Dia dos Pais: Avanços científicos permitem que pais vivendo com HIV realizem o sonho da paternidade com segurança

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Mesmo após mais de quatro décadas desde o início da epidemia de HIV/aids, mitos e desinformação ainda cercam a possibilidade de homens vivendo com HIV terem filhos sem transmitir o vírus. No entanto, a ciência já comprovou que, com tratamento adequado e carga viral indetectável, a transmissão sexual e para os filhos pode ser completamente evitada.

Neste Dia dos Pais, celebrado no domingo (10), o infectologista Álvaro Furtado, do Hospital das Clínicas de São Paulo e do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo, explica como a medicina atual garante que a paternidade seja vivida com segurança, autonomia e dignidade.

Indetectável é igual a zero transmissão

Segundo o especialista, a mensagem mais importante que se pode reforçar nesta data é que indetectável é igual a intransmissível. Isso significa que, quando o tratamento antirretroviral é seguido corretamente, a quantidade de vírus no organismo cai a níveis tão baixos que os exames não conseguem detectá-lo, tornando impossível a transmissão sexual do HIV.

Para quem deseja ser pai, manter a carga viral indetectável por pelo menos seis meses antes de iniciar as tentativas é fundamental. Além disso, “é essencial realizar uma avaliação global da saúde, tratando comorbidades como diabetes, hipertensão, doenças renais, hepáticas ou ósseas, e diagnosticar e tratar previamente infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia, clamídia e hepatites virais.”

Avanços nos últimos cinco anos

Nos últimos cinco anos, explica o dr. Álvaro Furtado, houve avanços significativos nos protocolos. “O conceito I=I (Indetectável=Intransmissível) foi incorporado formalmente em diretrizes internacionais e nacionais de planejamento familiar, como a EACS 2023, o DHHS 2024 e o PCDT Brasil 2023. Hoje, está claro que homens com carga viral indetectável podem tentar a concepção natural sem risco de transmissão para parceiras soronegativas. Em alguns casos, a PrEP pode ser utilizada pela parceira como estratégia adicional, caso o casal se sinta mais confortável.”

Ainda segundo o médico, também houve ampliação do cuidado com a saúde mental e a adesão ao tratamento, considerando o desejo reprodutivo como parte do acompanhamento clínico. “O acesso à reprodução assistida também cresceu, especialmente no setor privado, mas com avanços no SUS em alguns centros de referência, e as orientações passaram a incluir homens trans e casais homoafetivos com linguagem mais inclusiva.”

Casais homoafetivos e reprodução assistida

Quando se trata de casais homoafetivos masculinos, o infectologista explica que o processo envolve necessariamente óvulos e útero de substituição, regulados pela Resolução CFM nº 2.320/2022, que exige contrato formal, aprovação ética e triagem médica. “A lavagem de sêmen, antes recomendada exclusivamente para prevenir a transmissão do HIV, deixou de ser necessária quando o doador está indetectável, embora ainda seja solicitada por algumas clínicas. Em todos os casos, o parceiro que fornecerá o sêmen deve passar por exames completos de saúde, incluindo testes de ISTs, e, em alguns centros, PCR para HIV no esperma.”

Quando buscar orientação médica

O médico orienta que a busca por acompanhamento médico aconteça de seis a 12 meses antes de iniciar as tentativas, seja para a concepção natural ou reprodução assistida. Esse período permite otimizar o tratamento, tratar ISTs, atualizar vacinas, avaliar a fertilidade e discutir as alternativas disponíveis.

Base científica sólida

O conceito I=I, reforça Furtado, tem base científica sólida em estudos como HPTN 052, PARTNER e Opposites Attract, que documentaram zero casos de transmissão* em casais sorodiferentes quando a carga viral estava indetectável. “Isso não apenas elimina o medo da transmissão como também reduz o estigma e fortalece a autonomia reprodutiva. No contexto da concepção, o I=I vale para relações sexuais vaginais e anais, desde que a carga viral esteja indetectável por pelo menos seis meses e sem falhas de adesão. Para a transmissão vertical, de mãe para filho, o risco é drasticamente reduzido, mas ainda há protocolos específicos durante a gestação e o parto.”

Evidências e acompanhamento clínico

Os dados também são claros sobre as tentativas de concepção natural em homens vivendo com HIV: “os estudos PARTNER 1 e 2 e Opposites Attract analisaram mais de 1.500 tentativas planejadas e não registraram nenhuma transmissão quando a carga viral estava controlada.”

O acompanhamento clínico, explica o especialista, varia de acordo com a estratégia escolhida. “Casais que optam apenas pelo I=I precisam de exames prévios como sorologias, espermograma e avaliação da função renal e hepática, com consultas a cada três a seis meses. Já os que recorrem à reprodução assistida passam por uma avaliação reprodutiva completa, exames hormonais e ultrassonografias, com consultas mais frequentes, além de custos geralmente mais elevados.”

Paternidade como incentivo para adesão

Dr. Álvaro Furtado destaca ainda que o desejo de ser pai pode ser um poderoso incentivo para manter a adesão ao tratamento antirretroviral. Incorporar o projeto reprodutivo no plano terapêutico e transformar as consultas em espaço de diálogo sobre avanços, expectativas e metas pessoais é uma estratégia que, segundo ele, empodera o paciente. “O I=I não é só uma ferramenta de prevenção, é também de empoderamento. Ele mostra que, com tratamento e cuidado, esses homens podem realizar plenamente o sonho da paternidade”, afirma.

Para o infectologista, mais do que uma questão médica, a paternidade é um direito humano e reprodutivo que não deve ser negado a ninguém.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Dr. Álvaro Furtado

Instagram: @dr.alvarocosta

 

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