Um em cada três novos casos registrados em 2026 foi identificado já em estágio avançado da infecção
Passo Fundo registra um índice de diagnóstico tardio de HIV acima das médias estadual e nacional. Dos 48 novos casos identificados no município até 31 de julho deste ano, 33% foram diagnosticados já em estágio avançado, quando o sistema imunológico está comprometido e o paciente apresenta sinais de Aids. O percentual é superior aos 23% registrados no Estado e aos 27% da média brasileira. Somente em 2026, quatro pessoas morreram no município em decorrência da Aids.
O cenário chama atenção principalmente entre adultos jovens. Dos 48 novos diagnósticos deste ano, 25 ocorreram entre pessoas de 18 a 39 anos. Considerando especificamente a faixa dos 25 aos 39 anos, foram 22 casos, sendo sete identificados já com Aids avançada.
Segundo a coordenadora do Serviço de Atendimento Especializado (SAE), Angélica Facco, a maioria dos pacientes mais jovens nessa faixa etária se identifica como heterossexual.
Diagnóstico ainda é feito tarde
Para Angélica, o principal problema não está apenas na ocorrência de novos casos, mas no tempo que algumas pessoas levam para descobrir a infecção. Segundo ela, há pacientes que chegam ao serviço sem nunca terem realizado um teste de HIV ou que fizeram o exame apenas uma vez e não voltaram a testá-lo.
“É muito triste quando a gente vê que as pessoas não se preocupam mais, quando acabam deixando de lado o diagnóstico de HIV”, afirma a coordenadora.
A situação preocupa porque uma pessoa pode permanecer durante anos sem saber que está infectada. Conforme a coordenadora, esse período pode chegar a cinco ou dez anos até o surgimento de manifestações mais graves. Quando o diagnóstico ocorre nesse estágio, o tratamento tende a ser mais complexo, e o paciente pode apresentar consequências permanentes.
“Quem faz teste regularmente, tem o diagnóstico e inicia tratamento vai estar muito bem. Agora, um paciente que não faz diagnóstico e vai descobrir quando já está muito doente pode ter sequelas irreversíveis”, explica Angélica.
O teste rápido para HIV é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nas unidades de saúde.
Risco de transmissão
A coordenadora também destaca que o diagnóstico tardio aumenta o risco de transmissão. Pessoas que desconhecem a própria condição ou que não realizam o tratamento podem transmitir o vírus a outras pessoas. Já quem faz o tratamento corretamente e mantém a carga viral suprimida não transmite o HIV por via sexual.
1,6 mil pessoas têm diagnóstico
Atualmente, Passo Fundo possui aproximadamente 1.650 pessoas diagnosticadas com HIV. Desse total, 87% estão em tratamento. Outros 10% são considerados pacientes em abandono da terapia, enquanto 3% sabem que têm o vírus, mas nunca iniciaram o tratamento.
De acordo com Angélica, os pacientes que interrompem a medicação podem passar por períodos de melhora e posterior adoecimento, voltando ao tratamento apenas quando a condição de saúde se agrava. Os casos de pessoas que nunca iniciaram a terapia e daquelas que desconhecem o diagnóstico estão entre os que mais frequentemente chegam ao serviço já doentes.
A evolução dos medicamentos, entretanto, mudou o cenário para quem descobre a infecção precocemente e segue corretamente o tratamento. Atualmente, uma pessoa com HIV em acompanhamento adequado pode ter qualidade e expectativa de vida próximas às da população em geral.
Prevenção também está disponível
Além do diagnóstico e do tratamento, o município oferece alternativas para evitar a infecção. Uma delas é a PrEP (profilaxia pré-exposição), medicamento utilizado antes de uma possível exposição ao HIV. O recurso está disponível gratuitamente pelo SUS para pessoas que tenham risco de contrair o vírus.
Segundo a coordenadora, atualmente 461 pessoas utilizam a PrEP em Passo Fundo. O número, porém, ainda é considerado baixo diante do potencial da estratégia de prevenção. A adesão é maior entre homens homossexuais, enquanto a procura entre pessoas heterossexuais, especialmente mulheres, ainda é pequena.
Também existe a PEP (profilaxia pós-exposição), indicada após uma situação de possível exposição ao HIV, como uma relação sexual sem preservativo ou o rompimento do preservativo. O tratamento deve ser iniciado o mais rapidamente possível e é realizado durante 28 dias.
O medicamento está disponível no Serviço de Atendimento Especializado (SAE), localizado na Rua Silva Jardim, 714, no Centro, das 8h às 17h, sem fechar ao meio-dia. Fora desse horário, o atendimento e a retirada do medicamento são realizados no CAIS Petrópolis.
Para Angélica, ampliar a informação é uma das principais formas de enfrentar o diagnóstico tardio. Ela defende que o exame de HIV seja solicitado com maior frequência durante consultas médicas de rotina e orienta que os próprios pacientes peçam a testagem quando ela não for indicada pelo profissional.
“Embora seja um diagnóstico que ninguém queira receber, se acontecer, quanto antes melhor”, ressalta.
A coordenadora reforça ainda que o preservativo continua sendo uma das principais formas de prevenção, por também proteger contra outras infecções.



