Avanços no tratamento transformaram a possibilidade de constituir uma família: Dra. Aline Carralas Leão explica por que I=I derrubou antigas barreiras e afirma que homens com HIV podem planejar a chegada de filhos com segurança
Ser pai. Para muitos homens, o desejo pode começar muito antes de existir uma criança, um nome escolhido ou um quarto preparado. É um projeto de futuro, de família, de continuidade. Mas, para homens que vivem com HIV, esse sonho ainda pode vir acompanhado de perguntas que a ciência já respondeu, mas que o medo e o estigma insistem em manter vivas.
Posso ter filhos? Existe risco de transmitir o HIV para minha parceira? E para o bebê? Será necessário recorrer à reprodução assistida?
Durante décadas, perguntas como essas fizeram parte da experiência de muitas pessoas vivendo com HIV. Hoje, a resposta começa em uma das maiores transformações produzidas pela terapia antirretroviral: sim, homens que vivem com HIV podem ser pais e planejar a chegada de um filho com segurança. O ponto central é o tratamento.
Com acompanhamento médico regular, adesão à terapia antirretroviral e carga viral indetectável, não há transmissão sexual do HIV.

Quem explica é a infectologista Dra. Aline Carralas Leão, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, que atua em assistência médica, pesquisa clínica e educação para promoção da saúde e prevenção de doenças infecciosas.
“Hoje em dia, um homem vivendo com HIV pode, sim, ter filhos de forma bastante segura e saudável. Por conta dos avanços do tratamento antirretroviral, atualmente é possível proteger tanto a saúde do homem quanto a saúde da parceira e do bebê”, afirma.
A mudança não é pequena. Significa que um diagnóstico que, no passado, chegou a ser associado à impossibilidade de construir determinados projetos de vida já não precisa determinar se alguém poderá ou não constituir uma família.
I=I mudou também a possibilidade de ser pai
No centro dessa transformação está uma das mais importantes conquistas científicas da resposta ao HIV: Indetectável=Intransmissível, o I=I.
Quando uma pessoa vivendo com HIV faz corretamente o tratamento antirretroviral e mantém a carga viral indetectável, ela não transmite o vírus por via sexual.
E a palavra usada pela ciência aqui importa: não se trata de um risco apenas reduzido. “Uma pessoa que vive com HIV, que utiliza corretamente a terapia antirretroviral e que vai se mantendo com a carga viral indetectável, não transmite o vírus por via sexual. Isso não é um risco mínimo, é um risco zero”, explica Dra. Aline.
A afirmação está sustentada por grandes estudos internacionais, como HPTN 052, PARTNER 1, PARTNER 2 e Opposites Attract.
“Esses estudos acompanharam milhares de casais sorodiferentes durante vários anos e documentaram dezenas de milhares de relações sexuais sem preservativo, sem registrar um único caso de transmissão do HIV quando a pessoa vivendo com HIV apresentava a carga viral indetectável. Então, atualmente, a gente pode afirmar que o risco de transmissão sexual nessas condições é zero e não apenas muito baixo”, destaca.
Essa descoberta mudou a prevenção do HIV, mas seus efeitos ultrapassam a medicina. Para casais que desejam ter filhos, I=I significa que a concepção natural pode ser uma possibilidade quando o parceiro vivendo com HIV está em tratamento e mantém a carga viral indetectável, sempre com planejamento e acompanhamento adequado.
Não é mais necessário partir do pressuposto de que todo casal nessa situação precisará obrigatoriamente recorrer a técnicas de reprodução assistida.
O planejamento começa antes da gravidez
A segurança proporcionada pelo tratamento não elimina a importância do planejamento.
Antes de iniciar as tentativas para engravidar, a orientação é conversar com o infectologista e, quando possível, realizar o acompanhamento do casal. “É importante que o homem converse com seu infectologista e, se possível, que esse casal seja acompanhado em conjunto”, orienta Dra. Aline.
Entre os cuidados estão confirmar que a carga viral permanece indetectável, avaliar a saúde geral, investigar outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), atualizar vacinas quando necessário e verificar possíveis questões relacionadas à fertilidade.
Quando apenas o homem vive com HIV — situação de um casal sorodiferente —, o primeiro passo continua sendo assegurar que ele esteja em tratamento e com a carga viral indetectável.
“A principal estratégia é que esse homem esteja em tratamento e mantendo a carga viral indetectável. Dependendo da situação clínica do casal, o médico pode orientar outras medidas, como acompanhamento pré-concepção, investigar e tratar outras ISTs, tanto sintomáticas como assintomáticas, monitorar a saúde da parceira e também fazer uso do que a gente chama de prevenção combinada”, explica.
Também é importante cuidar da saúde reprodutiva do casal, orientar sobre o período fértil e iniciar o pré-natal assim que a gestação for confirmada.
E a PrEP?
A Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) também pode fazer parte das estratégias de prevenção em determinadas situações.
Ela pode ser considerada, por exemplo, quando o parceiro vivendo com HIV ainda não alcançou a carga viral indetectável, quando existem dúvidas sobre a adesão ao tratamento ou quando não há uma confirmação recente da carga viral. Mesmo quando o parceiro está indetectável, a parceria sem HIV pode optar pela PrEP como uma estratégia adicional.
Dra. Aline chama atenção para uma dimensão importante dessa escolha: a autonomia. “Quando a gente pensa em I=I, quem está no controle da prevenção é a pessoa vivendo com HIV, que vai ter o compromisso de tomar o remédio todos os dias e ficar indetectável. Mas, se a parceria sorodiferente quer ter o controle também dessa prevenção, ela pode usar a PrEP”, acrescenta.
