Dia dos Pais: quando um filho revela que tem HIV, acolher é o primeiro cuidado. Ativistas refletem e falam sobre o tema

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Neste Dia dos Pais,a ser comemorado no domingo, 9 de agosto, ativistas mostram por que informação, respeito à privacidade e afeto podem transformar o momento do diagnóstico — e fortalecer os vínculos familiares

“Pai, eu tenho HIV.” Para muitos pais, ouvir essa frase de um filho pode provocar medo, preocupação e uma avalanche de dúvidas. O que dizer? É preciso perguntar como aconteceu? Contar para outras pessoas da família? Procurar imediatamente um médico? E como oferecer apoio quando o próprio pai ainda está tentando compreender a notícia?

Neste Dia dos Pais, a Agência Aids propõe uma reflexão que vai além do diagnóstico: o que acontece quando um filho escolhe dividir algo tão íntimo com seu pai? E como esse momento pode se transformar em acolhimento, informação e aproximação, em vez de silêncio, culpa ou distância?

Para responder a essas questões, a reportagem ouviu três ativistas com longa trajetória na resposta ao HIV e à aids: Willian Amaral, do Fórum de ONG/Aids do Estado do Rio de Janeiro; Américo Nunes, fundador e presidente do Instituto Vida Nova; e Carlos Duarte, vice-presidente do Gapa/RS. Embora tenham histórias e experiências diferentes, os três convergem em um ponto essencial: antes de qualquer pergunta, é preciso acolher.

Antes de perguntar, acolha

Para Willian Amaral, a reação inicial deve ser marcada por “compreensão, acolhimento, escuta e respeito à pessoa e ao seu diagnóstico”. Naquele primeiro instante, o mais importante é que o filho perceba que não está sozinho.

Isso significa deixar de lado condenações, julgamentos sobre a sorologia ou a orientação sexual e a tentativa de encontrar, imediatamente, explicações para tudo. Às vezes, a primeira resposta de um pai não precisa ser completa. Ela pode caber em um abraço, em uma escuta atenta ou em uma frase simples: “Estou aqui com você.”

Américo Nunes resume o que considera uma das mensagens mais importantes naquele momento: “Isso não muda quem você é para mim. Você continua sendo meu filho/minha filha.”

Para ele, culpa e vergonha estão entre os sentimentos que mais podem adoecer uma pessoa depois do diagnóstico. Por isso, a família precisa ajudar a situar o HIV na realidade atual: existe tratamento, é possível viver bem e continuar trabalhando, estudando, construindo relacionamentos, fazendo planos e sonhando com o futuro.

Carlos Duarte também recomenda que a primeira atitude seja de acolhimento, sem susto, medo excessivo ou julgamento. Ele reconhece que isso nem sempre é simples, sobretudo porque ainda persiste no imaginário social a associação entre aids e morte. Mas lembra que essa não é mais a realidade de quem tem acesso ao tratamento e o realiza regularmente.

O que um filho precisa ouvir? Para Carlos, algo direto e humano: que está tudo bem, que ele tem uma família que o apoia e que estará ao seu lado. Depois, se desejar, a família poderá buscar junto com ele as informações e os cuidados necessários.

“Mas como você pegou?” pode não ser a pergunta para esse momento

Diante do choque inicial, alguns pais podem sentir a necessidade de saber imediatamente como ocorreu a infecção. Os ativistas, porém, recomendam cautela.

“Mas como você pegou?”, “Com quem?” e “Você não se cuidou?” são exemplos de perguntas que Américo aconselha evitar naquele primeiro momento. “O filho/a já está fragilizado com inúmeros fantasmas. Isso só aumenta a vergonha e faz ele se fechar”, afirma.

Entender como a infecção aconteceu pode ficar para outro momento, quando o diálogo estiver amparado pela confiança. Antes disso, é fundamental que o filho se sinta seguro para respirar, falar — ou até não falar — e perceber que o diagnóstico não o tornou menos digno de amor ou respeito.

Carlos faz alerta semelhante. Para ele, perguntas sobre como a infecção ocorreu ou com quem ocorreu podem reproduzir julgamentos e reforçar a ideia preconceituosa de que o HIV seria consequência de comportamentos socialmente condenáveis ou algum tipo de “castigo”.

Willian acrescenta que os pais devem evitar reações de desespero e condenação, assim como opiniões sobre HIV que não tenham embasamento técnico ou comprovação científica.

Informação pode substituir o medo

Parte da angústia de uma família diante do diagnóstico está relacionada à imagem do HIV construída nas décadas mais duras da epidemia. Mas a realidade do tratamento mudou profundamente.

Depois do acolhimento, informação de qualidade pode ser uma importante aliada para substituir o medo por segurança.

Carlos sugere começar perguntando o que o próprio filho já sabe, se procurou um serviço de saúde e se gostaria de ser acompanhado na busca por orientações. Ele recomenda consultar fontes confiáveis, como órgãos de saúde, organizações não governamentais e profissionais da área, evitando fake news e informações oportunistas.

Américo também defende que pais e filhos façam esse caminho juntos, buscando serviços especializados e organizações que atuam na resposta à aids. “HIV em 2026 não é o HIV de 30 anos atrás. A ciência avançou”, destaca.

Willian lembra que hoje há diversas fontes confiáveis disponíveis, incluindo informações de órgãos públicos e organizações da sociedade civil. Conhecer essa história e compreender os avanços da resposta ao HIV também ajuda a derrubar preconceitos que ainda sobrevivem dentro e fora de casa.

