Dia do Sexo: Sexólogo William Camilo esclarece mitos e verdades sobre o sexo

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Sexo é reprodução humana, saúde, prazer e ainda hoje motivo de tabu, vergonha e repressão. O ato é tão importante e suscita tantas discussões que ganhou um dia só dele no calendário brasileiro.

O Dia do Sexo foi oficializado no Brasil com o 6 de setembro. A escolha se refere aos números que marcam o dia e o mês do ano pela alusão ao 69, conhecida posição sexual.

A data — hoje celebrada comercial e informalmente — foi invenção de uma campanha de marketing de uma marca de preservativos. Em empresa questionou: “se existe Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia das Crianças, por que não existir o Dia do Sexo?”. A brincadeira funcionou e, desde então, a celebração se repete.

O Dia do Sexo busca abrir espaço para o debate sobre um dos aspectos mais naturais da vida humana: a sexualidade. Esse dia também serve como uma oportunidade para discutir abertamente questões relacionadas à sexualidade que muitas vezes são cercadas por tabus e estigmas. Além disso, busca enfatizar a necessidade de relacionamentos íntimos seguros e consensuais, bem como o valor do autoconhecimento no contexto sexual.

E para ampliar a discussão, a Agência Aids conversou com quem tem vasta experiência e conhecimento no assunto, o psicólogo e sexólogo William Camilo.

O especialista começou destacando que um dos principais mitos é a ideia de que sexo só acontece quando há penetração. Segundo ele, desconstruir este conceito é fundamental e o primeiro passo para viver uma sexualidade mais saudável e prazerosa.

Mitos e tabus

“Essa ideia de que sexo só é sexo quando há penetração é algo que foi condicionado ao longo dos tempos. A relação sexual pode ser tanto solo, quanto acompanhada, há outras muitas formas de desfrutar o sexo”, afirmou.

“Outro mito e que é bem peculiar é a questão da masturbação. Eu diria que é demonizada! Falar sobre sexo é falar sobre esse lugar de demonização da prática sexual, de ver o sexo como algo sujo, partindo de uma ideia de castração e de negação do prazer. Aí estão as bases de uma sociedade que foi educada a partir do viés judaico-cristão. Os tabus surgem basicamente disso”, argumentou.

De acordo com o terapeuta, sua atuação clínica é mais voltada ao público LGBTQIAPN+ e a procura maior é de homens, todavia, atende todo tipo de público, e os tabus que cercam o sexo ainda são nítidos, dentre as demandas levadas por seus pacientes.

“Para os homens, socialmente foi e é permitido se falar de sexo, mesmo que por um viés negativo ou disfuncional, mas para as mulheres isto não é permitido. Ainda existe uma resistência [social] para que mulheres falem de sexo”, lamentou.

“No entanto, quando se parte para a prática, pelo menos em minha clínica, percebo que as mulheres têm uma melhor abertura para conversar do que os homens”.

Autoconhecimento

O sexólogo ainda destacou que ao falar de sexo, em geral, as pessoas acreditam que sexo, autoconhecimento e autoestima são coisas desassociadas, o que o especialista rebate.

“Sexo está interligado a conhecimento e autoestima! Saber como eu tenho prazer e o que pode ser feito para potencializar o meu prazer é falar de autoconhecimento. Se eu não me conheço, como eu posso querer que o outro me conheça?”, questionou.

A provocação feita por William se estende a todos os arranjos de relação. Para ele, a comunicação sincera e objetiva são pilares indispensáveis.

“Muitos casais pensam que o parceiro, parceira ou parceire, tem bola de cristal e tem que adivinhar que a parte do corpo gosta que toque, mas daí você está perdendo tempo, quando pode falar ou guiar ali como a pessoa como deve te tocar, como e onde você gosta de sentir… isso fortalece a intimidade do casal, em todos sentidos”.

De acordo com o profissional, falar de autoestima pessoal também é falar de autoestima sexual, pois ambas estão diretamente relacionadas. “Se uma pessoa não tem uma autoestima sexual, a mesma pode ir para o ato sexual já com a ideia de que vai dar errado, que não vai conseguir satisfazer sexualmente o suficiente a pessoa que está se envolvendo…”

“Eu recebo muitos relatos/casos de homens com disfunção erétil, ou com momento disfunção erétil, uma coisa momentânea, situacional, não necessariamente estes homens têm alguma patologia de disfunção erétil, mas contam que broxaram em uma situação, ficaram mal, ansiosos, achando que vai acontecer novamente. Em grande parte do meu público que chega com essa demanda, observo que o que há por trás disso é uma dependência emocional, gerando dificuldade de focar no momento”, contou.

