Em entrevista à Agência Aids, infectologista discute prazer, consentimento e prevenção combinada, aborda dúvidas sobre PrEP e ISTs e defende o diálogo entre as parcerias
“Prevenção não é o que atrapalha o sexo. É o que permite que ele aconteça sem medo.” A afirmação do Dr. Maiky Prata, infectologista dos centros de referência em HIV, hepatites virais e outras ISTs de Diadema e Barueri, em São Paulo, resume a perspectiva que ele apresenta em entrevista à Agência Aids por ocasião do Dia do Sexo, celebrado em 6 de setembro. Para o médico, conhecer as possibilidades de proteção e conversar sobre desejos e limites são partes de uma experiência sexual em que prazer, consentimento e respeito caminham juntos.
Popularizada no Brasil a partir de uma campanha publicitária de uma marca de preservativos, em 2008, a data faz referência à posição sexual 69. Nesta entrevista, o assunto passa pela liberdade de escolher como viver a própria sexualidade e pelas barreiras que ainda dificultam o acesso à informação, à prevenção e ao cuidado.
Formado em Medicina pela Universidade de Santo Amaro e em Infectologia pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Dr. Maiky também atua no DIATRANS, ambulatório de atenção integral à saúde de travestis, pessoas transexuais e não binárias de Diadema.
“Não existe fórmula. O que faz uma experiência sexual ser boa é a pessoa se sentir segura para dizer o que quer, o que não quer, e ser ouvida”, afirma o Dr. Maiky. Ao longo da conversa, ele questiona a ideia de que planejar a prevenção compromete a espontaneidade e defende que falar sobre sexo permite fazer escolhas mais conscientes.
O médico aborda a prevenção combinada, as dúvidas sobre a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) e a importância da testagem para identificar infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), inclusive quando não há sintomas. Também fala sobre cuidados no sexo oral, a saúde sexual de pessoas com vulva que se relacionam entre si e a busca por atendimento após uma possível exposição ao HIV.
Os aplicativos de relacionamento aparecem na conversa tanto pelas mudanças na dinâmica dos encontros quanto pela possibilidade de antecipar o diálogo sobre prevenção. Para o infectologista, esse cuidado deve encontrar espaço nas conversas entre as parcerias: “Que falar de prevenção seja tão comum quanto falar de desejo”.
Confira a entrevista na íntegra

Dr. Maiky, o que faz uma experiência sexual ser realmente boa e saudável? É possível responder a essa pergunta sem criar mais uma regra sobre como as pessoas deveriam transar?
Não existe fórmula. O que faz uma experiência sexual ser boa é a pessoa se sentir segura para dizer o que quer, o que não quer, e ser ouvida. Prazer, consentimento, comunicação e ausência de medo andam juntos. Saúde sexual não é um manual de como transar, é a liberdade de transar do seu jeito, sem culpa e sem risco de acontecer algo que você não escolheu viver. Quando a pessoa sai da relação se sentindo respeitada e em paz com o próprio corpo, aquilo já foi uma boa experiência, independente de qualquer outra métrica.
Com preservativos, PrEP, PEP, vacinas, testagem e tratamento do HIV, o que significa fazer sexo com segurança em 2026?
Prevenção não é o que atrapalha o sexo. É o que permite que ele aconteça sem medo. Ninguém entra numa prova sem estudar e espera gabaritar. Com o sexo é exatamente a mesma coisa: quem se prepara antes, transa melhor depois. Não é burocratizar o desejo, é conhecer as suas possibilidades de prevenção, os seus limites, as suas fantasias, antes de ser posto à prova. Quem já tem o repertório pronto não é pego de surpresa pelo medo ou pelo estresse precoce de desempenho no sexo.
E é aqui que a prevenção combinada vira sinônimo de liberdade. Conforme o seu gênero, a sua orientação sexual e a sua idade, existem estratégias e tecnologias para você exercer o seu direito ao prazer do seu jeito: preservativo, PrEP, PEP, vacinas, testagem, tratamento com carga viral indetectável. Você monta a combinação que cabe na sua vida, e não o contrário.
Porque é exatamente por isso que, em 2026, liberdade sexual precisa ser tratada como direito. É difícil conceber que, com tanta tecnologia disponível, ainda existam pessoas à margem dessas ferramentas, vivendo uma sexualidade reprimida, não dialogada, embebida de medo e preconceito. O problema nunca foi o desejo. O problema é o silêncio que cerca o desejo, a falta de informação, o julgamento que impede a pergunta. Liberdade sexual de verdade é poder transar com segurança, sem culpa e sem precisar pedir licença para sentir prazer.
Espontaneidade de verdade não é transar sem cuidado. É transar sem ansiedade. E isso só existe quando a prevenção já está combinada antes de começar. Quem se cuida, se entrega. Quem se prepara, transa em paz
A existência de diferentes formas de prevenção tornou as pessoas mais livres para escolher ou também criou confusão sobre o que cada método protege?
