07/03/2014 – 18h
Seguimos hoje com a nossa homenagem, iniciada ontem, às mulheres que fazem a diferença na luta contra a aids. Depois de Lair Guerra ( primeira diretora do programa brasileiro de aids), Nair Brito (uma das primeiras pessoas a conseguir do governo o coquetel antiaids) e Marinella Della Negra (infectologista referência no tratamento de crianças), chegou a vez da ativista Cida Lemos, da infectologista Zarifa Khoury e da advogada Áurea Abbade. Saiba o que essas três conquistaram para as pessoas vivendo com HIV e aids.
Exemplo de superação, Cida Lemos levou sua experiência de professora para a militância contra a aids
Há 17 anos, Maria Aparecida Lemos era professora de português e ciências na rede pública de ensino do Rio de Janeiro. Por ter um relacionamento fixo há quatro, ela se sentia distante da possibilidade de se infectar por qualquer vírus sexualmente transmissível. No entanto, em 1999, começou a sofrer de lúpus e outras doenças decorrentes de um sistema imunológico fraco.
Cida foi, então, encaminhada pelo médico a fazer o teste de HIV. “Não hesitei em fazer, pois tinha a certeza de que não tinha o vírus”, conta ela. Mas a percepção da professora falhou. O resultado deu positivo e, um ano depois de descobrir a sua sorologia, Cida perdeu a visão em decorrência de um citomegalovírus, doença oportunista.
Triste e deprimida, Cida buscou apoio em grupos de pessoas vivendo com HIV e aids. Foi aí que percebeu que poderia ser exemplo de vida e ajudar outras mulheres. “Juntei toda a minha experiência de professora nos grupos em que atuo para mostrar que é possível ser feliz e superar todas as adversidades da vida.”
No 1º de dezembro de 2005, Dia Mundial de Luta Contra Aids, Cida representou as pessoas vivendo com HIV/aids do Brasil numa solenidade na Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York.
Cida também já foi diretora social do Instituto de Prevenção à Aids, facilitadora no Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro, representante estadual do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, entre outras funções no movimento social.
Para ela, a vulnerabilidade feminina frente ao HIV só diminuirá quando as mulheres acreditarem que, além dos deveres, também têm direitos. “As mulheres precisam dominar seus direitos, principalmente no que diz respeito à negociação do uso do preservativo”, afirma Cida, hoje com 59 anos. “A sociedade oferece oportunidades a todas que têm coragem de enfrentar os obstáculos e reiniciar de cabeça erguida sempre que for necessário”.
Zarifa Khoury atende pacientes no Emílio Ribas desde que a aids era doença misteriosa
A médica infectologista Zarifa Khoury trabalha no Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, faz parte do Corpo Clínico do Hospital Albert Eisntein, é professora adjunta da cadeira de moléstias infectocontagiosas e parasitárias na Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro e concluiu doutorado doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com o tema: Fatores que Interferem na Busca Tardia da Assistência à Pessoa Vivendo com HIV.
Desde 1983, ela atende pessoas com HIV e aids no Hospital Emílio Ribas, onde começou como residente e hoje é supervisora de internação; coordenadora do ambulatório de micoses profundas; e faz a monitoria dos residentes em infectologia.
O primeiro paciente com aids que Zarifa atendeu foi também um dos primeiros casos diagnosticados no país. Um cabeleireiro gay que tinha morado durante um tempo em São Francisco, nos Estados Unidos, e foi internado com suspeita de febre tifóide. "Eu estudei o caso e vi que havia um problema, ele estava com diarreia, mas com febre tifóide o sintoma deveria ser exatamente o contrário", explica.
No ano seguinte, Zarifa acompanhou o caso do paciente na UTI: "Primeiro, ele desenvolveu um problema respiratório, mas os antibióticos não faziam efeito. Foi então que apareceu uma mancha roxa nas têmporas dele." Foi a partir daí que veio a suspeita e, depois, a confirmação da aids.
Durante muito tempo, conta Zarifa, faltavam materiais básicos nos serviços públicos de saúde, como luvas e aventais. "Todos os residentes que tratavam dos pacientes com aids tinham contato frequente com o sangue deles. Ainda não conhecíamos a forma de transmissão."
Para ela, as prioridades atuais na luta contra a aids são: ampliação do teste de HIV e adesão ao tratamento da aids.
Uma advogada pioneira na defesa do tratamento gratuito e dos direitos trabalhistas
Áurea Abbade nasceu em 10 de dezembro de 1947, é advogada formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), fundadora e presidenta do Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (Gapa), na capital paulista.
A história da ativista é marcada pelo pioneirismo de ações no combate à epidemia. O Gapa, fundado em 27 de abril de 1985, foi a primeira ONG/Aids criada na América Latina. Áurea foi a primeira a propor ação contra o Estado para obtenção de antirretrovirais e advogada da primeira reclamação trabalhista, no Brasil, que reintegrou uma pessoa vivendo com aids ao emprego
“Não tive motivo pessoal para ingressar na luta contra a aids. O que mais me impressionou foi a questão do direito à saúde. Em meados 1984, víamos a sociedade referindo-se à doença como uma peste gay e as pessoas infectadas sem nenhuma proteção. Então, conheci uma assistente social, a Otília Simões Janeiro Gonçalves, que me levou a uma primeira reunião e lá decidi entrar na luta”, conta.
Áurea ressalta a importância da consciência da família no enfrentamento da epidemia. Ela acredita que é preciso mostrar às meninas e aos meninos que todos têm os mesmos direitos e obrigações e incentivar que as garotas e mulheres sejam independentes e lutem por igualdade e respeito.
Redação da Agência de Notícias da Aids


