Estratégia que utiliza antibiótico após relações sexuais de risco foi debatida no 19º Hepatoaids e pode ampliar o arsenal de combate às ISTs no SUS
Com mais de 250 mil casos de sífilis notificados apenas em 2024 — número que especialistas consideram subestimado —, o Brasil busca novas formas de conter o avanço das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Nesse cenário, a DoxiPEP, estratégia que utiliza a doxiciclina após relações sexuais de risco para prevenir algumas ISTs bacterianas, ganhou destaque durante o 19º Hepatoaids. Apontada como uma ferramenta promissora para reduzir casos de sífilis e clamídia, a profilaxia pós-exposição já mobiliza pesquisadores, serviços de saúde e o Ministério da Saúde em torno de uma possível incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A discussão foi realizada na última semana, reunindo especialistas para debater evidências científicas, experiências internacionais e os desafios relacionados à implementação da estratégia no contexto brasileiro.
Coordenada por Cristina Abbate, da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, a mesa “Prevenção combinada ao HIV e ISTs – atualização com a estratégia DoxiPEP” contou com apresentações de Dr. Ronaldo Hallal, da AHF Brasil; Dr. Ricardo Vasconcellos, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); e Dra. Romina Oliveira, do Ministério da Saúde.
A DoxiPEP consiste no uso de 200 mg de doxiciclina em dose única após uma relação sexual considerada de risco, preferencialmente nas primeiras 24 horas e respeitando o limite máximo de 72 horas após a exposição. A estratégia busca reduzir principalmente casos de sífilis e clamídia, além de apresentar algum impacto sobre a gonorreia, embora em menor proporção devido ao aumento da resistência bacteriana observado em diferentes regiões do mundo.

Clínicas de IST ampliam acesso à prevenção e ao cuidado
Dr. Ronaldo Hallal apresentou a experiência das clínicas de IST da AHF Brasil e destacou o papel desses serviços como importantes portas de entrada para a prevenção, o diagnóstico e o cuidado integral em saúde sexual.
Segundo ele, as unidades trabalham com uma abordagem baseada na comunidade, sem estigmas e articulada às populações mais vulneráveis, oferecendo testagem, tratamento de ISTs, aconselhamento, PrEP, PEP e vinculação ao tratamento para pessoas vivendo com HIV.
“É muito importante também o trabalho dessas clínicas no sentido de gerar demanda, de estabelecer uma conexão com as populações mais vulneráveis”, afirmou Hallal ao explicar a atuação desses serviços junto aos territórios.
O especialista ressaltou que essas clínicas conseguem alcançar públicos que nem sempre acessam os serviços tradicionais de saúde, especialmente por funcionarem em horários ampliados e por desenvolverem estratégias de aproximação territorial.
Para Hallal, esse modelo tem potencial para fortalecer a resposta ao HIV e às ISTs, contribuindo tanto para a identificação precoce de novos casos quanto para a ampliação do acesso às estratégias de prevenção combinada.
“As clínicas têm um papel estratégico do ponto de vista da resposta à AIDS, na perspectiva de eliminação”, destacou.