A culpa não é das opções. A culpa é do silêncio. Quanto mais ferramentas de prevenção existem, mais liberdade a gente deveria sentir. E, no entanto, tem gente que se sente mais perdida do que nunca. Por quê? Não é a tecnologia que confunde. É a desinformação, é o conservadorismo, é a ilusão de que falar sobre sexo incentiva as pessoas a fazerem sexo.
Mas vamos combinar uma coisa: ninguém precisa de incentivo para ser quem já é. Somos seres sexuais. O desejo faz parte da nossa natureza, dos nossos impulsos, da nossa história. Falar sobre sexo não cria desejo, o desejo já existe. O que a conversa faz é outra coisa: ela transforma um impulso cego numa escolha consciente.
Quanto mais discutimos as possibilidades de prevenção, mais clara e mais consciente fica a prática sexual. Quanto mais estratégias conhecemos, mais donos do nosso corpo e do nosso prazer a gente vira. A confusão não nasce da oferta, nasce da falta de diálogo.
Então não, o problema nunca foi ter muitas opções. O problema é que ainda tem gente tentando calar a conversa que nos liberta.

Qual é o equívoco sobre a PrEP que mais aparece entre seus pacientes e que pode comprometer a saúde sexual?
O maior equívoco sobre a PrEP é achar que ela aumenta o risco de outras ISTs. Não aumenta. A PrEP aumenta a chance de encontrá-las. Quem usa PrEP testa mais, diagnostica mais, trata mais e, com isso, transmite menos. Antes da PrEP, sífilis, clamídia e gonorreia já existiam, eventualmente mais subnotificadas e invisíveis. O que parece “aumento de casos” é o fim da falsa impressão de que havia menos. Diagnóstico não é fracasso, é o sistema funcionando em favor de uma sexualidade livre e saudável.
Quando uma pessoa que utiliza a PrEP recebe o diagnóstico de sífilis ou de outra IST, isso significa que a prevenção falhou ou pode indicar que ela está mais próxima dos serviços e testando com maior frequência?
Não. E essa é uma das conversas mais importantes que tenho no consultório. Quando alguém em uso de PrEP recebe o diagnóstico de sífilis, a PrEP fez exatamente o trabalho dela: protegeu contra o HIV. A sífilis é outra infecção, com tratamento simples e eficaz. Mais do que isso, o diagnóstico costuma ser a prova de que a pessoa está em acompanhamento, testando com frequência e sendo cuidada. O cenário realmente preocupante é o oposto: descobrir uma IST avançada, sem sintomas há meses, porque não havia testagem. Prevenção que falha é a que não existe. A que diagnostica cedo está funcionando.
Existe alguma prática sexual que muitas pessoas consideram totalmente livre de riscos, mas sobre a qual ainda precisamos conversar com mais franqueza?
Sexo oral ainda é tratado como zona livre de riscos, e não é. Sífilis, herpes, gonorreia e HPV se transmitem por via oral, inclusive com infecção na garganta que passa despercebida. O risco de HIV é baixo, mas não é zero, principalmente quando há feridas na boca ou contato com sangue.
E aqui vem a conversa que quase ninguém tem: qual é a melhor forma de praticar sexo oral com riscos diminuídos? Vamos ser honestos, depender da camisinha nessa prática é, na maioria das vezes, uma grande ilusão. As pessoas simplesmente não usam. Então a estratégia real é outra: avaliação periódica no serviço de saúde, testagem regular, pesquisa de IST por PCR com swab de orofaringe, e avaliação odontológica para prevenir gengivites e problemas periodontais. Cuidado com a boca é cuidado sexual, e quase ninguém enxerga assim.
E tem uma população que quase nunca é lembrada quando falamos de IST: as pessoas com vulva que fazem sexo entre si. Fala-se muito de prevenção para sexo com penetração peniana, como se o cuidado só valesse para esse cenário. Não vale. Sexo entre pessoas com vulva também tem seus apontamentos de prevenção: ginecologista em dia, exames periódicos, papanicolaou para avaliar o colo uterino, atenção às vulvovaginites e às ISTs que também se transmitem nesse contato. O cuidado não escolhe a prática, ele acompanha todas elas.
Porque a verdade é essa: todas as formas de prazer merecem ser consideradas, e para cada uma existe um jeito de se prevenir. Não é sobre listar riscos para assustar ninguém, é sobre garantir que nenhuma forma de prazer aconteça sem o cuidado que a acompanha. Prazer com prevenção não é prazer pela metade, é prazer inteiro.

Aplicativos de relacionamento e redes sociais mudaram a forma como as pessoas se conhecem, combinam encontros e buscam informações. O que mudou nas dúvidas que chegam ao seu consultório?
A velocidade. No mesmo dia, uma pessoa pode ter três, quatro, cinco ou mais encontros. E cada encontro é uma nova exposição, uma nova negociação, uma nova chance de IST. Quanto mais rápido e mais frequente, maior a vulnerabilidade. Por isso falar de prevenção na era dos apps não é opcional, é urgente.
