Mais de cinco décadas após Stonewall, lideranças destacam avanços históricos, mas alertam para a permanência da violência e dos desafios para garantir dignidade à população LGBTQIA+
O dia 28 de junho, celebrado mundialmente como o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, é uma data de memória e reivindicação de direitos. O marco remete à Rebelião de Stonewall, ocorrida em Nova York, em 1969, quando frequentadores do bar Stonewall Inn, em sua maioria pessoas LGBTQIA+, resistiram a uma ação policial marcada por perseguições e violência. O episódio é considerado um dos símbolos do movimento contemporâneo de luta por igualdade e respeito.
Para o fundador do Grupo Dignidade e diretor executivo da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis, a data representa um momento essencial de resgate histórico e fortalecimento da identidade da comunidade. De acordo com Toni, a luta por direitos começou antes de Stonewall, mas a revolta se tornou um símbolo porque marcou uma reação coletiva contra a discriminação.
“A importância é que teve uma ação concreta de discriminação e violência contra a comunidade LGBTI+ e houve uma reação espontânea, liderada por várias pessoas LGBTI+. É importante a gente ter datas, liderança, nomes e rituais. Esse é um ritual fundamental para a nossa comunidade”, afirmou.
Reis destaca que a palavra “orgulho” ganhou um novo significado ao longo da história, deixando de representar apenas uma celebração para se tornar uma afirmação de dignidade. “Orgulho é você se sentir bem, se sentir realizado. Eu também traduzo muito a palavra orgulho como dignidade. Eu quero dignidade, eu quero ter orgulho”, explicou.

Avanços históricos e desafios persistentes
Ao longo das últimas décadas, a população LGBTQIA+ conquistou direitos importantes no Brasil, como o reconhecimento da união estável e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o direito à adoção por casais homoafetivos, a criminalização da LGBTfobia e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas trans.
Reis, que atua há mais de quatro décadas no movimento, avalia que houve uma transformação significativa na organização política da comunidade. “Evoluiu muito no país. Em 1995 não tínhamos nenhuma rede nacional, hoje nós temos 52, e nós não tínhamos nenhum direito específico, hoje nós temos todos os direitos garantidos”, afirmou.
Apesar das conquistas, ele ressalta que a violência e a discriminação continuam presentes. “Hoje nós temos pessoas que são expulsas de casa, nós temos pessoas sendo espancadas”, disse, ao destacar que a data também deve servir para denunciar desigualdades que permanecem.
A diretora administrativa e coordenadora da área de Diversidade & Inclusão da Aliança Nacional LGBTI+, além de diretora administrativa financeira da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH), Rafaelly Wiest, reforça que o orgulho precisa caminhar junto com a resistência.
“Eu colocaria muito junto com resistência, porque a gente tem orgulho de quem a gente é, mas, se a gente não resistir, a gente é assassinada. O Brasil continua matando pessoas LGBTI e trans”, afirmou.
De acordo com Rafaelly, a data continua necessária porque marca não apenas uma celebração, mas também uma reflexão sobre direitos ainda negados. “É uma data que a gente faz a reflexão e sinaliza que ainda a gente está aqui”, disse.
Educação e informação contra o preconceito
Um dos principais desafios apontados pelas lideranças é o enfrentamento da desinformação e dos discursos de ódio. Para Toni Reis, a resposta passa por um conjunto de ações envolvendo informação, educação e responsabilização.
“Nós temos um tripé: sensibilizar as pessoas para buscar informações corretas e em fontes seguras; educar através do letramento e do conhecimento; e criminalizar quem discrimina e comete violência contra a comunidade”, afirmou.
Rafaelly também destaca a importância de fortalecer o acesso a informações confiáveis. “Combater a desinformação, o discurso de ódio, é com informação de qualidade. A gente tem que prestar atenção no que consome e, quando tiver algo que não é correto, que é fake, que é falso, denunciar”, disse.
Para Toni, a educação é uma das principais ferramentas para transformar a sociedade. “A nossa solução está na educação. Precisamos ensinar a Constituição Federal, porque a educação tem como objetivos a cidadania, o desenvolvimento humano e o trabalho”, afirmou.
Novas gerações e continuidade da luta
As lideranças também chamam atenção para a importância da participação de jovens LGBTQIA+ na construção do movimento. Rafaelly destaca iniciativas voltadas à formação de novas lideranças e à ocupação de espaços políticos.
“A gente precisa fortalecer jovens lideranças, novas lideranças do território nacional para que consigam lutar dentro do seu território pelos direitos e garantir políticas públicas”, afirmou.
Para ela, a participação política também é uma ferramenta fundamental para garantir avanços. “A gente precisa votar em pessoas que defendem a pauta LGBT e os direitos humanos”, declarou.
Ao falar para pessoas LGBTQIA+ que ainda enfrentam preconceito, Toni Reis reforça a importância de redes de apoio e acolhimento. “É muito importante a gente se cercar de pessoas que respeitam. Um ciclo mínimo de pessoas que te acolham como você é”, afirmou.
Rafaelly também deixa uma mensagem de permanência e resistência: “A gente não pode desistir, não pode deixar de viver e de lutar. Existem pessoas que podem nos apoiar”, disse, destacando a importância das redes de apoio.
Mais de 50 anos depois de Stonewall, o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ segue como uma data de celebração, de cobrança por direitos, respeito e dignidade. Uma lembrança de que conquistas históricas vieram da mobilização coletiva — e que a luta continua.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Toni Reis
Instagram: @toni_reis