“O autoconhecimento é fundamental para uma prática sexual saudável, e para se conquistar uma autoestima equilibrada. Quanto mais você se conhece, mais você vai saber como seu corpo funciona”, defendeu.

Nesse sentido, o especialista teceu críticas à indústria pornográfica que, segundo ele, tem potencializado disfuncionalidades. “O que se aprende [com a pornografia], não necessariamente é possível reproduzir. Por trás de um filme pornográfico, existe uma atuação, então não será possível reproduzir por justamente ser atuação. Na pornografia há padrões de tamanhos e volumes, não só de órgãos genitais, mas do sêmen, de performance… e acaba-se focando tanto no performar, que se esquece de viver o presente, o sexo propriamente dito, o prazer…”

Prevenção de ISTs

Erros com a camisinha que você comete e que reduzem a sua eficácia

William Camilo enfatizou que o autoconhecimento também é chave para a prevenção de violências e Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). “Conhecer sobre sexo é prevenir! Tenho relatos, até bem próximos, de pessoas que foram enganadas quando perderam “a virgindade”, aquela ideia de virgindade perdida. A pessoa não tinha ideia de que estava perdendo a virgindade ali, e isso é uma violência!”, frisou o especialista que explicitou que isto acontece em quaisquer arranjos de relação, mas sobretudo em relações heteronormativas.

“Isso é muito recorrente, principalmente nas antigas relações, onde as mulheres eram obrigadas a fazer sexo com seus maridos, porque o papel da mulher era satisfazer o marido na cama. Quantas mulheres foram violentadas nesse lugar de prestar um serviço de mulher para o marido”.

“Eu acredito que entender que o sexo oral, a masturbação, até as caricias que são o início do sexo, deveria ser um compromisso social multiproifissonal. Porque a gente educa para que se tenha consciência, para prevenir, para se saber os limites, até onde vai o respeito comigo e com o corpo do outro, e parear com a questão das ISTs/aids é super importante!”

‘‘Quando a gente se conhece e se valoriza, a gente passa a entender que não precisamos nos colocar num lugar de vulnerabilidade para satisfazer o outro’’.

‘‘Falar de camisinha é muito importante, mas não é só isso, é também falar de valorização, autovalorização, desmistificar o HIV, falar que hoje é possível viver com HIV sem transmitir, sem chegar ao estágio de aids…”

O sexólogo destacou que estes debates precisam ser urgentemente articulados com a população jovem que têm sido mais acometida pelas ISTs, mas também com a população da terceira idade que continua transando. “O ser humano é um ser biopsicossocial, ou seja, a sexualidade se manifesta em todos os estágios da vida”.

Saúde RJ - Atividade na terceira idade - Sexualidade: parte de nossas vidas em qualquer idade

Para o dia do sexo, ele deu dicas a quem deseja comemorar a data, sozinho ou acompanhado: “é gostoso pra você? é gostoso para o outro? se sim, então se joga! Esqueça o que o outro vai dizer, se você está respeitando seu corpo e o corpo do outro, independente da sua sexualidade, e de seus fetiches. Lide com os diversos prazeres, pois não há prazer só no sexo, também vamos ter prazer fazendo, por exemplo, uma atividade física, participando de algum grupo, se aquilombando… quando se foca só no prazer sexual, há uma carência afetiva, e pode-se cair no perigo da hipersexualização, então, é preciso entender também até que ponto pensar só sobre sexo nos ajuda ou nos prejudica”.

Finalizando sua contribuição, ele elencou a combinação de hormônios que chama de quarteto da felicidade: Endorfina (felicidade), Serotonina (prazer), Dopamina (bem-estar) e Ocitocina (hormônio do amor). Para ele, proporcionar saúde, o que inclui estes hormônios, bem como a prevenção às ISTs, para populações mais vulnerabilizadas socialmente [população negra, LGBTQIA +, etc], e que para elas, pouco se semeia o afeto e a autoestima, é algo revolucionário!

“Essas substâncias são produzidas em atividade físicas, num abraço… as relações se tornaram tão digitais, que as pessoas esquecem de se tocar, de se ver… e isso traz um problema seríssimo. Então outra dica é: toque, toque seu corpo, toque o corpo do outro… conheça a si mesmo e descubra o verdadeiro prazer!”

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

William Camilo dos Santos

E-mail: psicologowilliamcamilo@gmail.com

Instagram: @sexologowilliamcamilo / @psicologowilliamcamilo

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