O diagnóstico pertence ao filho

Depois da revelação, outra dúvida pode surgir: os pais devem contar para irmãos, avós ou outros parentes? Para os três entrevistados, a resposta passa pelo respeito à autonomia e à privacidade.

“O diagnóstico é do filho e cabe, somente, a ele contar sobre este diagnóstico”, afirma Willian. Caso exista necessidade de compartilhar a informação com outra pessoa, inclusive um familiar ou profissional, ele defende que isso seja feito com consentimento.

Carlos segue a mesma linha: é o filho quem deve decidir se quer contar, quando quer contar e para quem. “Ninguém precisa saber além de quem ele já contou”, afirma.

Américo destaca que o medo do julgamento e da rejeição ainda é uma realidade para muitas pessoas vivendo com HIV. Pressionar alguém a revelar sua sorologia pode ampliar o isolamento justamente quando ele mais precisa de apoio. O sigilo das pessoas vivendo com HIV e aids é protegido pela Lei nº 14.289/2022.

Respeitar esse limite é também uma demonstração de amor. Afinal, confiar um diagnóstico a alguém não significa autorizar que essa informação circule pela família.

“A primeira dose do tratamento é o afeto”

Além do acompanhamento médico, o apoio familiar pode influenciar profundamente a maneira como uma pessoa enfrenta o diagnóstico. Ter um ambiente em que seja possível falar sobre HIV sem medo de julgamento traz segurança, favorece o cuidado com a saúde e ajuda na construção de uma nova relação com essa realidade.

Para Willian, o suporte da família oferece condições para que a pessoa conduza o tratamento e compreenda tanto o diagnóstico quanto a necessidade de manter os cuidados com a saúde.

Mas nem todas as famílias ocupam esse lugar da mesma maneira. Há quem encontre em casa sua principal rede de apoio e quem prefira não revelar a sorologia justamente por receio da reação dos familiares. Carlos chama atenção para essas diferentes realidades e reforça que a decisão de contar ou não precisa ser respeitada.

Quando a revelação acontece, porém, a resposta recebida — positiva, negativa ou até indiferente — pode deixar marcas profundas.

É nesse ponto que o acolhimento ultrapassa o cuidado clínico. Américo resume essa diferença em uma frase: “O remédio trata o vírus. A família trata o medo.”

Na experiência do ativista, sentir que não será abandonado pode mudar a forma como alguém passa a lidar com o HIV. “O acolhimento familiar não cura o HIV. Mas ele cura o abandono. E sem abandono, a pessoa consegue cuidar de si. Por isso a gente fala tanto: a primeira dose do tratamento é o afeto”, afirma.

Para ele, três palavras podem fazer enorme diferença: “Eu tô com você.”

Américo conta que já acompanhou histórias muito diferentes. Uma delas foi a de uma pessoa expulsa de casa aos 18 anos e que demorou cinco anos para retornar ao tratamento. Em outra situação, uma mãe, ao saber do diagnóstico, apenas disse: “Amanhã marcamos o médico”. Mais tarde, essa pessoa fez faculdade, casou-se e teve um filho.

Entre uma reação e outra, existe um abismo. E é nesse espaço que a família pode ajudar a construir proteção ou aprofundar feridas.

Neste Dia dos Pais, informação também é uma forma de cuidado

Para um pai que acabou de receber a notícia, Carlos deixa um conselho: respeite os limites do filho, busque informação sem julgamentos e ofereça acolhimento.

“Existe vida para além do diagnóstico de HIV/aids”, afirma. Para ele, preconceito e discriminação podem provocar abandono social, solidão e afastamento do tratamento.

Willian também reforça que muita coisa mudou desde o início da epidemia e que, atualmente, há tratamento e inúmeras informações disponíveis sobre prevenção e cuidados relacionados ao HIV.

Já Américo propõe que os pais não tentem resolver tudo no mesmo instante. No primeiro momento, recomenda acolher. Depois, é possível procurar atendimento especializado e, quando necessário, apoio psicológico.

Ele chama atenção para algo igualmente importante: os pais também podem precisar de espaço para lidar com seus próprios sentimentos. O medo pode existir, assim como as dúvidas e a preocupação. Mas o filho não deve se tornar o destino de todo o desespero provocado pela notícia.

Receber a revelação de um diagnóstico de HIV não precisa criar distância entre pai e filho. Ao contrário: pode ser um momento decisivo para fortalecer vínculos e mostrar, na prática, que o diagnóstico não altera o lugar que aquele filho ocupa dentro da família.

É natural que nem todas as respostas estejam prontas. Mas, diante de um filho que escolheu compartilhar algo tão íntimo, um pai pode começar pela escuta, pelo abraço e pela certeza de que ele não enfrentará aquele momento sozinho.

A ciência transformou a realidade de quem vive com HIV. Ainda assim, há um desafio que não se resolve apenas com medicamentos: o preconceito. E é justamente dentro de casa que ele pode começar a ser enfrentado, substituindo culpa e julgamento por informação, respeito e acolhimento.

No fim, talvez uma das formas mais importantes de exercer a paternidade seja saber estar presente quando um filho se mostra vulnerável. Antes mesmo de entender tudo sobre carga viral, tratamento ou qualquer outro aspecto do HIV, um pai pode oferecer algo essencial: olhar para o filho e mostrar que o diagnóstico não mudou o amor, o respeito e o vínculo entre eles.

Às vezes, como resume Américo Nunes, tudo pode começar com apenas três palavras: “Eu tô com você.”

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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