvolvimento e Nós não podemos pagar esse preço, temos que pagar preços justos que sejam acessíveis aos sistemas de saúde.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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