Mas aqui está a parte que quase ninguém enxerga: o mesmo aplicativo que acelera os encontros também pode ser a ferramenta que derruba tabus. Ele possibilita o que a vida offline muitas vezes não permite, falar de sexo e prevenção antes do encontro, sem constrangimento. “Uso PrEP”, “estou em tratamento de HIV e sou indetectável”: essas frases no perfil ou na primeira conversa não são exposição, são transparência. E transparência é prevenção.
Quanto mais as pessoas falam abertamente sobre o que usam, o que gostam e como se cuidam, menos espaço sobra para o medo, o julgamento e o silêncio. O app pode ser o lugar onde a conversa que a gente sempre teve vergonha de ter finalmente acontece. Velocidade sem diálogo é risco. Velocidade com diálogo é liberdade.
Quais sinais do corpo depois de uma relação sexual merecem atenção? E em que situações é importante procurar um serviço de saúde mesmo quando não há sintomas?
Dor ou ardência ao urinar, corrimento com cheiro ou cor diferente, feridas, verrugas, coceira persistente, íngua, dor pélvica e febre são sinais que pedem avaliação. Mas atenção, porque a regra de ouro é não esperar sintoma. Muitas ISTs são assintomáticas. Quem tem vida sexual ativa deve procurar o serviço de saúde para testagem regular, mesmo se sentindo perfeitamente bem, e necessariamente após relação desprotegida, violência sexual ou rompimento de preservativo. Sintoma pode ser uma dos últimos eventos a acontecer, então ano espere apenas por ele, esteja a frente.

Se alguém teve uma relação que considera desprotegida, o que ainda pode fazer nas horas ou nos dias seguintes?
A relação aconteceu sem proteção, respira. Você ainda tem tempo. A PEP, a profilaxia pós-exposição ao HIV, funciona até 72 horas depois. E quanto antes começar, melhor: o ideal é nas primeiras 24 horas. Ela está disponível no SUS, de graça, em serviços de saúde e emergências. Não precisa de plano, não precisa de dinheiro, precisa chegar a tempo.
E tem mais: junto com a PEP vem a testagem, não só de HIV, mas de sífilis e hepatites, conforme a orientação do serviço, com repetição quando indicado. Aquele momento de medo vira porta de entrada para o cuidado completo.
Então saiba disso: se até agora você não usava nenhuma forma de prevenção, não entre em pânico. Sempre existe a PEP. E é exatamente por isso que conhecer todas as opções importa, porque ninguém sabe quando vai precisar delas.
O maior problema nunca foi a relação desprotegida em si. É deixar o constrangimento impedir a busca por ajuda. O serviço de saúde não está ali para julgar, está ali para resolver. E resolver, nesse caso, começa com você dando o primeiro passo.
Existe algum cuidado simples, antes, durante ou depois do sexo, que poderia evitar muitos problemas, mas continua sendo esquecido?
A conversa antes do sexo. Parece óbvio, mas é o passo que mais se pula: sentar e combinar, com a parceria, quais métodos vão ser usados. A gente planeja o encontro, o lugar, a roupa, e deixa a prevenção para o improviso, como se falar sobre isso fosse estragar o momento. Na prática, é o contrário: combinar antes tira a dúvida do meio do caminho e evita a negociação constrangedora no calor da hora. Junto com isso, três hábitos baratos: ter preservativo à mão em casa, testar regularmente mesmo sem sintomas e, para quem tem vagina, urinar depois da relação para reduzir o risco de infecção urinária. Prevenção boa é a que já estava combinada antes de começar.
Neste Dia do Sexo, qual pergunta o senhor gostaria que as pessoas deixassem de ter vergonha de fazer?
A pergunta que eu gostaria que as pessoas deixassem de ter vergonha de fazer não é uma pergunta para o médico. É uma pergunta para a pessoa que está do nosso lado: “Qual método de prevenção você usa? Qual vamos usar? Podemos negociar?”
Imagina como seria se essas três frases fossem tão naturais quanto perguntar o que a pessoa gosta de comer. “Eu vivo com HIV, estou em tratamento e indetectável, e tudo bem.” “Eu uso PrEP, e tudo bem.” “Hoje eu prefiro só sexo oral, sem penetração, porque é assim que eu reduzo o meu dano.” Nenhuma dessas respostas deveria exigir coragem. Mas para muita gente, exige.
Porque o que mais adoece não é o vírus, é o silêncio em volta dele: o medo do julgamento, a pergunta engolida, o constrangimento que impede a conversa. Quando a prevenção vira diálogo, ela sai do campo do medo e entra no campo do cuidado mútuo. Você não está se expondo, está se protegendo junto com a outra pessoa.
Então meu pedido neste Dia do Sexo é simples: que a gente normalize a pergunta. Que falar de prevenção seja tão comum quanto falar de desejo. Que o sexo aconteça sem tabu, sem preconceito, sem estigma e sem medo. Porque prazer com conversa é prazer com segurança. E cuidado com o outro, convenhamos, também é uma forma de tesão.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Dr. Maiky Prata
Instagram: @dr.maikyprata