O HIV do pai não é transmitido diretamente para o bebê
Talvez uma das dúvidas que mais provoquem ansiedade entre homens vivendo com HIV que desejam ser pais seja o medo de transmitir o vírus para o filho.
A infectologista esclarece um ponto fundamental: não existe transmissão direta do HIV do homem para o bebê.
“Quando o homem mantém a carga viral indetectável e não transmite o vírus para a parceira, não existe essa via para que o bebê adquira o HIV. Portanto, quando apenas o pai vive com HIV, está em tratamento e com carga viral indetectável, o bebê não vai correr o risco de adquirir o vírus por conta da infecção paterna”, explica Dra. Aline.
A transmissão vertical está relacionada às situações em que a pessoa gestante vive com HIV e pode ocorrer durante a gestação, parto ou amamentação quando não são adotadas as medidas adequadas de prevenção e tratamento.
Quando ambos os parceiros vivem com HIV, os dois devem manter acompanhamento regular, utilizar corretamente os antirretrovirais e buscar a supressão viral.
No caso da mulher, também é necessário revisar o esquema terapêutico antes da gestação e realizar acompanhamento adequado durante o pré-natal, parto e período pós-parto.
“Quando o diagnóstico é conhecido e o tratamento é feito corretamente durante a gestação, no parto e no período pós-parto, esse risco de transmissão vertical é muito baixo, inferior a 1%”, destaca.
HIV não significa infertilidade
Outro fantasma que ainda acompanha o diagnóstico é a ideia de que o HIV ou os medicamentos antirretrovirais necessariamente comprometem a fertilidade masculina. Não é assim.
O HIV, principalmente quando não tratado, pode estar associado a alterações na qualidade do sêmen. Entre homens em tratamento antirretroviral efetivo, entretanto, a fertilidade costuma estar preservada.
“De uma maneira geral, os antirretrovirais mais utilizados atualmente apresentam um bom perfil de segurança e não vão impedir a paternidade”, afirma Dra. Aline.
Caso o casal encontre dificuldades para engravidar após um período de tentativas, a investigação deve seguir os mesmos princípios utilizados para outros casais, considerando fatores relacionados tanto à fertilidade masculina quanto à feminina.
Antes da gravidez, o acompanhamento pode incluir confirmação da carga viral indetectável, avaliação de CD4 quando indicada, revisão do tratamento antirretroviral, investigação de ISTs, hepatites virais e sífilis e avaliação geral da saúde.
Para a parceira, entram os cuidados pré-concepcionais, como sorologias, atualização vacinal, avaliação ginecológica e suplementação de ácido fólico, além de outros exames conforme a história clínica.
A ciência avançou. O estigma nem sempre acompanhou.
Talvez esteja justamente aí uma das maiores contradições atuais da resposta ao HIV.
A ciência conseguiu responder a perguntas que pareciam impossíveis algumas décadas atrás. Transformou uma infecção que já foi associada a uma sentença de morte em uma condição crônica tratável. Demonstrou que pessoas indetectáveis não transmitem sexualmente o HIV. Abriu novos caminhos para a sexualidade, os relacionamentos e os projetos familiares.
Mas a informação nem sempre avançou na mesma velocidade. “Infelizmente, apesar de todo esse avanço na ciência e nas evidências, ainda hoje a gente convive com informação desatualizada e muito estigma”, relata Dra. Aline.
A infectologista ainda recebe homens e casais que chegam ao consultório acreditando que o diagnóstico de HIV significa abrir mão da possibilidade de formar uma família.
Alguns imaginam que uma tentativa de concepção natural necessariamente colocará a parceira ou o bebê em risco. Outros chegam preocupados com os custos de procedimentos de reprodução assistida que acreditam ser obrigatórios. Há também o medo da exposição do diagnóstico e do julgamento de outras pessoas.
Por trás das perguntas clínicas, portanto, existem medos profundamente humanos: transmitir o vírus para quem se ama, colocar um filho em risco, não conseguir engravidar, sofrer preconceito ou acreditar que o diagnóstico fechou para sempre uma porta que fazia parte dos planos para o futuro.
É nesse ponto que informação também se transforma em cuidado.
Parte importante da consulta, segundo Dra. Aline, é atualizar essas informações à luz das evidências e permitir que homens e casais façam escolhas com segurança e tranquilidade.
“O HIV não impede que você realize o sonho de ser pai”
No Dia dos Pais, falar de HIV e paternidade é também falar sobre quanto a resposta à epidemia mudou.
Para uma geração que atravessou décadas em que o HIV esteve associado à doença, à morte, ao medo da transmissão e à renúncia de projetos afetivos, chegar ao tempo de I=I representa uma transformação que não cabe apenas nos resultados dos exames.
Ela aparece na possibilidade de namorar sem o medo de transmitir o vírus. De construir relações. De fazer planos. De pensar no futuro. E, para quem deseja, de imaginar a chegada de um filho.
“Hoje a gente sabe que o HIV deixou de ser um impedimento para a realização do sonho da paternidade”, afirma Dra. Aline.
Com tratamento adequado, adesão e acompanhamento especializado, homens vivendo com HIV podem constituir família, cuidar da própria saúde e ter filhos sem transmitir o vírus por via sexual.
Para a infectologista, I=I devolveu às pessoas vivendo com HIV algo que ultrapassa a prevenção: a possibilidade de pensar o futuro “com mais liberdade, com mais dignidade e com mais segurança”.
Talvez seja essa uma das dimensões mais bonitas dos avanços conquistados contra o HIV. A ciência não mudou apenas prognósticos. Para muitas pessoas, ela devolveu possibilidades.
Inclusive a possibilidade de ouvir alguém chamar: Pai. “O HIV não define quem você é e não impede que você vá realizar esse sonho de ser pai.”
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dra. Aline Carralas Leão
@dra.alinecarralas