Estudo brasileiro aponta resultados promissores e desafios de adesão
Os avanços da pesquisa nacional sobre a DoxiPEP foram apresentados pelo infectologista Ricardo Vasconcelos, responsável pelo estudo DoxiPEP SP, realizado no Centro de Pesquisa Clínica do Hospital das Clínicas da FMUSP.
A pesquisa acompanha usuários de PrEP com histórico recente de IST, avaliando a eficácia da intervenção, a adesão à estratégia, os padrões de uso, possíveis alterações no microbioma e os impactos relacionados à resistência bacteriana.
Ao contextualizar a necessidade de novas ferramentas de prevenção, Vasconcelos chamou atenção para o crescimento persistente da sífilis no país.
“Apenas em 2024 foram mais de 250 mil casos notificados de sífilis. E eu tenho certeza absoluta que esse número é um pedacinho dos casos que aconteceram naquele ano”, afirmou.
Segundo o pesquisador, os estudos internacionais que fundamentaram a adoção da estratégia em diferentes países demonstram resultados expressivos na prevenção de ISTs bacterianas.
“A prevenção contra ISTs bacterianas existe. Ela não é igual para todas as ISTs: varia desde não proteger nada até reduções próximas de 90%”, explicou.
As evidências disponíveis apontam impacto especialmente importante na prevenção da sífilis e da clamídia. Para a gonorreia, entretanto, os resultados tendem a ser mais modestos devido aos crescentes índices de resistência bacteriana à doxiciclina.
Os dados preliminares do estudo brasileiro também ajudam a compreender quem tem buscado a estratégia. Até o momento, a maior adesão foi observada entre homens gays usuários de PrEP, enquanto o recrutamento de mulheres cisgênero e mulheres trans ainda representa um desafio para os pesquisadores.
“Jovens e não gays não se interessam muito por DoxiPEP. Gays se interessam muito. Eu já vi esse filme antes”, afirmou, fazendo referência aos desafios observados nos primeiros anos da implementação da PrEP no Brasil.
Entre os participantes acompanhados, os dados preliminares identificaram a presença de ISTs como micoplasma genital, gonorreia e clamídia, além de um número reduzido de novos casos durante o acompanhamento inicial.
Resistência bacteriana preocupa especialistas
Apesar dos resultados considerados promissores, um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de monitorar cuidadosamente os possíveis impactos do uso ampliado de antibióticos.
A principal preocupação está relacionada ao desenvolvimento de resistência bacteriana, especialmente entre gonococos e bactérias que fazem parte da flora humana.
“A gente passa a vida inteira ouvindo que não é para tomar antibiótico à toa. Existe uma preocupação de que o uso continuado possa selecionar resistência”, explicou Dr. Ricardo.
Estudos já observaram aumento da resistência à doxiciclina em alguns grupos que utilizaram a estratégia. Ainda assim, os dados disponíveis até o momento não demonstram perda generalizada da eficácia da DoxiPEP para as ISTs que a estratégia busca prevenir.
Por isso, pesquisadores defendem que qualquer ampliação do uso da tecnologia seja acompanhada por sistemas robustos de vigilância epidemiológica e monitoramento microbiológico, permitindo avaliar continuamente seus benefícios e possíveis impactos.

Ministério da Saúde acompanha evidências para possível incorporação
Representando o Ministério da Saúde, Dra. Romina Oliveira destacou que o debate sobre a DoxiPEP está inserido em um processo mais amplo de fortalecimento das políticas de prevenção combinada no país.
Segundo ela, a estratégia não deve ser encarada como substituta das medidas já existentes, mas como uma ferramenta complementar capaz de ampliar as possibilidades de cuidado em saúde sexual diante do aumento de casos de sífilis e outras ISTs.
“Será que basta diagnosticar e tratar? Será que oferecer uma vida sexual plena e saudável se resume a perseguir um diagnóstico de uma IST e tratar?”, questionou.
A especialista explicou que a proposta brasileira está focada principalmente na prevenção da sífilis e da clamídia, considerando o cenário epidemiológico desses agravos no país. A gonorreia continua sendo acompanhada com atenção devido ao desafio global da resistência antimicrobiana.
Romina também destacou que a experiência acumulada com a implementação da PrEP oferece aprendizados importantes para a construção dessa nova política pública.
“Dez anos de PrEP do HIV no país, o quanto aprendemos com essa estrada pavimentada”, afirmou.
Ela ressaltou ainda a importância de garantir acesso equitativo às novas tecnologias de prevenção e de construir políticas baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis.
Mais do que uma solução isolada, a DoxiPEP foi apresentada como uma ferramenta adicional dentro do conjunto de tecnologias que compõem a prevenção combinada. Para os especialistas, o desafio agora será transformar as evidências científicas acumuladas em políticas públicas capazes de ampliar a proteção contra as ISTs sem perder de vista questões fundamentais, como a vigilância da resistência bacteriana e a garantia do acesso para quem mais necessita dessas estratégias.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins



