
Instituído em 1948 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Dia Mundial da Saúde, comemorado sempre em 7 de abril, marca a fundação da entidade e tem como objetivo chamar a atenção para temas prioritários da saúde pública global. Em 2025, o lema definido pela OMS é “Inícios saudáveis, futuros esperançosos”, reforçando a importância da saúde materna e neonatal, com acesso equitativo e digno aos serviços de saúde.
No entanto, no Brasil e em diversas partes do mundo, ativistas denunciam que o direito à saúde ainda está longe de ser uma realidade para todas as pessoas – especialmente no contexto da epidemia de HIV/aids.
Evalcilene Santos, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas no Amazonas:
“Neste Dia Mundial da Saúde, nós, pessoas vivendo com HIV/aids, pedimos que o governo dos Estados Unidos repense profundamente a forma como vem conduzindo suas políticas em relação aos países que precisam de apoio, especialmente no enfrentamento da epidemia de HIV/aids.
Já sofremos tanto. Nossos direitos são violados quase todos os dias. O Brasil já foi referência – e precisa voltar a ser – em prevenção, em cuidado e em acolhimento às pessoas que vivem com HIV/aids. É cruel, senhor presidente dos Estados Unidos, pensar em retirar o apoio financeiro que salva vidas. Vidas de pessoas que já convivem com aids avançada, que não têm o que comer, que não têm moradia, que estão em situação de extrema vulnerabilidade.
As pessoas que mais morrem no Brasil são justamente aquelas que não têm onde morar, não têm o que comer. Como elas vão conseguir manter o tratamento?
Nós, mulheres vivendo com HIV/aids, enfrentamos inúmeras sequelas e comorbidades causadas pelos medicamentos tóxicos que usamos há décadas. Eu, por exemplo, tomo remédios há 26 anos. Conheço muitas outras mulheres que fazem uso há ainda mais tempo e que carregam no corpo os impactos desse tratamento. Lutamos muito para ter acesso a cirurgias reparadoras, mas os estados não nos enxergaram, e muitos municípios sequer nos ouviram. O governo federal fez muito pouco por nós.
Precisamos de novos medicamentos, menos tóxicos, e que não exijam o uso diário. Medicamentos injetáveis, que possam ser tomados a cada dois, três, quatro ou até cinco meses – ou até uma vez por ano –, são fundamentais para melhorar a adesão ao tratamento, especialmente para quem enfrenta tantas dificuldades.
Além disso, é urgente destinar mais recursos para as organizações que trabalham diretamente com as pessoas vivendo com HIV/aids.
Que a saúde traga novas tecnologias de prevenção. É urgente rever o preservativo interno de látex e adotar materiais mais confortáveis, como a borracha nitrílica, para garantir que as mulheres se reconheçam no cuidado e tenham acesso a esse insumo fundamental. Que a PrEP chegue às populações vulneráveis e vulnerabilizadas, com um olhar humano e inclusivo.
Precisamos de apoio do Ministério da Saúde, que nos reconheça como parceiras. Com nossas histórias de luta e sobrevivência, inspiramos outras pessoas a compreender que viver com HIV/aids é possível e que qualidade de vida deve ser um direito. Mas, apesar do tratamento disponível, ainda enfrentamos sérias limitações.
Não queremos seguir morrendo — especialmente nós, mulheres, vítimas do câncer e das sequelas de medicamentos tomados por décadas. Muitas ainda aguardam por cirurgias reparadoras, e as casas de apoio foram esquecidas. Como acolher pessoas sem moradia, que vêm dos interiores e adoecem com TB, HIV ou outras ISTs?
No Amazonas, vemos quatro ou mais mortes por dia. E, mesmo como ativistas, muitas vezes não temos recursos nem para oferecer um copo d’água — e água é saúde — a quem vive nas ruas. Nessas ruas estão pessoas com HIV, com tuberculose, com múltiplas vulnerabilidades.
É necessário um novo olhar para a política de HIV/aids. Precisamos de tratamentos inovadores, menos tóxicos, com adesão facilitada, como os injetáveis de longa duração. E é fundamental retomar práticas esquecidas como a redução de danos, que salvou vidas e preveniu infecções. O abandono do tratamento por uso abusivo de álcool e outras drogas cresce, e a resposta a isso não pode ser o silêncio.
Os municípios e estados precisam cuidar de quem vive com HIV/aids. Estamos sendo invisibilizadas, enquanto nossos direitos são retirados. Não podemos ser esquecidas. Saúde é muito mais que medicação: é moradia, alimentação, saúde mental e políticas que dialoguem entre si.
Nossa saúde mental está gravemente afetada. No Amazonas, a Rede de Atenção Psicossocial é mínima. Precisamos de dignidade e de um cuidado real. No Dia Mundial da Saúde, pedimos: que o governo brasileiro olhe com humanidade para as pessoas que vivem com HIV/aids. O cuidado não pode ser parcial — tem que ser completo.”
Para João Geraldo Neto, idealizador do canal Super Indetectável e fundador da ONG Multiverso, o momento é de indignação:
“Neste Dia Mundial da Saúde (7), é urgente denunciar a estagnação da resposta brasileira ao HIV/aids. O Brasil, que já foi referência global em políticas públicas ousadas e eficazes, hoje enfrenta um cenário de atraso e omissão. Mesmo sob um governo que se apresenta como progressista, os avanços têm sido decepcionantes. Falta ousadia política e, principalmente, celeridade na incorporação de novas tecnologias de prevenção e tratamento, como os medicamentos injetáveis de longa duração. As negociações se arrastam em meio à burocracia, discussões sem fim e à falta de articulação entre governo, ciência e sociedade civil. Enquanto isso, pessoas seguem se infectando, adoecendo e morrendo por HIV e aids. O estigma permanece como uma barreira cruel ao diagnóstico e ao tratamento precoce, e as populações mais vulnerabilizadas continuam invisíveis nas prioridades das políticas públicas. O enfrentamento ao HIV/aids exige urgência, compromisso e coragem – não apenas discursos. O Dia Mundial da Saúde deveria nos lembrar do direito à vida com dignidade e como previsto na nossa Constituição Cidadã. Mas, diante da atual lentidão e falta de prioridade, é também um dia de cobrança. O Brasil precisa retomar o protagonismo na resposta à epidemia, com políticas baseadas em evidências, justiça social e respeito à diversidade das pessoas que vivem e convivem com o HIV.”
De fato, o Brasil já foi exemplo mundial ao oferecer tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde os anos 1990. No entanto, atualmente o país tem enfrentado desafios como a demora na incorporação de tecnologias inovadoras e o aumento das desigualdades regionais no acesso ao cuidado.
Américo Nunes Neto, empreendedor social e presidente do Instituto Vida Nova, também ressalta a persistência de barreiras estruturais e sociais:
“Frente ao Dia Mundial da Saúde, temos muitas barreiras: o acesso desigual ao tratamento — embora o acesso ao tratamento antirretroviral tenha melhorado, ainda existem desigualdades no acesso a esses serviços, especialmente em regiões mais pobres e remotas. No que diz respeito à estigmatização e discriminação, estas ainda são comuns contra as pessoas que vivem com HIV, o que pode afastar essas pessoas dos serviços de saúde e aumentar a transmissão da doença. Em relação à escassez de financiamento, as políticas de saúde em HIV/Aids muitas vezes carecem de recursos adequados, o que pode limitar a implementação de programas eficazes de prevenção, tratamento e apoio às OSC. Contudo, a desigualdade de gênero também é uma barreira: as mulheres são desproporcionalmente afetadas pelo HIV/Aids em muitas partes do mundo, e as políticas de saúde frequentemente não abordam adequadamente as necessidades específicas das mulheres. Por fim, o esvaziamento nas discussões políticas sobre esse tema — com a pouca participação da comunidade LGBTQIAPN+, de outros movimentos sociais e, principalmente, da população em geral — muitas vezes resulta em ações que não envolvem suficientemente a comunidade afetada, o que pode levar a respostas que não são eficazes ou relevantes para suas necessidades. Diante de tudo isso, espero que nesta data, em 2026, haja avanços significativos, especialmente na incorporação de novos antirretrovirais e com a quebra de patentes.”
Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Unaids), mais de 39 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, sendo cerca de 1 milhão no Brasil. Apesar dos avanços científicos, como o conceito de “Indetectável=Intransmissível” (I=I), o preconceito, a desigualdade social e a desinformação seguem como entraves para o controle da epidemia.
A advogada Márcia Leão, do Fórum de ONGs/Aids do Rio Grande do Sul, destaca o Programa Brasil Saudável como uma oportunidade para reposicionar a saúde como pilar dos direitos humanos e da justiça social:
“O Dia Mundial da Saúde é mais um momento para refletirmos sobre a importância de reafirmar o compromisso com o direito à saúde como um bem público, universal e inalienável. Celebramos os avanços conquistados, mas também reconhecemos os enormes desafios que ainda persistem – sobretudo no enfrentamento do HIV e da aids, bem como de outras doenças determinadas socialmente, que exigem ações integradas, equitativas e contínuas para serem superadas.
O Programa Brasil Saudável, que se propõe a eliminar 11 doenças determinadas socialmente até 2030, além de outras 5 de transmissão vertical, representa uma oportunidade histórica para reposicionar a saúde como pilar dos direitos humanos e da justiça social. Essa iniciativa acerta ao reconhecer que saúde não se constrói apenas com respostas biomédicas, mas também com participação social, segurança alimentar, acesso à moradia, combate às desigualdades, entre outras estratégias.
No que tange ao HIV e à aids, as expectativas são muitas — vão desde a valorização das populações historicamente negligenciadas, como pessoas LGBTQIAP+, negras, em situação de rua, privadas de liberdade, mulheres, entre outras, até o reconhecimento da sociedade civil como parceira estratégica na formulação, implementação e avaliação das políticas públicas.
Esperamos que as ações do Executivo e do Legislativo em prol da saúde vão além dos discursos e se traduzam em investimento robusto, diálogo permanente com os territórios e compromisso político com a vida. Só teremos um país saudável se ele for também justo, democrático e solidário.”
Neste 7 de abril, enquanto o mundo celebra a saúde como um direito humano, as vozes da sociedade civil lembram que esse direito só será pleno quando a resposta à aids no mundo for baseada na ciência, na equidade e no respeito à dignidade de todas as pessoas.
Eduardo Barbosa, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids):
“Instituído pela OMS, o Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, não é uma data para comemorações vazias — é um marco para nos lembrar da urgência de garantir uma saúde realmente equilibrada e acessível para todas as pessoas.
Equidade, universalidade e acesso precisam estar no centro das políticas públicas. No Brasil, o enfrentamento do HIV e da aids continua sendo um desafio urgente. Ainda convivemos com desigualdades profundas: dificuldade no acesso aos serviços de saúde, ao diagnóstico, à prevenção. E isso precisa mudar.
Neste 7 de abril, o que queremos é mais do que promessas no papel — queremos ações concretas que cheguem de fato à população. A ciência tem avançado com novas drogas e terapias promissoras, mas muitas dessas inovações ainda estão distantes da realidade brasileira. Por quê? Pelos altos preços impostos pela indústria farmacêutica e por uma legislação de patentes que privilegia o lucro em detrimento da vida.
É hora de o governo brasileiro assumir uma postura mais firme, ousada, e negociar esse acesso. Seja para garantir PrEP, seja para oferecer novas opções de tratamento às pessoas que já vivem com HIV, os medicamentos de longa duração podem transformar vidas — mas só se estiverem ao alcance de quem precisa.
Facilitar o acesso é facilitar a adesão e melhorar a qualidade de vida. E, para isso, precisamos valorizar o SUS. O Sistema Único de Saúde é uma conquista histórica que já provou sua força. Foi essencial na resposta ao HIV/aids, e também durante a pandemia de Covid-19.
Mas o momento atual exige mais: é preciso investimento, diálogo, valorização da ciência e das inovações tecnológicas. É preciso orçamento, políticas públicas eficientes e, principalmente, escuta ativa da sociedade civil.
A saúde é um direito. E hoje, mais do que nunca, é hora de defender esse direito com coragem e compromisso.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dicas de entrevista
Evalcilene Santos
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Site: www.institutomultiverso.org
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